Uma (nova) história do deus - Flávio, cristofascista ‘escolhido’ e totalmente crente. Artigo de Fábio Py

Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

24 Abril 2026

"Ora, nada é mais característico do cristianismo hegemônico do que a ideia de um 'chamado', de uma 'missão' atribuída a um 'Filho de Deus'. Poucos elementos sensibilizam tanto o universo do cristianismo comum quantos essas noções. Nesse sentido, o marco inicial da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro se dá por meio da leitura de uma carta pública escrita por Jair Bolsonaro (pai), na qual destaca a escolha do filho, o '01'", escreve Fábio Py, doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor do Programa de Pós-graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

Eis o artigo.

“Pelo Senhor, marchamos sim
O Seu exército, poderoso é
E Sua glória será vista em toda terra
Vamos cantar o canto da vitória
Glória Deus, vencemos a batalha (...)
O nosso general é Cristo
Seguimos os Seus passos
Nenhum inimigo nos resistirá
O nosso general é Cristo
Seguimos os Seus passos
Nenhum inimigo nos resistirá”

(Nosso general é Cristo)

O artigo busca delinear a pré-campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro como a de um cristão que teria “retornado ao evangelho” para assumir a missão (atribuída pelo pai) de se tornar candidato à Presidência da República. Para isso, são analisadas quatro cenas digitais produzidas para suas redes sociais, em datas-chave do calendário cristão, entre o fim de 2025 e o início de 2026. Nessas ocasiões, o político recorre ao repertório religioso para construir o que chama de uma “história de Deus” no campo da política. Cabe lembrar que Flávio é o filho mais velho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, conhecido como “01” dentro de uma espécie de linhagem político-familiar marcada por traços autoritários. Ao mesmo tempo, nesses primeiros meses de pré-campanha, ele vem operando uma estratégia midiática de relativo distanciamento da figura do pai — movimento compreensível, dado o desgaste associado à sua imagem e às acusações envolvendo tentativas de ruptura institucional.

Flávio Bolsonaro nasceu no Rio de Janeiro e iniciou sua trajetória política ao ser eleito deputado estadual, cargo que ocupou por mandatos consecutivos entre 2003 e 2019. Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), consolidou-se com uma atuação alinhada a pautas típicas da extrema-direita, especialmente nas áreas de segurança pública e defesa de “valores morais”. Em 2018, no contexto da eleição presidencial de seu pai, foi eleito senador pelo estado do Rio de Janeiro, passando a atuar no Congresso Nacional a partir de 2019. Sua trajetória política também foi marcada por controvérsias, como as acusações de “rachadinhas”, envolvendo o desvio de parte dos salários de assessores de seu gabinete durante o período em que exerceu o mandato de deputado estadual.

Um cristofacismo mais crente

Agora, há pouco de mais teológico (e político) do que ser anunciado pré-candidato à Presidência da República em pleno Natal. Por isso, reafirma-se que é uma herança do bolsonarismo a orquestração do uso do calendário litúrgico cristão em articulação com as mídias, de forma politicamente orientada. Tal estratégia já foi demonstrada em análises anteriores sobre a Páscoa de 2020 e de 2021, quando o então presidente Bolsonaro publicou mensagens nas quais assumia um lugar de messias eleito por deus para conduzir a nação brasileira. Esse é o ponto de partida para sustentar que esse setor autoritário articula um “cristofascismo brasileiro”. Em outras palavras, trata-se do uso de elementos litúrgicos, exegéticos e hermenêuticos de vertentes ultraconservadoras e fundamentalistas do cristianismo para a construção de uma plataforma de ações autoritárias (nos termos de Adorno), combinadas com o aprofundamento do neoliberalismo, a perseguição a setores considerados heterodoxos (como comunistas e populações LGBTQIAP+) e a produção de políticas que expõem os mais pobres à morte (Adorno, 2020).

