Exploração de terras raras no RS: projeto põe recursos naturais em risco e viabiliza catástrofes. Entrevista especial com Joel Henrique Ellwanger

A mineração de terras raras tem o potencial de ampliar a perda da cobertura vegetal nas áreas mineradas, além de aumentar a poluição por metais tóxicos e elementos químicos radioativos que são encontrados associados às terras raras, afirma o pesquisador da UFRGS

Foto: Pixabay

Por: Luana de Oliveira | 07 Mai 2026

Os impactos ambientais causados pela degradação da natureza é um fato que tem sido discutido nos âmbitos governamentais, mas pouco tem se levado a sério na prática. O capital sente a necessidade de explorar incansavelmente para continuar a prosperar, enquanto nossa terra se fragmenta em ruínas que a própria sociedade a mantém.

É nesse sentido de exploração predatória que avança o Brasil sobre a extração de elementos terras raras, algo que está sendo discutido para ser implementado inclusive no Rio Grande do Sul. Cidades como Caçapava do Sul estão sendo alvos desse projeto, algo que ameaça os belíssimos cânions e o turismo ecológico da região. Vale lembrar que esses recursos são explorados por empresas internacionais multimilionárias que levam nossos minérios para fora do país, após degradarem um ecossistema inteiro.

Para Joel Henrique Ellwanger, biólogo e pesquisador, a “mineração de terras raras apresenta potencial poluidor significativo. Além dos rejeitos de mineração, que podem conter metais tóxicos e elementos radioativos, os produtos utilizados no processamento desses materiais também são altamente tóxicos”, conta em entrevista especial concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

A contaminação do solo gera consequências à população que vive nesses locais de mineração, onde seus rios são contaminados, e seu corpo sofre as consequências por necessitar beber e se banhar nessa água contaminada.

“Todas as pessoas e animais que habitam áreas próximas à mineração são afetados diretamente pelo empobrecimento dos ecossistemas decorrente das atividades minerárias, pela potencial escassez de água e pelos riscos associados à poluição causada pelo uso de produtos químicos nos processos de extração, bem como pelos rejeitos gerados”, conclui Joel.

Joel Henrique Ellwanger (Foto: Arquivo pessoal)

Joel Henrique Ellwanger é biólogo, doutor em ciências e pesquisador em nível de pós-doutorado do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Confira a entrevista. 

IHU – O senhor tem chamado a atenção para a complexidade da extração de elementos terras raras e enfatizado os impactos socioambientais da exploração no RS, como aumento da poluição – comparando a extração mineral com a queima e extração de carvão em Candiota –, além de perda de patrimônio geológico. Pode explicar como funciona esse processo e quais as dificuldades envolvidas?

Joel Henrique Ellwanger – Atualmente, sabe-se que os elementos terras raras não são necessariamente raros na crosta terrestre, mas raramente ocorrem em concentrações economicamente exploráveis. O problema relacionado à mineração de terras raras é a extração e a separação desses elementos, pois vários deles são comumente encontrados misturados em solos e rochas. Esses processos de extração e separação são extremamente complexos, além de utilizarem muita energia, água e produtos químicos tóxicos. Esse conjunto de fatores torna a mineração de terras raras um desafio do ponto de vista técnico e ambiental.

Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos utilizados sobretudo pela indústria bélica e de aparelhos eletrônicos. Na foto acima, esses elementos estão destacados na tabela periódica, e 15 deles estão representados em frascos (Foto: Joel Henrique Ellwanger | Sedgwick Museum of Earth Sciences, Cambridge, UK, 2026)

IHU – Quais as consequências da exploração de terras raras em meio ao aquecimento global?

Joel Henrique Ellwanger – A mineração de terras raras tem o potencial de ampliar a perda da cobertura vegetal nas áreas mineradas, além de aumentar a poluição por metais tóxicos e elementos químicos radioativos que são encontrados associados às terras raras. A perda de vegetação agrava as mudanças climáticas em decorrência da redução da captura de CO2 anteriormente realizada pela vegetação. Além disso, as mudanças climáticas, por meio de eventos extremos como enchentes, podem aumentar a disseminação de poluentes derivados da mineração. Ou seja, a mineração pode agravar as mudanças climáticas, enquanto os efeitos da poluição tendem a se intensificar à medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes. Trata-se de um círculo vicioso de problemas ambientais graves.

