Guerra, mineração e algoritmos: as engrenagens da desigualdade. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 25 Abril 2026

O Brasil está sendo arrendado para os Estados Unidos? Na edição de hoje, vamos dar destaque para a venda da mineradora Serra Verde e a exploração de terras raras brasileiras. No Dia da Terra, não temos muito para comemorar. As guerras continuam a adoecer o mundo e destruir o meio ambiente. Os Data Centers encontram terreno fértil para crescer em solo brasileiro e aumentam ainda mais desigualdade. Exploramos também como a Inteligência Artificial está sendo usada para atacar as democracias. Desigualdades como projeto político da extrema-direita. Como o Brasil pode sair dessa condição histórica? Há um ano o Papa Francisco nos deixava, mas o seu legado permanece. Entre progressos e desafios, damos destaque ao papado de Bergoglio e o futuro da Igreja Católica.

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Terras raras, soberania e disputa global

A disputa pelas terras raras no Brasil evidencia como o país permanece no centro de uma geopolítica internacional marcada pela exploração de recursos naturais e pela fragilidade da soberania nacional. No norte de Goiás, a mineradora Serra Verde, responsável pela principal operação de extração de terras raras fora da Ásia, foi vendida para a empresa norte-americana USA Rare Earth em uma negociação bilionária que simboliza a crescente influência estrangeira sobre riquezas estratégicas brasileiras. O objetivo da compra é estruturar uma cadeia produtiva internacional, com a extração realizada no Brasil, a separação dos minerais nos Estados Unidos e a produção tecnológica concentrada na Europa, mantendo o Brasil como exportador de matéria-prima e dependente das decisões externas.

Esse modelo repete a lógica histórica do extrativismo, que pouco contribui para o desenvolvimento local. Pesquisadores alertam para a formação de “cidades-enclave”, com pouca diversificação econômica e riqueza raramente reinvestida na própria região. Além disso, a extração de terras raras envolve uso intensivo de produtos químicos tóxicos e rejeitos com potencial radioativo, trazendo sérios riscos ambientais e à saúde humana. Politicamente, enquanto setores da direita defendem maior aproximação com os Estados Unidos, parlamentares do PSOL e o presidente Lula reforçam a defesa da soberania nacional e questionam a entrega do patrimônio mineral brasileiro.

Dia da Terra em um planeta adoecido

A disputa por minerais estratégicos se conecta diretamente aos conflitos internacionais e à crise climática. A tensão entre Estados Unidos, Irã, China e Europa mostra que o controle de recursos como lítio, cobre, níquel e terras raras se tornou peça central da política global. O conflito com o Irã, por exemplo, afeta diretamente cadeias produtivas e reorganiza alianças internacionais, alterando também o posicionamento geopolítico do Brasil. Ao mesmo tempo, Lula busca ampliar acordos internacionais sobre minerais críticos com países como Espanha, Índia e Coreia do Sul.

As Nações Unidas alertam que grande parte dos conflitos internos das últimas décadas esteve ligada à exploração de recursos naturais. Isso demonstra que guerra, desigualdade e crise ambiental não são problemas isolados, mas expressões do mesmo colapso civilizatório. O meio ambiente se torna a principal vítima esquecida: guerras destroem ecossistemas, enfraquecem comunidades e aprofundam emergências climáticas. Pensadores como Leonardo Boff e Ailton Krenak defendem a necessidade de uma nova consciência planetária, capaz de reconhecer a Terra como casa comum e não apenas como território de disputa e exploração.

IA, tecnofeudalismo e o risco à democracia

A lógica de exploração ambiental também se expande para a base material da tecnologia contemporânea. A inteligência artificial e os data centers, frequentemente associados ao progresso e à inovação, dependem de enorme consumo de água, energia e minerais, ampliando a pressão sobre o meio ambiente. No Rio Grande do Sul, a instalação desses empreendimentos levanta questionamentos sobre impactos ambientais e sociais, especialmente quando grandes projetos são apresentados como sinônimo de desenvolvimento sem considerar justiça social e participação democrática.

Além da questão ambiental, surge uma preocupação política ainda mais profunda. O economista Yanis Varoufakis define esse processo como “tecnofeudalismo”, em que o poder deixa de estar apenas nos Estados e passa a se concentrar em grandes plataformas tecnológicas que controlam dados, comportamentos e decisões coletivas. A filósofa Donatella Di Cesare amplia essa reflexão com o conceito de “tecnofascismo”, uma forma de dominação baseada em vigilância algorítmica, neutralização do dissenso e corrosão interna da democracia. Assim, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passa a representar um novo sistema de poder.

Desigualdade como projeto de poder

As lógicas neoliberais e autoritárias aprofundam as desigualdades sociais e transformam a exclusão em método de governo. Nos Estados Unidos, os bilhões investidos em guerras poderiam ser direcionados para programas públicos essenciais, como saúde e assistência social. A guerra e o militarismo se tornam instrumentos de poder, enquanto a população paga a conta com cortes sociais e precarização da vida. No Brasil, falas de aliados bolsonaristas apontam para propostas de revisão da Previdência e da legislação trabalhista, abrindo espaço para perda gradual de direitos e enfraquecimento da proteção social.

Ao mesmo tempo, cresce a concentração de riqueza no mundo. O número de bilionários aumenta, enquanto milhões seguem sem acesso ao básico, como saneamento, moradia e trabalho digno. O professor Antonio David Cattani alerta que os super-ricos representam uma ameaça à própria democracia, pois influenciam governos e escapam dos controles institucionais. A desigualdade também aparece na precarização do trabalho doméstico e no avanço da pejotização, que reduz direitos e amplia a informalidade. Celso Furtado já demonstrava que o subdesenvolvimento é uma estrutura histórica baseada em desigualdades profundas, e superá-lo exige ação do Estado e compromisso coletivo.

O legado de Papa Francisco

O legado do Papa Francisco permanece como uma das maiores referências éticas e humanistas do mundo contemporâneo. Seu pontificado foi marcado pela defesa dos pobres, pela crítica ao sistema econômico excludente, pelo enfrentamento das guerras e pela preocupação com a destruição ambiental. Jorge Mario Bergoglio transformou a Igreja Católica em um espaço mais aberto ao diálogo, à justiça social e à acolhida dos marginalizados. Sua famosa frase sobre Jesus “trancado dentro da Igreja” simboliza sua tentativa de libertar o cristianismo de estruturas rígidas e aproximá-lo da realidade humana.

Essa herança continua presente tanto no Papa Leão XIV quanto em cardeais como Reinhard Marx, que ampliam debates sobre acolhimento e inclusão, inclusive para casais homoafetivos. No entanto, o legado de Francisco enfrenta resistência de setores conservadores que utilizam a religião como instrumento de poder político. Donald Trump e sua aliança entre guerra, nacionalismo e discurso religioso representam justamente essa distorção da fé, promovendo violência em nome de valores cristãos. O desafio atual da Igreja e da sociedade é não se acostumar com a desigualdade, a violência e a destruição ambiental, mas transformar indignação em ação concreta em defesa da dignidade humana e da justiça social.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.