Assim, o “cristofascismo brasileiro” não deve ser entendido como uma etapa passageira, mas como parte de um modo de fazer política de determinados setores sociais no país. Essa formulação dialoga com a teóloga alemã Dorothee Sölle, que cunhou o termo “cristofascismo” ao analisar o contexto do nazismo. Sölle investigou as relações entre membros do Partido Nazista e igrejas cristãs no desenvolvimento do estado de exceção na Alemanha, evidenciando como o regime se apropriou de linguagens e símbolos cristãos para sua legitimação (Sölle, 1970). No caso alemão, Adolf Hitler mobilizou jargões cristãos como elementos centrais de seus discursos, recorrendo, por exemplo, a passagens bíblicas como “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8,32) e “Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, instrumentalizadas para defender uma ideia de família cristã tradicional. Além disso, participou de encontros religiosos (luteranos e católicos) e manteve relações com lideranças e intelectuais cristãos.

O conceito de cristofascismo brasileiro também pode ser articulado com a reflexão de Walter Benjamin, que compreende o fascismo não como simples regressão civilizatória, mas como algo inscrito nas próprias condições de reprodução da modernidade liberal e burguês-capitalista, na qual opera continuamente uma “estetização da política” (Benjamin, 2012). Essa operação estética - que implica uma simplificação da complexidade política - favorece concepções conservadoras sobre moral, família e progresso, frequentemente mediadas por formas de fundamentalismo, convertendo o todo nacional em um estado de exceção efetivo. Além de Benjamin, incorpora-se aqui de modo mais direto a contribuição de Theodor Adorno. Isso porque o projeto político em questão, já em seus momentos iniciais, pode ser analisado à luz de sua reflexão sobre a propaganda fascista, que “não é tanto a expressão de um conteúdo ideológico consistente quanto a utilização de elementos simplificadores do discurso, sem maiores justificativas” (Adorno, 2015, p. 141). Para Adorno, o agitador fascista deve ser compreendido menos como um pensador sistemático e mais como um “técnico da psicologia de massas” (Adorno, 2015, p. 154).

Trata-se, portanto, de um tipo de atuação política que recorre sistematicamente a uma lógica de simplificação extrema, baseada em silenciamentos e na construção de uma unidade artificial (Adorno, 2020). Essa operação é particularmente perigosa porque projeta a ideia de sujeitos universais, ao mesmo tempo em que exclui e silencia aqueles que não se enquadram nessa norma. A partir desse quadro teórico, passa-se à análise de quatro postagens realizadas nas redes sociais de Flávio Bolsonaro em datas centrais do cristianismo hegemônico, com o objetivo de explicitar as estratégias contemporâneas dessa nova configuração de cristofascismo (ainda mais marcada por uma performance pública de uma espiritualidade).

Cena 1: O Natal da vocação na carta do cristofascismo

Ora, nada é mais característico do cristianismo hegemônico do que a ideia de um “chamado”, de uma “missão” atribuída a um “filho de Deus”. Poucos elementos sensibilizam tanto o universo do cristianismo comum quantos essas noções. Nesse sentido, o marco inicial da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro se dá por meio da leitura de uma carta pública escrita por Jair Bolsonaro (pai), na qual destaca a escolha do filho, o “01”. De certa forma, esse posicionamento tornou-se necessário diante da força que ganhavam outros nomes, como Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro, cogitados para compor uma possível chapa. Para reafirmar sua escolha em meio a controvérsia, a comunicação foi realizada em 25 de dezembro de 2025, por meio de uma carta manuscrita por Bolsonaro. O texto foi lido pelo próprio Flávio, acompanhado do “02” (o vereador Carlos Bolsonaro), em frente ao Hospital DF Star.

Antes da leitura, o “01” afirmou que o pai se preparava para uma cirurgia, mencionando duas vezes o nome de Deus e destacando a importância das “orações”. Nesse momento, chama atenção o fato de ele indicar que a carta já havia sido escrita anteriormente, mas foi deliberadamente tornada pública naquela data. O que reforça o peso simbólico do momento na decisão de “indicar Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República em 2026”, conforme registrado na leitura. Esse elemento sustenta o argumento de uma espécie de “atenção messiânica política” presente na carta, na qual Bolsonaro afirma: “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil. Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo de preservar a representação daqueles que confiaram em mim”.

