A dignidade das palavras. Artigo de Tonio Dell’Olio

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Apenas algumas horas após receber um doutorado honorário da UAB, essa importante voz da teoria feminista analisa as causas e possíveis soluções para a ascensão do totalitarismo

    “É essencial que a esquerda pare de julgar a classe trabalhadora que vota na direita.” Entrevista com Judith Butler

    LER MAIS
  • “Meu pai espiritual, Santo Agostinho": o Papa Leão XIV, um ano depois. Artigo de Carlos Eduardo Sell

    LER MAIS
  • É divulgado o relatório do Grupo de Estudos do Sínodo sobre questões LGBTQ+; novas formas de resposta do ministério

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

17 Março 2026

"É uma linguagem brutal, que fere a alma dos povos antes mesmo dos corpos das vítimas. Porque as palavras nunca são inocentes. Preparam o terreno, cavam trincheiras, acostumam as consciências à violência", escreve Tonio Dell’Olio, padre italiano, jornalista e presidente da associação Pro Civitate Christiana, publicado por Mosaico Di Pace, 13-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Mesmo antes das bombas, da chuva de mísseis e do zumbido dos drones, há algo que hoje parece ter se desintegrado na comunidade internacional: a dignidade das palavras. A linguagem da política mundial foi progressivamente se despojando de todo pudor. Não há mais nenhuma tentativa — ao menos formal — de justificar as próprias ações com valores, direitos e responsabilidades. Resta apenas a afirmação descarada da força. Nos lábios de Vladimir Putin, Donald Trump, dos Khameneis, de Benjamin Netanyahu, as palavras já nem sequer buscam a camuflagem diplomática. Não se invocam princípios universais, nem se tenta construir uma lógica que possa ser ouvida pelo mundo. Proclama-se abertamente a lei do mais forte é. Quem pode, ataca. Quem tem poder, impõe. Quem é inimigo, deve ser subjugado ou cancelado.

É uma linguagem brutal, que fere a alma dos povos antes mesmo dos corpos das vítimas. Porque as palavras nunca são inocentes. Preparam o terreno, cavam trincheiras, acostumam as consciências à violência. Quando a força se torna o único argumento, a guerra se torna quase natural. É por isso que hoje não bastaria apenas deter as armas. Precisar-se-ia recomeçar pelas palavras. Restituir à linguagem da política ao menos um mínimo de dignidade, de responsabilidade e de respeito pela humanidade comum. Sem essa conversão da linguagem, até mesmo a paz correria o risco de se tornar apenas uma pausa entre duas guerras. Porque quando as palavras se degradam, mais cedo ou mais tarde o mundo segue o mesmo caminho.

Leia mais