IHU – Quem são as empresas, nacionais e estrangeiras, interessadas na exploração de terras raras no Rio Grande do Sul?

Joel Henrique Ellwanger – No Rio Grande do Sul, a mineração de terras raras ainda está em fase de exploração e pesquisa, sem projetos concretos de extração em operação. Isso significa que estamos diante de uma janela de oportunidades para discutir os rumos da exploração desses recursos no estado. É fundamental que a sociedade gaúcha seja protagonista dessa discussão, antes que interesses e atores externos ocupem esse espaço. Além disso, é necessário agir com rapidez. Recentemente, a empresa Serra Verde, que atua na pesquisa, mineração e refino de terras raras em Goiás, foi adquirida pela empresa americana USA Rare Earth, que conta com participação relevante do governo dos Estados Unidos como acionista. Isso demonstra com clareza que os recursos minerais brasileiros são altamente cobiçados por empresas estrangeiras, especialmente no cenário geopolítico atual.

IHU – Qual é o papel do governo estadual na proibição ou regulação desses projetos de mineração?

Joel Henrique Ellwanger – O governo estadual deve atuar em conjunto com o governo federal na regulação da exploração de terras raras, respeitando as recomendações dos órgãos ambientais, os alertas da comunidade acadêmica e os interesses das comunidades que vivem em áreas onde esses recursos se encontram. Mas, acima de tudo, é importante questionar a real necessidade do Rio Grande do Sul minerar terras raras neste momento em que o Brasil não tem grande demanda industrial por essa matéria-prima. Hoje, as terras raras são uma necessidade urgente principalmente em países que precisam desses recursos em grande quantidade para manter funcionando a indústria militar.

Embora as terras raras possam ser recursos importantes para o futuro do Rio Grande do Sul e para o Brasil como um todo, interesses econômicos externos não devem se sobrepor ao direito constitucional de todo cidadão de viver em um ambiente saudável. Isso implica que a mineração desses elementos não deve ser transformada em mais uma fonte de poluição em um Estado que já enfrenta graves crises ambientais, como a contaminação por pesticidas e a degradação do bioma Pampa, decorrente da expansão de monoculturas como soja, eucalipto e pinus.

As terras raras do Rio Grande do Sul devem ser tratadas pelo governo estadual e pela sociedade gaúcha como recursos finitos, relevantes para a geração atual e para as futuras. Por essa razão, seu uso deve ocorrer com parcimônia, priorizando a produção de bens essenciais ao bem-estar da população, evitando desperdícios e seu aproveitamento como mera fonte de ganhos econômicos de curto prazo, às custas do meio ambiente e das gerações que ainda não nasceram.

IHU – Quais comunidades locais podem ser diretamente afetadas pela mineração em áreas como Caçapava do Sul?

Joel Henrique Ellwanger – Todas as pessoas e animais que habitam áreas próximas à mineração são afetados diretamente pelo empobrecimento dos ecossistemas decorrente das atividades minerárias, pela potencial escassez de água e pelos riscos associados à poluição causada pelo uso de produtos químicos nos processos de extração, bem como pelos rejeitos gerados. No entanto, é fundamental considerar que poluentes como metais tóxicos podem ser facilmente disseminados pelo ar, pela água e pelas teias alimentares, colocando em risco também seres humanos e animais que vivem distantes das áreas mineradas.

Mapa de localização da cidade de Caçapava do Sul/RS (Foto: Daiane Loreto de Vargas | ResearchGate)

Em Caçapava do Sul, as comunidades que dependem do turismo têm grande potencial de serem afetadas economicamente. O município possui uma riqueza geológica expressiva, que atrai visitantes de diversas regiões e apresenta um forte potencial de crescimento no turismo ecológico. Essa relevância foi reconhecida pela UNESCO, que concedeu à região o status de geoparque global. Trata-se de um patrimônio que deve ser valorizado e, sobretudo, protegido. Levando isso em consideração, a implantação de novas atividades de mineração no município mostra-se contraproducente do ponto de vista da saúde pública, do meio ambiente e da economia.