Assim, em pleno 25 de dezembro de 2025 - data em que a tradição cristã celebra o nascimento de Jesus -, ativa-se uma operação teológica densa no interior do cristianismo. Trata-se da ideia de que Jesus, entendido como deus (segunda pessoa da Trindade), “se esvazia” para tornar-se humano. Uma das formulações clássicas dessa doutrina é a kenosis (do grego), frequentemente associada a Filipenses 2,7, no qual indica uma forma de “autoesvaziamento” ou “auto-humilhação” do divino ao assumir a condição humana. Essa construção teológica está ligada à noção de missão: deus envia o filho para o sacrifício, com o objetivo de redimir a humanidade. Esses elementos são centrais nos manuais tradicionais de teologia cristã. Nesse sentido, no dia simbólico desse “esvaziamento” - o nascimento do “Filho de Deus” -, Jair Bolsonaro, por meio da carta, atribui ao seu primogênito uma missão política de “resgatar o Brasil”.

Ele próprio afirma: “entrego (…) o próprio filho”, para que este lidere “essa corrente de milhões de brasileiros que honram a Deus, a pátria, a família e a liberdade”. Dessa forma, de maneira cuidadosamente construída, a carta opera uma transferência de legitimidade que mobiliza categorias centrais da teologia cristã. A incumbência atribuída é elevada: assim como na narrativa cristã, o filho assume uma missão de redenção. A carta, portanto, carrega um forte apelo de transmissão messiânica de pai para filho, orientada à “preservação da representação daqueles que confiaram” no líder anterior. Desse modo, observa-se um processo de vocação política que articula elementos do cristianismo fundamentalista com a construção de um projeto de poder. Trata-se de uma operação que contribui para a reconfiguração do cristofascismo brasileiro, ao combinar linguagem religiosa, herança política e a ampliação de práticas de exceção no campo estatal.

Cena 2: A estética da reconciliação do primogênito em meio às divergências

Na segunda mensagem do dia de Natal, após a leitura da carta, o “01” aparece na Igreja Batista da Lagoinha, em Orlando, liderada pelo pastor bolsonarista André Valadão. A ida chama atenção por se diferenciar do padrão habitual das aparições públicas da família Bolsonaro em ambientes religiosos. Isso porque Jair Bolsonaro, em suas visitas a igrejas, costumava ocupar posição de destaque, frequentemente indo à frente para falar. Nesse caso, a postura do “01” é distinta: ele não se dirige ao púlpito. Ao contrário, vai à frente para receber oração, em um gesto de “reconciliação com Deus”. No vídeo , constrói-se uma cena cuidadosamente estetizada, na qual ele aparece como um “bom cristão”, acompanhado da família no Natal.

Retoma-se aqui a reflexão de Walter Benjamin sobre a estetização da política. Nesse caso, trata-se de uma estética de cunho fundamentalista que atua para suavizar críticas internas ao campo bolsonarista, especialmente diante das disputas em torno da escolha do candidato. Entre os críticos, destaca-se Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que afirmou que Flávio não possuía “musculatura política” e indicou como mais competitivos nomes como Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro.

Nesse “momento estetizador” (Benjamin, 1987), o “01” aparece diante de Valadão, que convida fiéis a uma “reconciliação com Deus”. Acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, e do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), o senador participa da oração pastoral. Posteriormente, ao comentar o episódio, descreveu sua ida à igreja como um “momento especial de oração”, no qual sentiu “de forma muito clara a presença de deus”, afirmando ainda que entregou “a Ele a vida do meu pai”, confiando na condução divina do procedimento cirúrgico. Nesse discurso, observa-se a retomada do vínculo com o pai, mediada pela linguagem religiosa. Para reforçar essa construção, o “01” recorre a formulações de forte apelo teológico: “Creio no deus que cura, que restaura e que sustenta. Ele é o médico dos médicos e vai restabelecer a saúde de Jair Bolsonaro”.

A ideia de reconciliação com deus mobiliza elementos centrais do fundamentalismo pietista, especialmente ao enfatizar atributos divinos como cura e restauração. A expressão “médico dos médicos” dialoga diretamente com o Evangelho de Lucas 5,31 - “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes”, seguido da afirmação de que Jesus veio chamar não os justos, mas os pecadores. Essa referência reforça o sentido performático da ida “à frente do culto”: um gesto público de reconhecimento, arrependimento e recomeço. Trata-se de um rito de passagem, que prepara o sujeito para um novo ciclo - neste caso, a entrada mais explícita na disputa eleitoral. Essa cena estética (Benjamin, 1987), ancorada em elementos do cristianismo fundamentalista, cumpre uma função estratégica no universo religioso: aquele que recebe uma missão divina deve, antes, se reconectar plenamente com o divino. Ainda mais quando se trata de uma missão política atribuída no interior de uma linhagem familiar.

