Anthropic, Sanders e Musk em Santa Marta. Assim nasceu a encíclica

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26 Mai 2026

Na origem do documento pontifício da virada. Há também uma pequena sala na Universidade Gregoriana, por trás da Magnifica Humanitas de Robert Francis Prevost. Era o gabinete do jesuíta Roberto Busa, inventor da linguagem computacional e do hipertexto, que conduziu a humanidade à revolução dos metadados que mudou o mundo. "Um dos pilares da Escola de Georgetown, uma das universidades mais antigas dos EUA, que também formou o Padre Paolo Benanti", explica o padre Filippo Di Giacomo, canonista e analista de assuntos eclesiásticos. “A primeira encíclica de Leão XIV é o resultado de estudos e reflexões desenvolvidos ao longo de uma década nas academias pontifícias lideradas pelo bispo argentino Marcelo Serondo. As mentes mais brilhantes da alta tecnologia, como os fundadores da Anthropic, o visionário Elon Musk, e líderes atentos às implicações éticas da tecnologia, como o senador estadunidense Bernie Sanders, vieram ao Vaticano e foram recebidos em Santa Marta para amplos debates”. Esse é o "trabalho incessante e nos bastidores empreendido pela Santa Sé para redescobrir o fio condutor da contemporaneidade na doutrina social católica".

A reportagem é de Giacomo Galeazzi Arcangelo Rociola, publicada por La Stampa, 25-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O objetivo que culminou na encíclica apresentada hoje por Leão XIV é "o novo humanismo que a Igreja postula desde a primeira revolução industrial com Leão XIII". Só que "naquela época, os antagonistas do Papa eram Marx e Engels; agora, é uma oligarquia financeira cujo único ponto de agregação de valor é a riqueza. Chega ao absurdo de que sete plutocratas possuam o equivalente ao PIB de 150 países", afirma Di Giacomo. E acrescenta: "Uma trajetória que vai da Rerum Novarum à Popolorum Progressio de Paulo VI, à Centesimus Annus de João Paulo II e à Laudato Si' de Francisco". Encíclicas sociais e sínodos episcopais "dedicados às implicações da inovação na vida coletiva e individual, aos paradigmas de desenvolvimento a serem conciliados com a centralidade da pessoa na comunidade".

Até poucos anos atrás, ninguém imaginaria que o Vaticano e o Vale do Silício colaborariam no terreno comum da inteligência artificial. "Mundos demasiados distantes, demasiados diferentes, segundo uma narrativa distraída e talvez até secularista", acrescenta o Padre Di Giacomo. De um lado, uma instituição milenar que tem seu horizonte temporal no religioso e no eterno; do outro, o mundo da tecnologia, construído sobre a velocidade e a mudança a qualquer custo. Mas essa reaproximação aconteceu. E foi a conclusão de uma trajetória de uma década, construída em silêncio.

Tudo começou por volta de 2016. Um padre francês, o padre Eric Saladier, reúne-se com alguns protagonistas da indústria tecnológica no Vale do Silício. São eles que dão o primeiro passo: querem falar com o Vaticano. Não para receber instruções morais, mas para dialogar com uma das fontes mais antigas de reflexão sobre o ser humano. Algo está por vir, dizem eles. Algo enorme. E querem que a Igreja esteja ciente disso. A partir desse momento, começam encontros mensais confidenciais. Pequenos grupos sentados em torno de uma mesa. Os técnicos distribuem listas de leitura, descrevem o que veem no horizonte. Falam da chegada próxima de uma revolução que pode ser considerada mais cognitiva do que industrial. Ninguém registra atas. Apenas se escuta.

O ponto de contato entre os dois mundos torna-se um pároco irlandês de Los Altos, na Califórnia: o padre Brendan McGuire. É ele quem constrói, tijolo por tijolo, durante quase uma década, a rede de confiança que une o Vale do Silício e o Vaticano. Na Califórnia, é fundado o Instituto de Tecnologia, Ética e Cultura (Itec), fruto de uma parceria entre o Dicastério para a Cultura do Vaticano e a Universidade de Santa Clara. Em 2020, em Roma acontece a Rome Call for AI Ethics. Depois, chega o ChatGPT em 2022. O lançamento público da OpenAI muda tudo. As empresas de IA percebem que têm nas mãos algo que pode mudar o próprio destino da humanidade. E percebem que não possuem uma base moral para servir de fundamento para as suas ações.

Elas não se perguntam mais se a ética importa ou não em suas ações. Elas se perguntam como praticá-las bem. Não se trata mais de adotar um lema corporativo que diga: "Estamos fazendo o bem para a humanidade", como fizeram Google, Facebook e Apple. Trata-se de acompanhar a humanidade em uma Era na qual o desenvolvimento tecnológico ultrapassou a capacidade coletiva de reflexão moral. É nesse contexto que Christopher Olah entra em cena. Cofundador da Anthropic, de 34 anos, ele é pioneiro na pesquisa sobre a segurança e a interpretabilidade das redes neurais. Olah representa aquela parte da indústria da tecnologia que optou por fazer uma pergunta incômoda: como realmente funciona essa coisa que estamos construindo?

Sua área de pesquisa estuda os circuitos internos dos modelos, identifica os neurônios que se ativam quando um sistema forma conceitos como o engano ou o preconceito. É a tentativa de abrir a caixa preta. Com um objetivo a mais: evitar que o desenvolvimento da IA saia do controle, tornando-se meramente instrumento de guerra, repressão e controle em massa. A Magnifica Humanitas não é uma encíclica sobre a inteligência artificial. É uma encíclica sobre os tempos em que vivemos. Hoje, pela primeira vez na história, um Papa participará pessoalmente na apresentação de sua própria encíclica. Isso não é um detalhe cerimonial. É um sinal: essa não é uma doutrina que vem de cima. É uma abertura para o diálogo. Eis a virada.

O padre Giulio Albanese, missionário comboniano, conselheiro da Secretaria de Estado do Vaticano e diretor de Comunicações do Vicariato de Roma, aponta para "o tema subjacente que une a Rerum Novarum de Leão XIII e a Magnifica Humanitas do sucessor que escolheu seu mesmo nome". E especifica: "Assim como Leão XIII leu a primeira industrialização e a questão operária à luz do Evangelho, Leão XIV parece querer ler a revolução digital e a IA com os mesmos instrumentos: dignidade do trabalhador, primazia da pessoa sobre o capital (hoje também sobre os dados e os algoritmos), justiça nas estruturas econômicas, função social da propriedade, subsidiariedade, solidariedade. O Papa Prevost está concluindo uma trajetória de dez anos de atualização. O futuro tem um coração antigo e suas raízes estão no diálogo contínuo entre fé e ciência."

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