28 Mai 2026
"As redes da extrema direita católica estão excitadas. O Papa Leão XIV em Encíclica pede perdão pelo apoio da Igreja à escravidão, defende o humano perante a IA e mergulha no mundo do trabalho para recuperar um humanismo integral e singular. Nada de culto ao inferno ou defesa de tradicionalismo delirante e anacrônico. A crítica do mundo moderno por dentro do moderno mundo e não a partir de a priori destituído de sentido", escreve Romero Venâncio, graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia de Recife (ITER) e professor de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em análise publicada em seu Facebook, 27-05-2026.
Eis o artigo.
A presença meteórica e singular do Papa Francisco à frente da Igreja católica durou 12 anos. Marcado por um profundo desejo de reforma, Francisco de Roma nos transmitiu um sentimento raro dentro da Igreja Católica: em raros momentos da história da Igreja, um Papa era melhor do que a Igreja. Porque, no geral, os Papas são bem piores do que a base da Igreja. Assim caminhou a história. O Papa Francisco construiu uma estratégia em dupla ação, para dentro e para fora da Igreja, articuladas dialeticamente. Para dentro, a Sinodalidade (participação e engajamento missionário!). Para fora, a defesa da “Casa Comum” (um estadista-humanista). Trazia uma lufada de inteligência para dentro da Igreja.
Leão XIV assume o “trono do pescador Pedro” diante de uma herança popular de Francisco desafiadora. Não podia ser um mero “Francisco II”, mas não podia recuar diante de tão corajoso e inovador legado. Qual caminho seguir? Robert Prevost vinha de uma tradição agostiniana acostumada a uma intimidade com Deus desde seu fundador, Santo e Filósofo. Prevost/Leão foi caminhando devagar, mas firme. Afirmou categoricamente não ter medo do “senhor deste mundo” (Donald Trump, um cretino com poder) e seguiu fiel a sua jornada pela paz. Escreveu em continuidade com Francisco, a sintomática exortação: “Dilexi Te”. Era preciso dizer ao mundo uma palavra segura e posicionada. “Deus acolhe os pobres”. Tenhamos esperança. Afirmou Leão: “Para nós, Cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé.” Em síntese, indicou um rumo para seu pontificado. Mas faltava uma marca. Falta uma primeira Encíclica. Documento com identidade papal. E veio…
Magnifica Humanitas. Maio de 2026. 135 anos da “Rerum Novarum”. Com um subtítulo extraordinário: “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”. Um programa e rumo do pontificado. O documento papal tem 05 capítulos articulados que vai do Evangelho ao mundo digital. Sem anacronismos ou condenações vazias. O Papa não tem medo do mundo moderno e nem se rende a ele. Faz a critica por dentro. E sabe que não haverá evangelização definindo condenações a priori ou se deixando levar pela maré capitalista e delirante diante da “Inteligência artificial”.
As redes da extrema direita católica estão excitadas. O Papa Leão XIV em Encíclica pede perdão pelo apoio da Igreja à escravidão, defende o humano perante a IA e mergulha no mundo do trabalho para recuperar um humanismo integral e singular. Nada de culto ao inferno ou defesa de tradicionalismo delirante e anacrônico. A crítica do mundo moderno por dentro do moderno mundo e não a partir de a priori destituído de sentido. Abre mais um horizonte para uma teologia arejada e libertadora. Da “Dilexi Te” à “Magnifica humanitas”, aquela teologia com cheiro de enxofre perde lugar.
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