Assim, ganha sentido o registro público, em pleno Natal, do “01” sendo filmado ao se “reconciliar com deus”, como parte da construção de sua legitimidade para a candidatura. Ao mesmo tempo, a cena atua como resposta às críticas internas, operando como um gesto de recomposição simbólica. Deste modo, esse conjunto de duas cenas digitais (a carta e a reconciliação) apresenta o “01” simultaneamente como herdeiro de uma missão messiânica e como sujeito em processo de purificação para exercê-la. A seguir, passam-se às duas cenas da Páscoa de 2026.

Cena 3: A Páscoa do 01 e a simplificação cristão-política pelo valor da família

Após as duas cenas do Natal de 2025, passa-se às duas cenas da Páscoa de 2026, agora com um tom mais claramente devocional, em sintonia com o cristianismo hegemônico. Afinal, depois de receber a missão atribuída pelo “capitão” e de passar por um processo simbólico de redenção no Natal, o “01” busca se apresentar como “verdadeiramente cristão”. No vídeo, afirma que essa é uma “época do ano que traz muita esperança para todos nós: a Páscoa”, destacando-a como “um dos momentos mais profundos da fé: a paixão, morte e ressurreição de Jesus”. Ao mobilizar essa sequência (paixão, morte e ressurreição), demonstra conhecimento da temporalidade central do calendário litúrgico cristão e da narrativa fundamental da fé.

Nesse contexto, o “01” aciona elementos clássicos do léxico cristão: “amor ao próximo”, “perdão”, “compaixão” e “renovação”. São termos diretamente associados à tradição pascal, o que evidencia uma construção discursiva que busca demonstrar familiaridade com o universo cristão, especialmente com sensibilidades católicas e evangélicas. Ao mesmo tempo, é importante destacar o tom genérico e conciliador adotado. Ao evocar valores como “amor”, “solidariedade” e “esperança” , o discurso se aproxima do que Theodor Adorno identifica, em Aspectos do Novo Radicalismo de Direita (2020), como uma forma de moderação discursiva estratégica. Trata-se de uma linguagem que mobiliza valores amplamente aceitos, dificultando sua contestação e reduzindo a resistência crítica.

Como observa Adorno, “os movimentos radicais de direita frequentemente adotam um tom aparentemente razoável e moderado, a fim de tornar suas posições aceitáveis a um público mais amplo” (Adorno, 2020, p. 79). Esse tom também funciona como preparação do terreno simbólico para discursos posteriores, potencialmente mais polarizadores. No caso em análise, ao discursar sobre a Páscoa, o “01” apresenta valores cristãos como se constituíssem uma base ética comum a toda a sociedade. Com isso, desloca o cristianismo do campo confessional para um horizonte civilizacional mais amplo. Trata-se de um movimento discursivo relevante, pois estabelece uma conexão entre religião e o nacional - um dos mecanismos centrais do que se denomina cristofascismo. Essa operação torna-se evidente quando afirma que a mensagem pascal pode inspirar “todos nós, independentemente de nossa crença”. Ao fazê-lo, suaviza diferenças culturais e religiosas, ao mesmo tempo em que universaliza uma gramática cristã específica. Esse movimento pode ser interpretado à luz do conceito adorniano de ideologia, entendido como aquilo que se apresenta como universal enquanto encobre sua particularidade.

Nesse sentido, o vídeo configura uma performance de pertencimento religioso. O “01” demonstra domínio do vocabulário cristão e o mobiliza em uma data central do calendário litúrgico para se posicionar como alguém “de dentro” do universo da piedade cristã. Esse elemento é estratégico para sua candidatura, que busca instrumentalizar o cristianismo hegemônico como base simbólica de um projeto de poder - possivelmente ainda mais densificado do que aquele mobilizado por seu pai. Assim, o vídeo de Páscoa, ao enfatizar “amor”, “perdão” e “solidariedade” em um nível superficial – depois do “chamado” e a “reconciliação” com o divino –, contribui para uma simplificação religiosa da política. Essa simplificação pode, posteriormente, abrir espaço para a construção de antagonismos, inimigos e exclusões - elementos constitutivos do dispositivo cristofascista, que se tornam mais visíveis na cena seguinte.