IHU – Quais os riscos de contaminação envolvidos na extração de terras raras? Como a opção pela extração mineral pode afetar a saúde pública nas regiões mineradas?

Joel Henrique Ellwanger – Em primeiro lugar, é importante ressaltar que os elementos terras raras são metais, assim como o ferro, o zinco e vários outros elementos da tabela periódica. Os metais são fundamentais para a vida, compondo estruturas celulares e participando do metabolismo de seres humanos, animais e plantas.

Além disso, alguns metais, incluindo os elementos terras raras, têm aplicações importantes na vida moderna. Por exemplo, são utilizados na produção de componentes eletrônicos, como chips de celulares, e em baterias de veículos elétricos.

Apesar dessas aplicações, muitos metais apresentam elevada toxicidade, especialmente quando presentes em altas concentrações nos organismos ou no meio ambiente. Ainda se sabe pouco sobre os potenciais efeitos tóxicos específicos dos elementos terras raras. No entanto, um estudo que realizei com colegas na UFRGS indicou que vários desses elementos têm a capacidade de interagir com o material genético, o DNA, de seres humanos e animais, o que representa um importante sinal de alerta sobre seus potenciais efeitos tóxicos. Além disso, outros estudos já indicam que a exposição a elementos terras raras e a seus rejeitos pode causar prejuízos relevantes à saúde humana.

Além de interagir com o DNA, alguns elementos terras raras podem “imitar” o comportamento de íons como o cálcio no organismo, interferindo em processos biológicos essenciais, o que pode resultar em efeitos tóxicos. Ou seja, a relação com os recursos minerais que contêm esses elementos, assim como com outros metais, deve ser conduzida com cautela.

A mineração de terras raras apresenta potencial poluidor significativo. Além dos rejeitos de mineração, que podem conter metais tóxicos e elementos radioativos, os produtos utilizados no processamento desses materiais também são altamente tóxicos. Esse conjunto de poluentes está associado a uma variedade de problemas de saúde, incluindo complicações gestacionais, déficits no desenvolvimento infantil e doenças graves, como câncer e desordens neurodegenerativas.

O empobrecimento ambiental causado pela mineração também está associado a impactos na saúde mental, como a depressão. A carga de doenças relacionadas a áreas mineradas é elevada, gerando prejuízos significativos para a qualidade de vida da população e para aumento dos gastos públicos. Além disso, muitas vezes não são considerados os impactos sobre espécies animais e a perda de serviços ecossistêmicos, que também representam custos relevantes. Esses prejuízos são frequentemente subestimados em debates sobre os potenciais benefícios econômicos da exploração de terras raras no Rio Grande do Sul.

IHU – O Brasil possui capacidade tecnológica para beneficiar terras raras internamente ou continuará exportando matéria-prima bruta? Qual é a real demanda da indústria brasileira por terras raras e quanto dessa produção seria exportada?

Joel Henrique Ellwanger – Atualmente, a capacidade brasileira de beneficiamento de terras raras em escala comercial é mínima, sendo inexistente no Rio Grande do Sul. A empresa Serra Verde, que opera em Goiás e conta com capacidade de extrair e processar elementos terras raras em escala comercial, foi recentemente adquirida por uma companhia americana, conforme mencionei anteriormente.

Além disso, o uso e, principalmente, a produção e o processamento de terras raras pela indústria tecnológica brasileira ainda são limitados, sendo que grande parte do refino ocorre em países como a China. Nesse contexto de limitações, minerar terras raras no Brasil sem o desenvolvimento da capacidade nacional de beneficiamento e de aplicação tecnológica desses recursos implica a manutenção do país na posição de exportador de matéria-prima bruta e de baixo valor agregado, destinada principalmente a países do Norte Global.

IHU – Que interesses geopolíticos internacionais estão por trás do aumento da atenção sobre as reservas brasileiras?

Joel Henrique Ellwanger – A China domina o cenário global de mineração e beneficiamento de terras raras. Por essa razão, potências econômicas como os Estados Unidos e diversos países europeus encontram-se em posição de dependência para a obtenção desses recursos.

Esse cenário coloca esses países em uma situação de desconforto, tanto em termos geopolíticos quanto econômicos, especialmente no que diz respeito à dependência de preços e condições de acesso às terras raras definidos pela China. Além disso, esses elementos são essenciais para a indústria bélica, o que faz com que os Estados Unidos estejam particularmente preocupados com essa dependência.

