28 Mai 2026
Em sua encíclica, o Papa Leão XIV propõe uma defesa radical da dignidade, do diálogo e da vulnerabilidade como únicas respostas possíveis diante de um mundo cada vez mais desumanizado.
O artigo é de Diego S. Garrocho, professor titular de Filosofia Moral na Universidade Autónoma de Madrid – UNAM, publicado por Ethic, 26-05-2026.
Eis o artigo.
Não há nenhum chefe de Estado que seja capaz de escrever um texto de tamanha ambição moral e intelectual como a encíclica Magnifica Humanitas. De fato, não conheço, sequer entre os círculos acadêmicos e intelectuais, muitas pessoas capazes de dar à luz um documento semelhante. Só por este motivo, a leitura da primeira encíclica de Leão XIV torna-se prioritária para aqueles que andam – andamos - sondando o espírito do nosso tempo.
O documento, de fato, interpela prioritariamente os cristãos, mas se dirige de forma explícita àqueles aliados, diz o Papa, que se mostrem sensíveis à tríade platônica do bem, da verdade e da beleza. Mais do que isso, a exortação de Leão é clara: o diálogo deve ser sempre onipresente e deve ser estabelecido com todos os homens e mulheres do nosso tempo. Sem exceção. Essa universalidade que paira em cada pessoa, singular, sofredora e concreta é um dos traços que atravessam todo o texto.
O ponto de partida foi antecipado na própria escolha do nome que Robert Prevost escolheu como pontífice. Agora, sabemos que situar-se na esteira de Leão XIII era quase um anúncio: se aquele papa atualizou a Doutrina Social da Igreja com a Rerum Novarum, o novo Leão decidiu fazer o mesmo com a circunstância de ruptura que nos coube viver. Cada época tem suas res novae, isto é, suas “coisas novas”, e as do nosso tempo têm necessariamente a ver com o abrupto salto tecnológico, político, existencial e epistêmico que a inteligência artificial trouxe consigo. Doa-nos ou não.
O documento é complexo na medida em que aborda uma realidade presente à luz de premissas intelectuais e espirituais que aspiram a ser eternas. Tomar imagens do Antigo Testamento e explicar o que nos acontece à luz da construção de Babel ou da muralha de Jerusalém não é simples, mas essa é a missão confiada aos papas. E eu me atreveria a dizer que a todos os grandes pensadores: conciliar o circunstancial com o eterno, o contingente com a necessidade, o imanente com o transcendente.
Consciente da condição colossal desta gigantomaquia, Leão XIV se apetrecha de recursos presentes no arsenal da tradição cultural cristã, e não apenas nela. Santo Agostinho, Tolkien, Arendt, Frankl e São Tomás são pertinentemente convocados quando o argumento exige alguma autoridade para além das fontes bíblicas. E, sobretudo, como é costume no gênero, a encíclica não deixa de mencionar aqueles que o precederam na cátedra petrina.
O início da encíclica é aberta e explicitamente social, o que poderá surpreender quem não está acostumado a ler encíclicas. Leão XIV apela à destinação universal dos bens, à subsidiariedade, à solidariedade e, inclusive, ironiza a ineficiência da mão invisível do mercado, enfatizando a imperiosa necessidade de que existam redes sólidas que garantam uma educação pública. A opção preferencial pelos pobres, as referências abertíssimas aos migrantes e a insistência nos marginalizados, nos fracos e nos que sofrem revelam sua inapagável sensibilidade missionária. Quem viveu entre os pobres não consegue esquecer disso, e Prevost exibe com orgulho e lucidez aquelas verdades das quais foi testemunha.
Haverá quem intua rupturas ou revoluções. Também não faltará quem queira traduzir as teses do Papa para um esquema ideológico e político. Vão se equivocar por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o mais radicalmente social afirmado por Leão é legitimado nas palavras de seus predecessores. Sem rupturas. E, em segundo lugar, porque cada afirmação passível de ser encaixada no precário sistema da esquerda ou da direita corre o risco de entrar em colisão com afirmações que figuram em outro lugar do texto.
A condenação da desigualdade e a menção à redistribuição ou aos sindicatos convivem com uma persistente defesa da liberdade da pessoa. As menções abertas à igualdade das mulheres são expressas um parágrafo após ter condenado com contundência o aborto. Quem quiser usar o Papa em benefício próprio terá dificuldades. A menos que esteja disposto a mentir ou a recortar o documento para tirar vantagem. O que, certamente, haverá quem faça.
Um dos traços mais originais desta encíclica é o seu objeto e a novidade que envolve o exame da inteligência artificial. E é justo que assim seja, já que quando passarem anos ou séculos, esta será a primeira vez que um Papa se pronuncia sobre uma tecnologia que impactará, já é certo, o destino da humanidade. Suas teses a esse respeito são sólidas e ambiciosas.
Leão adverte que o progresso científico não acarreta necessariamente o progresso moral e lembra as palavras de Romano Guardini quando apontou que “o homem moderno não está educado para usar corretamente o seu o poder”. A IA nos torna mais capazes, mas potencializar nossas faculdades torna mais possível do que nunca o aumento das desigualdades, quando não da escravidão.