Cena 4: A Páscoa do 01 e o dispositivo cristofascista a partir do texto de Colossenses

Como já indicado, além da reflexão religiosa no dia 5 de abril de 2026, Flávio Bolsonaro também envia um recado no contexto das tensões internas da extrema-direita brasileira em torno das eleições. Em meio às disputas no campo autoritário, grava um vídeo no qual afirma: “Tô gravando esse vídeo pra tentar chamar todos pra racionalidade. É muito angustiante ver lideranças do nosso lado se digladiando”. Na sequência, mobiliza um elemento clássico da retórica dos fascismos ao declarar: “enquanto a gente tem um país pra resgatar e o inimigo não tá aqui, tá do lado de lá. Esse é o tipo de confusão que não tem vencedor, todo mundo sai perdendo!”. A construção discursiva do “inimigo”, localizado sempre “do outro lado”, constitui uma peça central do que Theodor Adorno analisa como traço das personalidades autoritárias.

Nesse tipo de formulação, o “lado de lá” (frequentemente associado à esquerda ou a adversários políticos) deixa de ser reconhecido como parte legítima do jogo democrático e passa a ser enquadrado como inimigo a ser combatido. Como observa Adorno, há um deslocamento das tensões e contradições internas do grupo para uma figura externa, permitindo a recomposição da unidade interna (Adorno, 2015, p. 121). Nesse sentido, “indivíduos autoritários tendem a pensar em termos rígidos de ‘nós’ e ‘eles’” (Adorno, 2015, p. 123). Na mesma direção, Umberto Eco observa que a construção de um inimigo é fundamental para dar coesão e propósito a determinados projetos políticos, funcionando como elemento organizador da identidade coletiva (Eco, 1995). É nesse registro que a fala do “01” deve ser compreendida: ao afirmar que “todo mundo sai perdendo”, ele não apenas critica conflitos internos, mas convoca seu campo político à recomposição estratégica diante de um adversário comum.

Esse tipo de construção está diretamente associada a uma lógica binária, típica de formações autoritárias, que operam a partir de oposições rígidas. Nessa chave, emerge o apelo à “unidade” como valor absoluto - uma unidade que tende a suprimir divergências internas. O “01” explicita esse movimento ao afirmar: “Pessoal, a partir de agora, todos nós temos que focar em um só objetivo: bora olhar pra frente”. A partir desse ponto, o discurso avança para uma fundamentação explicitamente religiosa, mobilizando diretamente o universo do cristianismo fundamentalista. Para sustentar a necessidade de superação dos conflitos internos, recorre ao texto bíblico de Colossenses 3,13: “Não fiquem irritados uns com os outros e perdoem uns aos outros; caso alguém tenha alguma queixa contra outra pessoa, assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem uns aos outros”. Ao acionar essa passagem, atribui um fundamento teológico à necessidade de unidade política. Trata-se de uma reatualização da carta paulina, originalmente escrita em um contexto de divergências na comunidade de Colossos, na qual se orienta o comportamento dos fiéis diante de conflitos internos. Como observa James D. G. Dunn, trata-se de uma exortação à construção de uma “nova vida em Cristo”, que inclui práticas de reconciliação e perdão (Dunn, 1996, p. 325).

No entanto, no contexto analisado, esse recurso opera como uma transposição direta do stor teológico para o político, mobilizando um passado idealizado para reforçar a necessidade de coesão interna. A repetição do imperativo “perdoem uns aos outros” assume, assim, uma função estratégica: não apenas religiosa, mas também política. Em meio a esse discurso, o “01” reforça seu apelo ao afirmar: “Pessoal, só vem comigo, vem me ajudar a devolver a fé”. Essa formulação é central. Seu projeto não se apresenta apenas como um projeto de governo, mas como uma missão de restauração simbólica: “devolver a fé, a esperança e a alegria para nossa nação”. Lida em articulação com o uso do texto bíblico, a expressão “devolver a fé” adquire contornos próximos ao pietismo cristão fundamentalista, vinculando a ideia de renovação espiritual à reorganização da vida nacional. Ao final, o discurso se fecha com uma hierarquização clara de prioridades: “todo o resto agora é menor”. Essa afirmação funciona como uma ratificação do projeto político apresentado, ao mesmo tempo em que reforça o apelo à unidade como valor superior. Trata-se de uma operação potencialmente problemática do ponto de vista democrático, pois tende a desqualificar divergências, reduzir o espaço do debate e enfraquecer práticas deliberativas.

