O Apocalipse não é o fim do mundo, mas a salvação do cristão. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Wesley Almeida | cancaonova.com

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27 Mai 2026

"Para as novas gerações, esse legado se traduz em um dever de lucidez crítica em relação ao poder. Reconhecer as 'bestas' de nosso tempo não serve para se desesperar, mas para se reapropriar de uma cidadania ativa e consciente, capaz de dizer 'não' às derivas totalitárias da tecnologia e 'sim' a uma história que permanece e sempre estará nas mãos do homem e de Deus."

O artigo é de Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicado por La Stampa, 23-05-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Um número relevante de observadores e intelectuais interpretam, de forma pertinente, estes nossos tempos como os "dias do Apocalipse", como uma "revelação" do poder tecnológico que explora o medo para impor uma nova ordem global. Em um brilhante artigo publicado no La Stampa há algumas semanas, Massimo Cacciari interpreta o uso de símbolos apocalípticos pelos poderosos, citando Peter Thiel, não como destruição física, mas como uma revelação da natureza radical dos nossos tempos. Para Cacciari, essas categorias religiosas revelam o poder teológico-político escondido por trás da tecnologia, evidenciando uma crise na ordem mundial liberal.

Concordo plenamente com a avaliação do amigo Cacciari e, como biblista, confirmo que as próprias palavras iniciais do último livro do cânone do Novo Testamento — "Revelação de Jesus Cristo" — deveriam bastar para refutar a interpretação, que acabou se tornando comum, de que "apocalipse" é sinônimo de catástrofe, de forma que o Apocalipse de João seria o livro que trata do fim do mundo e anuncia os desastres e as calamidades que o acompanham. Como "revelação de Jesus Cristo", o Apocalipse não revela nada além do que já foi revelado por Deus em Cristo morto e ressuscitado; simplesmente aplica essa revelação à história humana em sua totalidade. O interesse fundamental do Apocalipse não é, de fato, a vida após a história, mas a história deste mundo, a história da humanidade, na qual se movem as comunidades cristãs às quais ele se dirige: a história lida à luz do evento pascal, que aconteceu dentro da história e redefiniu a própria história.

O Apocalipse, portanto, não é o livro do fim do mundo, mas sim a celebração do evento pascal, proclamado como chave hermenêutica e princípio dinâmico de uma história que está inteiramente nas mãos de Deus. O evento decisivo e central na história da salvação não deve ser esperado em um futuro incerto, mas já aconteceu, e é a Páscoa de Cristo. Essa consideração nos permite entender como o Apocalipse pode ser compreendido como uma mensagem de esperança. Em vez de incutir medo, esse livro encoraja e infunde esperança nos cristãos que, no final do primeiro século, sofriam perseguição sob o Império Romano. Na verdade, mais do que um fim, o Apocalipse fala de um propósito, um télos: não anuncia o fracasso, mas o cumprimento do mundo, seu sentido, seu futuro. Aliás, se a história é o tempo dotado de sentido, para o Apocalipse, o que dá sentido ao tempo é o evento pascal. A vitória da vida sobre a morte configura a história como história de salvação e como lugar de esperança, por ser abraçada por "Aquele que é, que era e que há de vir" (não "que será", o futuro do ser de Deus se manifesta em seu vir), que é "o Alfa e o Ômega", portanto, o Senhor da história e do tempo.

"Nunca fui otimista nem pessimista. Sou apenas um apocalíptico. Nossa única esperança é o Apocalipse. O Apocalipse não é a escuridão. É a salvação. Nenhum cristão poderá jamais ser otimista ou pessimista: isso é meramente um estado de espírito secular."

Com essas palavras marcantes de Marshall McLuhan, Giuliano Zanchi inicia um belo ensaio sobre o último livro da Bíblia, intitulado Il bene che vince, L'Apocalisse libro di speranza (O bem que vence, o Apocalipse, livro da esperança), publicado pela Vita e Pensiero. Como católico convertido, em 1977, McLuhan via o Apocalipse não como a escuridão, mas como a salvação, porque representa o encontro com a verdade. Num mundo dominado pelo ruído das mídias, o "fim" desse sistema é a única maneira de retornar a uma dimensão espiritual autêntica. O cristão não se deprime nem se exalta pelas flutuações do mundo, porque sua esperança reside numa realidade que transcende o tempo e a tecnologia. Para Zanchi, "McLuhan está certo: um católico não pode deixar de olhar muito além dos limites da história terrena". Se o Apocalipse de João está na boca de todos e nos olhos de muitos hoje, para Zanchi isso acontece com muita frequência de uma maneira não evangélica, numa combinação pouco pertinente entre catastrofismo ocidental tardio e literalismo apocalíptico das Escrituras, muitas vezes até mesmo por parte de crentes cristãos que pregam o abandono do mundo ao seu triste destino e consideram a história já definitivamente perdida.

Giuliano Zanchi oferece uma orientação de releitura intensa que não cai na especialização, mas é clara e acessível — quase uma introdução para iniciantes — para resgatar o verdadeiro significado do Apocalipse, que não é um livro de condenação, mas um livro de esperança. O Apocalipse de João é certamente apocalíptico, mas apocalíptico evangélico e cristão. "O Apocalipse de João não fala do fim do mundo, mas do lugar central que o evento de Jesus ocupa na lógica da história e na estrutura da criação."

Um percurso capaz de uma sapiente atualização do texto bíblico não podia ignorar o nosso presente, especialmente a exploração instrumental do Apocalipse pelos desdobramentos ideológico-religiosos dos novos superpoderes das tecnologias, declaradamente apocalípticas. Referindo-se explicitamente a Peter Thiel e aos tecnopoderes do momento, Zanchi argumenta que "na atual transformação das energias geopolíticas, a força disruptiva dos 'Impérios' parece ter retornado ao centro, aquelas concentrações de poder que o Livro do Apocalipse descreve como uma besta que sobe da terra", da qual se torna cúmplice a "besta que sobe do mar", o poder religioso indicado pelo Apocalipse. A aliança entre essas duas "bestas" produz efeitos devastadores: a sacralização do poder, o controle das consciências, a exclusão dos dissidentes.

A reflexão de Zanchi traça uma linha clara entre o apocalipse cultural, entendido como catástrofe e dominação tecnológica, e o Apocalipse evangélico, entendido como revelação e esperança. A mensagem que emerge com força é um convite à resistência espiritual e intelectual. Se o poder moderno — o “novo Império” tecnopolítico — utiliza a linguagem do fim para paralisar o ser humano no medo e no conformismo, o Apocalipse de João age ao contrário, como um antídoto para o medo. Ele não anuncia o naufrágio da história, mas revela seu centro de gravidade: o evento pascal que liberta o tempo do caos e o entrega a um propósito de salvação.

Para as novas gerações, esse legado se traduz em um dever de lucidez crítica em relação ao poder. Reconhecer as “bestas” de nosso tempo não serve para se desesperar, mas para se reapropriar de uma cidadania ativa e consciente, capaz de dizer “não” às derivas totalitárias da tecnologia e “sim” a uma história que permanece e sempre estará nas mãos do homem e de Deus. Ser apocalípticos hoje significa rejeitar o pessimismo do mundo para abraçar a verdade de sentido, testemunhando que o bem, longe de estar derrotado, é o princípio dinâmico que guia o mundo rumo ao seu cumprimento. Sim, é o bem que vence.

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