27 Março 2026
Parolin afirmou que a Páscoa era o momento perfeito para pôr fim à guerra "insensata" do presidente Trump e do vice-presidente Vance no Oriente Médio.
O artigo é de Christopher Hale, publicado por Letters from Leo, 26-03-2026.
Eis o artigo.
O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e diplomata de mais alto escalão da Igreja Católica, declarou na quinta-feira que a guerra da Casa Branca de Trump-Vance contra o Irã não satisfaz as condições da doutrina católica da guerra justa.
Questionado diretamente em uma conferência acadêmica na Biblioteca Apostólica Vaticana sobre se a campanha militar atendia aos critérios morais da Igreja, Parolin respondeu: "Não, não parece atender às condições".
“A Páscoa é a festa da paz, a paz do Senhor ressuscitado, e, portanto”, acrescentou Parolin, “é uma ocasião especial para renovar este convite e pôr fim a esta loucura que é a guerra.”
A declaração equivale a um julgamento moral formal da autoridade mais graduada do Vaticano abaixo do Papa Leão XIV — e surge num momento em que a oposição da Santa Sé à guerra se transformou numa campanha institucional sustentada, que já dura um mês, contra a política externa da administração Trump.
Parolin fundamentou sua análise em uma fonte que possui significado próprio.
Ele citou nominalmente o argumento moral do Cardeal Robert McElroy, de Washington, que argumentou no início deste mês que a guerra não passa no teste da guerra justa porque seus benefícios projetados não "superam o dano que será causado". Parolin disse na conferência que McElroy "explicou esse ponto muito bem".
McElroy, um dos aliados americanos mais próximos de Leão XIV, tornou-se uma das principais vozes intelectuais do Vaticano em questões de guerra, migração e dignidade humana nos Estados Unidos.
Ele foi um dos primeiros cardeais americanos a condenar formalmente o programa de deportação em massa de Trump como "um profundo fracasso moral". Sua análise moral do conflito com o Irã — publicada em 10 de março, fundamentada em séculos de teologia moral católica, de Agostinho a Tomás de Aquino — foi agora validada no ápice da diplomacia do Vaticano.
A declaração de Parolin é o capítulo mais recente de uma campanha que já dura um mês, liderada pelo Papa Leão XIV e altos funcionários do Vaticano contra a operação militar americana no Irã.
Na segunda-feira, o Papa pediu uma proibição global permanente dos bombardeios aéreos. Na terça-feira, exigiu um cessar-fogo incondicional, descrevendo a “morte e a dor causadas por essas guerras” como “um escândalo para toda a família humana”.
Na semana passada, Trump rejeitou publicamente o pedido de cessar-fogo do papa, vangloriando-se de que os Estados Unidos estavam "aniquilando o Irã". O Vaticano não demonstrou qualquer sinal de que irá ceder. A coordenação em toda a Santa Sé tem sido impressionante.
O Papa Leão XIV abordou a guerra publicamente pelo menos sete vezes desde o início de março.
Em 18 de março, Parolin disse diretamente ao governo Trump para encerrar o conflito. A forma como o Pentágono apresentou a guerra, classificando-a como uma cruzada justa, provocou uma forte repreensão do Vaticano, com a participação do próprio Papa Leão XIV, que afirmou: "Deus não pode ser alistado nas trevas".
Cada intervenção se baseou na anterior, e a especificidade teológica se aguçou a cada semana que passava.
A doutrina católica sobre guerra e paz, codificada ao longo dos séculos e refinada no Catecismo da Igreja Católica, sustenta que a ação militar só pode ser moralmente legítima quando um conjunto de condições rigorosas for cumprido: o dano infligido pelo agressor deve ser duradouro, grave e certo; todos os outros meios de resolução devem ter se mostrado impraticáveis; deve haver sérias perspectivas de sucesso; e o uso de armas não deve produzir males mais graves do que o mal a ser eliminado.
O Catecismo deixa claro que “a avaliação dessas condições de legitimidade moral pertence ao juízo prudencial daqueles que têm responsabilidade pelo bem comum”. Parolin, que detém precisamente essa responsabilidade dentro da Igreja, acaba de proferir seu veredito.
O governo Trump não ofereceu nenhuma resposta direta. Mas as consequências políticas já são visíveis: a disputa está fragmentando a coalizão católica do presidente, com católicos proeminentes do movimento MAGA cada vez mais incapazes de conciliar seu apoio a Trump com o ensinamento inequívoco da Igreja que afirmam defender.
Para os bispos americanos que permaneceram em silêncio, a intervenção de Parolin reduz o espaço disponível.
O secretário de Estado do Vaticano afirmou claramente o que o Papa Leão XIV e seus principais aliados vêm dizendo há um mês: esta guerra não pode ser justificada pelos ensinamentos morais católicos.
O caso doutrinário está encerrado. A questão agora é se os líderes católicos na vida pública americana darão ouvidos à Igreja, cuja autoridade invocam quando lhes convém, ou se continuarão a tratar essa autoridade como opcional quando ela exigir algo custoso.
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