Não por acaso, esse discurso é proferido no contexto da Páscoa, data central do cristianismo, reforçando o uso estratégico de símbolos religiosos para sustentar uma política de unificação. Ao mobilizar o texto de Colossenses nesse cenário, constrói-se a ideia de que, fora dessa lógica de coesão, “todo o resto agora é menor” — o que explicita, em termos discursivos, o funcionamento do dispositivo cristofascista.

Indicações parciais sobre um cristofascismo mais “crente”

Como se demonstrou ao longo das cenas analisadas (especialmente nas postagens vinculadas a datas centrais do calendário litúrgico, como o Natal e a Páscoa), Flávio Bolsonaro constrói sua pré-candidatura à Presidência da República a partir de uma narrativa que o apresenta como um “filho entregue” à missão de liderar a nação. Trata-se de uma elaboração que guarda paralelos com a figura de Jesus no cristianismo, mobilizando a ideia de vocação, sacrifício e envio. Nesse sentido, evidencia-se a construção estratégica de uma “história com Deus” como eixo organizador da campanha do “01”. Na segunda cena, por exemplo, sua presença na igreja, sendo publicamente “orado”, não apenas reforça sua imagem de piedade, mas também marca um momento de submissão e entrega ao divino, necessário para legitimar o início de seu projeto político. Como ele próprio afirma, trata-se de uma “reconciliação com Deus” (gesto de forte apelo em um país majoritariamente cristão).

Essa “história com Deus” avança ao longo dos meses seguintes. Já na cena da Páscoa, o “01” assume a posição de alguém autorizado a “trazer uma palavra” à nação, mobilizando elementos centrais da fé cristã para construir uma mensagem de alcance coletivo. Em seguida, no mesmo contexto pascal, aprofunda esse movimento ao recorrer ao texto bíblico de Colossenses, atribuindo um fundamento teológico à necessidade de superação das divergências internas. Nesse ponto, a operação se torna mais evidente: ao afirmar que tudo aquilo que escapa a esse projeto é “menor”, estabelece-se uma hierarquia simbólica na qual a unidade do campo político alinhado à sua candidatura se sobrepõe às diferenças. Assim, a “história com Deus” que estrutura essa narrativa não apenas legitima o candidato, mas também orienta o comportamento esperado de seus apoiadores (especialmente no sentido da coesão e da obediência).

Desse modo, o que se observa é a consolidação de uma forma específica de cristofascismo, na qual elementos do cristianismo, especialmente em sua vertente fundamentalista, são mobilizados para sustentar um projeto de poder. Nessa configuração, a dimensão religiosa não aparece apenas como adorno retórico, mas como eixo estruturante de legitimidade política. Isso permite compreender por que aspectos potencialmente controversos da trajetória do candidato (como acusações políticas, posições radicais ou performances públicas) tendem a ser relativizados ou reabsorvidos no interior dessa narrativa. Afinal, toda “história com Deus” comporta tensões, desvios e ambiguidades, que são reconfigurados como parte de um percurso maior de missão. Assim, mais do que um recurso pontual, a articulação entre linguagem religiosa, calendário litúrgico e estratégia política indica a formação de um dispositivo mais amplo, no qual fé, poder e o nacional se entrelaçam. É nesse entrelaçamento que se delineia uma versão ainda mais “crente” do cristofascismo brasileiro contemporâneo.

Referências bibliográficas:

ADORNO, T. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Editora Unesp, 2019.

ADORNO, T. W. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp, 2020.

BENJAMIN, W. A obra de arte na era da sua reprodutividade técnica. Em: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e a história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012,

DUNN, J. D. G. The Epistles to the Colossians and to Philemon: A Commentary on the Greek Text. Grand Rapids: Eerdmans, 1996.

ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 1995.

PY, F. Bolsonaro’s Brazilian Christofascism during the Easter period was plagued by COVID-19, International Journal of Latin American Religions, n. 12, 4, 2020.

SOELLE, D. Beyond Mere Obedience: Reflections on a Christian Ethic for the Future, Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1970.

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