17 Março 2026
"É uma linguagem brutal, que fere a alma dos povos antes mesmo dos corpos das vítimas. Porque as palavras nunca são inocentes. Preparam o terreno, cavam trincheiras, acostumam as consciências à violência", escreve Tonio Dell’Olio, padre italiano, jornalista e presidente da associação Pro Civitate Christiana, publicado por Mosaico Di Pace, 13-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Mesmo antes das bombas, da chuva de mísseis e do zumbido dos drones, há algo que hoje parece ter se desintegrado na comunidade internacional: a dignidade das palavras. A linguagem da política mundial foi progressivamente se despojando de todo pudor. Não há mais nenhuma tentativa — ao menos formal — de justificar as próprias ações com valores, direitos e responsabilidades. Resta apenas a afirmação descarada da força. Nos lábios de Vladimir Putin, Donald Trump, dos Khameneis, de Benjamin Netanyahu, as palavras já nem sequer buscam a camuflagem diplomática. Não se invocam princípios universais, nem se tenta construir uma lógica que possa ser ouvida pelo mundo. Proclama-se abertamente a lei do mais forte é. Quem pode, ataca. Quem tem poder, impõe. Quem é inimigo, deve ser subjugado ou cancelado.
É uma linguagem brutal, que fere a alma dos povos antes mesmo dos corpos das vítimas. Porque as palavras nunca são inocentes. Preparam o terreno, cavam trincheiras, acostumam as consciências à violência. Quando a força se torna o único argumento, a guerra se torna quase natural. É por isso que hoje não bastaria apenas deter as armas. Precisar-se-ia recomeçar pelas palavras. Restituir à linguagem da política ao menos um mínimo de dignidade, de responsabilidade e de respeito pela humanidade comum. Sem essa conversão da linguagem, até mesmo a paz correria o risco de se tornar apenas uma pausa entre duas guerras. Porque quando as palavras se degradam, mais cedo ou mais tarde o mundo segue o mesmo caminho.
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