Alguns intérpretes destacam as cautelas que o Papa propõe em relação à tecnologia e que podem ser resumidas no lema - certo e literal - de que é preciso desarmar a IA. O herdeiro de Pedro elenca os riscos habituais, sobre os quais não poucos estudiosos já nos alertaram: que a IA incorpora riscos ecológicos, interrompe a cadeia de responsabilidade na tomada de decisões, introduz vieses e desigualdades e aumenta a relação entre conhecimento e poder até estabelecer novas formas de domínio. Curiosamente, essas são as teses mais previsíveis e, talvez, as menos genuínas, não por isso menos importantes.
Penso que o valor mais original da encíclica está na matriz moral ou nas premissas éticas que inspiram o diagnóstico e a terapia. Leão XIV impugna não apenas a eficiência e o cálculo - isso muitos fazem. O Papa nos alerta sobre os riscos de interpretar a humanidade em termos de capacidade e superação pura. Sua antropologia, naturalmente baseada no pano de fundo do Evangelho, insiste em acolher a vulnerabilidade e o limite da humanidade não como um defeito, mas como sua condição mais própria.
Frente à fantasia transumanista ou pós-humanista que busca transcender nosso limite exacerbando nossas faculdades, Prevost reivindica a humanidade ferida, de pele e coração sofrido, consciente de seu limite e aberta, sobretudo, ao rosto e à limitação alheia. A consideração teórica e abstrata ganha altitude de forma abertamente soberana, sem esquecer as condições concretas nas quais a IA se desenvolve e que requer “corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo dos cálculos não se interrompa”. Ao lado da abstração metafísica do teólogo, convive sempre a prática concreta e executiva do Prevost missionário.
Junto com a IA, a guerra é o outro grande eixo sobre o qual a Magnifica Humanitas se concentra, uma ameaça antiga que se situa e se agrava no mundo contemporâneo. Mais uma vez, o eterno paira em uma circunstância concreta, desta vez, como problema. Neste ponto, o Papa redobra sua ambição e se serve da exortação quase desesperada de Paulo VI: “Nunca mais a guerra!”. O slogan poderia parecer vazio, se não estivesse sustentado por uma quantidade de argumentos sólidos e até radicais, no melhor sentido da palavra.
Leão XIV não é um ingênuo, nem um publicista delicado de uma moral infantil ou beatífica. Tem consciência dos argumentos realistas, mas sua aposta na civilização do amor ultrapassa a praticidade daqueles que resumem a política à gramática do amigo-inimigo, do eles ou nós. A Realpolitik é considerada e explicitamente desprezada como uma forma de irresponsabilidade.
O Papa não só propõe desarmar a IA, mas exorta, implora e roga aos cristãos que também desarmem a linguagem. Para aqueles que encontram nas guerras culturais o seu refúgio ou para os irônicos valentes, esta parte da encíclica incomodará de modo especial. Leão XIV não escreveu uma encíclica vaga ou conciliadora. Este documento tem algo de escandaloso, e nota-se a vocação de impacto que possui sobre o âmbito civil e, inclusive, sobre a ordem mundial. Por trás de cada guerra, diagnosticará o pontífice, não costuma haver mais do que um interesse econômico tão injusto quanto ilegítimo. Por trás da agressividade polarizadora dos discursos, costuma acabar aparecendo, sempre, o ídolo maligno do dinheiro.
Se virtudes teologais como a fé e a caridade atravessam todo o documento, o Papa reserva a última parte da encíclica para invocar a esperança. Em cada momento da história, mesmo nas noites mais escuras, apareceram homens e mulheres capazes de semear essa civilização do amor. Diante dos grandes desafios da IA ou das guerras globais, Leão reivindica a moral da proximidade praticada nos ambientes cotidianos. Essa pequena fidelidade que cada um de nós tem ao alcance das mãos é o lugar a partir do qual se constrói a paz e a justiça, segundo seu diagnóstico.
Falar com todos, negociar com todos, dialogar com todos em nome da vulnerabilidade humana é o primeiro passo para reconstruir um mundo que, aos olhos de todos, encontra-se irremediavelmente ferido. O Papa interpela os cientistas, acadêmicos, políticos e, de novo, cada um de nós. Ninguém conseguirá defender a parcela de realidade para a qual temos sido recrutados em nome da justiça, parece sugerir o Papa. A história, diz a encíclica de forma literal, pode mudar quando ao menos um único homem ou uma única mulher leva a sério a dignidade de todos.
Prevost parece ter assumido essa responsabilidade. Seu empenho contrasta com o desmoronamento de tantas outras autoridades. Em um mundo tão carente de líderes, esta encíclica oferece, no mínimo, um ponto de partida para pensar e sobre o qual se poderia discutir durante um semestre letivo inteiro na universidade.
Com essa encíclica, fica claro que Leão XIV não está disposto a se conformar com um papado figurativo. Magnifica Humanitas não é um documento cômodo, nem foi escrito com este propósito. Mais uma vez, uma verdade antiga volta a se fazer nova: como deixou escrito São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, aquele Cristo Crucificado era um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios. E a receita continua vigente. Não devemos ter medo de sujar as mãos na obra do nosso tempo, adverte Prevost no início da encíclica. E este Papa parece disposto a agir assim, convidando-nos a pensar o que significa continuar sendo humanos em uma época fascinada com a possibilidade de deixar de ser.
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