18 Março 2026
"O que essa guerra demonstra com clareza implacável é que a lei da selva não poupa nem mesmo quem pensava tê-la deixado para trás. As monarquias do Golfo acreditavam ter comprado o bilhete de saída da lógica darwiniana com portos reluzentes, investimentos bilionários e diplomacias cautelosas. Hoje, veem-se lançadas de volta à arena, sem aviso prévio e sem saídas de emergência".
O artigo é de Gabriele Segre, publicado por La Stampa, 17-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Gabriele Segre é especialista em questões de identidade e coexistência. Trabalhou durante anos para as Nações Unidas, lidando com questões de liderança e reforma da ONU. Tem doutorado em políticas públicas e liderança pela Universidade de Cingapura, mestrado pela Universidade de Columbia e bacharelado pela Universidade Católica de Milão.
Eis o artigo.
Se o bater de asas de uma borboleta pode causar um furacão do outro lado do mundo, imagine o que acontece quando é um avestruz que bate as asas. Ou talvez um peru histérico com um arsenal nuclear na maleta. Em meio à terceira semana dessa nova guerra no Oriente Médio, a resposta está longe de ser garantida. Era para ser uma operação rápida, cirúrgica, quase uma formalidade burocrática a ser arquivada entre uma coletiva de imprensa e um tuite. Em vez disso, cada dia traz rajadas cada vez mais fortes: escalada militar, gargalos marítimos sufocantes, petróleo decolando a uma velocidade de fazer inveja à NASA— tudo acompanhado pelos grasnidos do Salão Oval, onde inimigos e aliados mudam conforme a direção do vento.
Nessa tempestade perfeita, as consequências certamente não se limitam ao plano econômico ou militar.
Sob a superfície de análises estratégicas, briefings operacionais e tabelas de preços dos combustíveis, ressurge uma lei antiga e visceral: no mundo dos predadores, aquele que demonstra fraqueza corre o risco de ser devorado.
Esse é um pensamento escandaloso para um mundo que construiu ao longo dos séculos sua visão baseada na confiança da primazia da razão, convencido de que a lógica e a ética domariam progressivamente a violência da história. Evidentemente, a corrida rumo à civilização não foi rápida o suficiente. Hoje, não é mais o pensamento que guia as decisões, mas o faro. E quando há cheiro de sangue, mais cedo ou mais tarde alguém morde. O presidente estadunidense é muitas coisas — impulsivo, narcisista, errático, não confiável, perigoso, incompetente — mas, como o predador que raciocina por instinto que é, uma coisa é cristalina para ele: nessa fase da história, parecer fraco é mais perigoso do que parecer louco. É por isso que não pode se dar ao luxo de interromper a guerra por causa do alto preço da gasolina nos postos estadunidenses: se o rei da selva recua por um arranhão, os outros predadores imediatamente começam a preparar o banquete.
Esqueçam Biden e sua desastrosa retirada do Afeganistão. Pelo menos lá havia a desculpa de uma guerra de vinte anos perdida há muito tempo. Aqui, seria um predador imperial expondo a barriga por meio dólar o galão. Um sinal simples e devastador. Exatamente aquilo sobre o que aposta o Irã: sabendo que não pode vencer militarmente, Teerã visa transformar sua vulnerabilidade em um teste da fraqueza do adversário, tentando colocar em curto seu sistema nervoso.
Sejamos claros: o preço da energia ou a inflação são questões muito sérias que pesam sobre a vida de milhões de pessoas, não são de forma alguma meros detalhes. Mas na selva geopolítica, gostemos ou não, a força não é medida pela prosperidade, mas pela dor que se está disposto a suportar sem ceder. Para mais informações, contatar Kiev ou Moscou. A Ucrânia resiste há quatro anos, sacrificando tudo em nome da sobrevivência, plenamente consciente de que a presa encurralada só tem uma estratégia: atingir o predador onde mais dói, na esperança de que, mais cedo ou mais tarde, a ferida o convença a soltar a presa. A Rússia, por sua vez, aceitou enormes custos econômicos, isolamento internacional e desgaste militar apenas para não parecer disposta a ceder. Agora, observa pacientemente para ver se Washington recuará, fortalecida pela lição aprendida em sua própria pele: um animal ferido, mas ainda agressivo, inspira mais respeito do que um rico, porém hesitante. Uma lógica que Israel conhece muito bem e aplica com brutal determinação desde 7 de outubro, há três anos. Na convicção de que quem foi mordido deve morder ainda mais forte para apagar a imagem de si mesmo como presa vulnerável. É o ciclo vicioso mais antigo e feroz da história.
O que essa guerra demonstra com clareza implacável é que a lei da selva não poupa nem mesmo quem pensava tê-la deixado para trás. As monarquias do Golfo acreditavam ter comprado o bilhete de saída da lógica darwiniana com portos reluzentes, investimentos bilionários e diplomacias cautelosas. Hoje, veem-se lançadas de volta à arena, sem aviso prévio e sem saídas de emergência. A China está mais ciente disso do que nunca e observa tempestades e perus com sua proverbial cautela, perfeitamente sabedora de que, enquanto não expuser suas vulnerabilidades, ninguém saberá ao certo onde morder — mas também de que nenhuma estratégia de espera poderá durar para sempre.
Até nós, no Velho Continente, parecemos ter entendido isso, com a ingrata lentidão daqueles que atrofiaram músculos que pensavam nunca mais ter que usar. Repetem isso para nós de todos palanques e de todas as maneiras: da retórica gaullista de Macron — para ser livre, é preciso ser poderoso; para ser poderoso, é preciso ser temido — à crueza gastronômica do canadense Carney: se você não está à mesa, está no menu. Infelizmente, trata-se de desoladores manuais de sobrevivência de curto prazo, em um mundo que já não pede permissão para ser feroz. Aguardando que alguém se lembre, mais cedo ou mais tarde, que a única maneira de realmente sobreviver é parar de se comportar como animais.
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