O pensamento escravocrata na era da Inteligência Artificial. Artigo de Moisés Mendes

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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27 Mai 2026

O argumento matemático dos pensadores das elites para sabotar o fim da escala 6X1.

O artigo é de Moisés Mendes, jornalista, publicada por ExtraClasse, 11-05-2026. 

Eis o artigo.

Essa foi uma das crueldades cometidas em nome do fim da escravidão: o Brasil é que iria se livrar dos danos do escravismo. Não eram os escravizados que iriam se libertar do sistema que os explorava há mais de 300 anos. Mesmo os pensadores considerados liberais do século 19 cometiam esse ‘erro’ de avaliação.

É o que os jornais publicavam. Antes de pensarem no que a libertação significaria para o escravizado, as elites refletiam sobre os benefícios do fim da escravidão para o país. É mais ou menos o que dizem hoje os pensadores liberais do século 21, com um detalhe que os diferencia.

Os liberais do século 19, influenciados por fatos históricos recentes, como a Revolução Francesa, eram mais ‘iluministas’ do que os liberais produtivistas de hoje. Faíscas daqueles tempos vinham de fora e iluminavam ou pareciam iluminar os abolicionistas.

Hoje, não. Tudo o que se lê, sob o ponto de vista da elite empresarial, em reflexões de pensadores do liberalismo, passa sempre pela questão ‘racional’ posta por essa pergunta, diante da possibilidade de acabarem com a escala 6X1: o que o país ganha com isso?

Não perguntam o que pode mudar na vida das pessoas se elas tiverem dois dias de folga e como isso pode repercutir na qualidade de vida e em todas as atividades, mesmo sob o ponto de vista da economia.

Dois exemplos pontuais, que estão na capa do jornal O Estado de São Paulo, na edição desse 26 de maio. O primeiro, em texto de um dos pensadores ‘liberais’ do jornal, o cientista político Fernando Schüler, tem esse título em forma de interrogação: “A pergunta real sobre o fim da escala 6×1. Haverá ganho de produtividade?”.

O segundo exemplo, no mesmo Estadão, é do colunista Rodrigo da Silva, com essa chamada: “Por que o debate sobre a escala 6×1 precisa de menos romantismo e mais aritmética”.

Os liberais do século 19, apesar dos erros que cometiam ao verem os negros como passivos à espera de uma abolição redentora, abandonaram cedo essas contas básicas da matemática que atormenta hoje os liberais dos tempos da Inteligência Artificial.

Os liberais do século 19 diriam hoje: é muito mais do que a aritmética, estúpido. Fernando Henrique Cardoso mostra, em “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional”, publicado em 1962, que a escravidão nas charqueadas do Rio Grande do Sul era a economia do desperdício.

Mantinham escravizados como custo fixo, quando poderiam ter empregados assalariados. Antonio José Gonçalves Chaves, o grande charqueador de Pelotas, fazia também abordagens humanistas em seus escritos na forma de diário, para além da questão econômica, quando começou a refletir sobre os dilemas dos escravocratas.

Os negros escravizados deveriam ser libertados, segundo ele, não só pela questão econômica, mas pelo direito de serem livres como os brancos. Mas o mesmo Fernando Henrique mostra que, em 1858, colegas de Chaves enviaram carta ao governador da Província com um pedido.

Reivindicavam o direito de recrutar para a região sul do Estado os colonos alemães que haviam entrado pelo porto de Rio Grande e ganhavam terras nas proximidades de Porto Alegre. Os alemães deveriam substituir os negros e se transformar em escravos brancos.

O Império queria branquear o Brasil e acabar com a escravidão. Os charqueadores queriam dar outro rosto ao escravismo, para manter o mesmo modelo de exploração do trabalho cativo. Se a escravidão acabasse, o mundo das charqueadas, dos canaviais e dos cafezais iria quebrar. O pedido foi rejeitado.

No início da década de 80 do século passado são deflagrados movimentos abolicionistas no Estado, e em 1884 os gaúchos anunciam: não há mais escravidão no Rio Grande do Sul. Não foi bem assim, mas o processo de libertação estava deflagrado.

O jornal Gazeta do Alegrete, fundado em 1882, nasceu para ser a voz do abolicionismo na região, incluindo fazendeiros e a elite urbana de advogados e comerciantes. A Federação, jornal do Partido Republicano, criado em 1884 e depois dirigido por Júlio de Castilhos, era abolicionista.

Um jornal de São Paulo, criado em 1875, foi uma das vozes mais fortes do abolicionismo no Brasil, apesar de durante muito tempo publicar na capa anúncios em que eram oferecidos, como mercadorias à venda, negros escravizados.

Esse jornal chamava-se A Província de São Paulo e mais tarde passou a se chamar O Estado de São Paulo. É o que chamam há muito tempo de O Estadão, da família Mesquita, publicado até hoje como porta-voz do conservadorismo brasileiro e atualmente sob gestão profissional que inclui prepostos de banqueiros.

Pois esse jornal abolicionista de 1875, que mobilizou os liberais paulistas pelo fim do escravismo, é o mesmo que mobiliza agora os liberais produtivistas do século 21 em defesa da manutenção da escala 6X1. Porque, segundo esses liberais, a questão é matemática.

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