Um mundo muito complexo: bem-vindos a 2026. Artigo de José R. Ubieto

Fonte: Pexels

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Janeiro 2026

Trump, Putin, Netanyahu, Thiel, Zuckerberg e tantos outros líderes e ideólogos globais não parecem sofrer dilemas morais. São homens de convicções firmes, sendo a principal delas a crença em si mesmos, o que constitui, por sinal, seu caráter delirante”, escreve José R. Ubieto, psicólogo clínico e psicanalista, membro da Associação Mundial de Psicanálise, em artigo publicado por Catalunya Plural, 09-01-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Começamos 2026 com a confirmação de algo que já sabíamos, embora preferíssemos ignorar um pouco: o mundo é profundamente complexo e turbulento. Se aceitarmos que a ressonância é inversamente proporcional à aceleração, não nos resta outra coisa a não ser admitir que as transformações são rápidas demais para a nossa capacidade de assimilar o seu caráter multifatorial.

Complexidade, segundo a Real Academia Espanhola (RAE), significa “complicação, dificuldade, imbróglio, confusão, bagunça...”, sentimentos e emoções muito presentes hoje em dia, especialmente entre os jovens. O que nos perturba nesta complexidade contemporânea não é tanto a sua novidade - sempre existiu -, mas a pressa e, sobretudo, a oscilação das referências tradicionais. O Outro, como interlocutor social, não está simplesmente em crise, dividido ou oscilante; mais do que isto, conforme Lacan antecipou nos anos 1970, está fragmentado. Já não oferece certezas, narrativas ou identidades sólidas. Desse modo, o cinismo triunfa como um refúgio fiel para muitos órfãos de sentido.

Trump, Putin, Netanyahu, Thiel, Zuckerberg e tantos outros líderes e ideólogos globais não parecem sofrer dilemas morais. São homens de convicções firmes, sendo a principal delas a crença em si mesmos, o que constitui, por sinal, seu caráter delirante. A partir daí, aceitam outras: religião, ideologia, cultura… Sua enorme influência reside precisamente nessa aposta decidida na simplicidade, em um mundo complexo. Não investem muito em argumentos: suas palavras são fáceis e diretas porque conhecem sua eficácia.

Dificilmente algum deles compartilharia o temor de Korin, protagonista de Guerra e Guerra, romance do escritor húngaro László Krasznahorkai, quando conclui que era inútil se torturar em busca do sentido último, porque “a complexidade era em si o sentido do mundo”.

Admitamos que muitos de nós nadamos contra a corrente, como Korin, em um mundo onde a inteligência artificial e seus algoritmos propõem uma solução baseada na homogeneização das respostas: emoticons, fórmulas pré-fabricadas, respostas prêt-à-porter como as dos chats de bate-papo. Uma fórmula que exige conexão permanente, evita a surpresa e reduz a complexidade à simplicidade de uma máquina que fala por nós, escreve por nós e, cada vez mais, pensa por nós.

Em contextos educacionais e clínicos, aceitamos com naturalidade processos de rotulação psicopatológica e protocolos assistenciais que homogeneízam o sofrimento e se apresentam como a explicação e a solução para o mal-estar. Até mesmo os próprios pacientes chegam com seu autodiagnóstico, muitas vezes, extraídos dos milhares de canais das redes sociais que oferecem um “nome” para se apresentar na sociedade: bipolar, Asperger, TEA, TDAH… Novos ritos de batismo social em uma época de rupturas e identidades efêmeras.

A complexidade é também outro nome para a inexistência desse Outro que garantiria nossa existência. Se muitos dos líderes mencionados coincidem em suas declarações religiosas, e se tantos jovens almejam uma nova espiritualidade, é por causa do anseio por esse Deus que nos protegeria, libertando-nos de toda incerteza.

Mas também existem outras respostas possíveis frente a essa ausência radical: tornarmo-nos responsáveis por nossas vidas - o que implica ações e atitudes – sem renunciar ao pensamento crítico, nem aos laços sociais.

Leia mais