No contexto atual, o Brasil é visto como um ator estratégico na disputa geopolítica envolvendo terras raras, pois é entendido como um país mais maleável aos interesses americanos do que a China. No entanto, caso o país não se posicione de forma firme e soberana na defesa de seus recursos minerais, há o risco de que seu território se torne progressivamente mais degradado e poluído para atender a interesses externos, especialmente ligados ao setor bélico.

IHU – Se a mineração para a transição energética causa danos irreversíveis ao meio ambiente, quais iniciativas devem ser implementadas para minimizá-las? Como o histórico de impactos ambientais da mineração no estado influenciam o debate atual?

Joel Henrique Ellwanger – De fato, a mineração de terras raras desempenha um papel relevante na transição energética e não deve ter esse potencial ignorado. No entanto, os impactos ambientais dessa atividade também não podem ser negligenciados.

No Brasil, o histórico de desastres ambientais associados à mineração, como os rompimentos de barragens de rejeitos em Mariana e em Brumadinho, ainda parece exercer influência limitada sobre o planejamento de novos projetos de mineração no país. No Rio Grande do Sul, fora do meio acadêmico, há pouca discussão pública sobre os problemas de saúde associados à poluição decorrente da mineração de carvão na região de Candiota.

Mineração de carvão na região de Candiota/RS (Foto: Divulgação Gov)

É justamente por isso que defendo que as terras raras devem ser utilizadas prioritariamente para finalidades essenciais, como a transição energética voltada ao bem-estar das populações, o desenvolvimento de tecnologias estratégicas e aplicações médicas. Esses recursos não deveriam ser direcionados a finalidades bélicas ou a usos que beneficiem exclusivamente o lucro de grandes corporações.

As potencialidades das terras raras precisam ser compreendidas como um patrimônio coletivo da sociedade brasileira e, por isso, devem ser reguladas pelo Estado. Além disso, é fundamental ampliar a recuperação de metais já em circulação, por meio da reciclagem de baterias e de equipamentos eletrônicos. Essa prática, conhecida como “mineração urbana”, pode contribuir para reduzir o desperdício de recursos e a necessidade de expansão de novas áreas de mineração.

IHU – Que riscos estão associados ao armazenamento e descarte de rejeitos, incluindo materiais potencialmente radioativos?

Joel Henrique Ellwanger – Os riscos incluem principalmente a contaminação do solo e de fontes de água, que podem afetar tanto a fauna quanto as populações humanas. Também é importante destacar que rejeitos de mineração podem permanecer tóxicos por longos períodos, inclusive por centenas de anos, dependendo de sua composição. Isso significa que esses materiais exigem monitoramento contínuo ao longo de gerações. Ou seja, os rejeitos produzidos hoje constituem um passivo ambiental herdado pelas gerações futuras.

IHU – Como a exploração de terras raras pode impactar biomas sensíveis como o Pampa e a Mata Atlântica e qual a importância da não exploração nessas localidades?

Joel Henrique Ellwanger – O Pampa é um bioma que, no Brasil, ocorre apenas no estado do Rio Grande do Sul e, por isso, somos diretamente responsáveis por sua proteção. No entanto, esse bioma vem sofrendo intensa redução em cobertura vegetal em decorrência da expansão de monoculturas e da silvicultura. Em muitas regiões do estado, é difícil encontrar áreas de campo nativo que não tenham sido convertidas em lavouras de soja ou em “desertos verdes”, dominados por plantações de eucalipto, acácia-negra ou pinus. A situação da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul também é preocupante, uma vez que a expansão urbana tem avançado sobre sua área original, contribuindo significativamente para a perda de biodiversidade.

Considerando esse cenário, expandir as atividades de mineração no estado exclusivamente por razões econômicas implica substituir paisagens naturais, fauna e flora, e toda a riqueza sociocultural associada a elas, por ganhos de curto prazo que beneficiam interesses de poucos. Caso não defendamos essas riquezas, o Rio Grande do Sul pode se tornar uma grande zona de sacrifício socioambiental, voltada a atender interesses econômicos externos. Isso seria triste e vergonhoso.

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