O país suspenso. Poder, desgaste e expectativa no Brasil que caminha em 2026. Artigo de Paulo Baía

Lula (Foto: Marcelo Camargo | Agencia Brasil) e Flávio Bolsonaro (Foto: Lula Marques | Agência Brasil)

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15 Janeiro 2026

O Brasil segue suspenso. Entre a memória e o desejo. Entre a proteção e a mudança. Entre o medo do retorno ao caos e a frustração com o presente.

O artigo é de Paulo Baía, sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ, publicado por Agenda do Poder, 14-01-2026.

Eis o artigo.

A pesquisa Genial Quaest divulgada em 14 de janeiro de 2026 não é apenas um conjunto de números organizados em tabelas. Ela é um espelho incômodo. Um retrato em movimento. Uma fotografia tremida de um país que atravessa o tempo com cansaço, mas sem apatia. O Brasil que emerge desses dados não grita certezas. Ele murmura contradições. E é justamente nesse murmúrio que reside sua verdade sociológica e política.

As notícias são boas e ruins para Lula da Silva. Boas porque, mesmo sob forte desgaste, ele lidera todos os cenários eleitorais testados. Boas porque, se a eleição fosse hoje, venceria. Boas porque mantém vínculos sólidos com parcelas decisivas da sociedade brasileira, especialmente entre os mais pobres, os beneficiários de políticas sociais, os eleitores do Nordeste e aqueles que carregam na memória a experiência concreta de seus governos anteriores. Mas as notícias também são ruins. Ruins porque a desaprovação é alta. Ruins porque a avaliação negativa supera a positiva. Ruins porque a comparação com seus dois primeiros mandatos produz frustração em larga escala. Ruins porque o país parece cobrar mais do que recebe, esperar mais do que enxerga, desejar mais do que percebe.

O governo Lula governa sob tensão permanente. Governa num país que mudou, num mundo mais hostil, numa economia atravessada por limites globais e numa sociedade que perdeu a paciência com promessas de longo prazo. Governa com o peso da história sobre os ombros. Governa sendo comparado com sua própria lenda. E lendas, quando confrontadas com a realidade cotidiana, costumam cobrar um preço alto.

A rejeição e a desaprovação ao governo são expressivas e atravessam camadas sociais diversas. Não se trata de um mal-estar localizado. Ele se distribui pelas regiões mais ricas do país, ganha força entre os eleitores de renda média e alta, se cristaliza entre os evangélicos, aparece com intensidade entre os jovens e se infiltra no eleitorado com ensino médio e superior. É um descontentamento que não pode ser explicado apenas por campanhas de oposição ou por ruídos informacionais. Ele reflete expectativas frustradas, promessas que não se materializaram na velocidade desejada e um ambiente simbólico no qual o governo não conseguiu, até aqui, produzir uma narrativa convincente de futuro.

Ainda assim, Lula permanece de pé. E isso, por si só, é um dado político central. Em democracias marcadas por ciclos de destruição rápida de lideranças, resistir já é uma forma de força. Lula resiste porque sua trajetória se confunde com a própria experiência democrática brasileira das últimas décadas. Resiste porque, para milhões de brasileiros, ele ainda representa proteção, previsibilidade, algum tipo de abrigo institucional num mundo instável. Resiste porque, apesar do desgaste, não surgiu ainda uma alternativa amplamente consensual capaz de substituí-lo no imaginário nacional.

Nada disso, no entanto, autoriza a leitura de que a eleição de outubro de 2026 será simples. Não será. A pesquisa indica, com clareza, que o país caminha para uma disputa dura, exaustiva, marcada por conflitos simbólicos intensos e por uma polarização que, embora tenha mudado de forma, não perdeu potência. Lula venceria hoje, mas venceria sob pressão. Venceria sem folga confortável. Venceria sabendo que cada ponto percentual será disputado com ferocidade.

Do outro lado desse tabuleiro, emerge um dado que merece atenção cuidadosa. Flávio Bolsonaro apresenta um desempenho eleitoral que surpreende. Para alguém que entrou oficialmente em campanha em dezembro de 2025, sua aceitação é relevante. Seus números são positivos. Ele aparece como um adversário real, capaz de reduzir distâncias, de consolidar intenções de voto e de estruturar um campo competitivo no segundo turno. Isso não é trivial. Isso não é episódico. Isso revela algo mais fundo na sociologia política brasileira contemporânea. 

O bolsonarismo não desapareceu. Ele se transformou. Perdeu o caráter explosivo do confronto permanente, mas preservou uma base social sólida, disciplinada e ideologicamente engajada. Flávio Bolsonaro surge como uma versão mais institucional, menos ruidosa e mais palatável desse campo. Ele não carrega o mesmo nível de rejeição do pai. Não provoca o mesmo cansaço. Não desperta o mesmo medo em setores moderados da sociedade. Isso lhe permite transitar por espaços que antes estavam fechados ao bolsonarismo mais radical.

Há, sim, razões para um certo otimismo em sua campanha. Os dados mostram que existe um eleitorado disposto a ouvi-lo, a considerá-lo e a testá-lo como alternativa. Mostram que parte significativa da sociedade brasileira deseja mudança, ainda que não saiba exatamente qual. Mostram que o discurso conservador, quando apresentado de forma menos agressiva, encontra ressonância em segmentos cansados do conflito permanente, mas igualmente cansados do governo.

Isso não significa que Flávio Bolsonaro esteja perto de vencer. Significa que ele está longe de ser irrelevante. Significa que a disputa está aberta. Significa que a eleição será definida por margens estreitas, por movimentos estratégicos, por capacidade de comunicação e por leitura correta do humor social.

A pesquisa também revela um elemento decisivo. O clima informacional é desfavorável ao governo. Uma parcela expressiva dos brasileiros afirma ter visto mais notícias negativas do que positivas sobre Lula e sua administração. Em sociedades altamente mediadas pela comunicação, isso pesa. Isso molda percepções. Isso organiza afetos. Um governo que não controla sua narrativa passa a reagir mais do que agir. Passa a explicar mais do que propor. Passa a correr atrás do tempo perdido.

Ainda assim, se o cenário de janeiro de 2026 se mantiver até outubro, Lula vencerá a eleição. Não porque esteja imune ao desgaste, mas porque ainda reúne mais condições objetivas de construir maioria. Vencerá porque mantém vantagens regionais decisivas. Vencerá porque conserva apoio sólido entre os mais pobres. Vencerá porque, diante da incerteza, parte significativa do eleitorado prefere a experiência ao risco. Vencerá porque a oposição, embora fortalecida, ainda não conseguiu apresentar um projeto nacional capaz de unificar o país em torno de uma promessa clara de futuro.

Mas será uma vitória tensa. Apertada. Contestada. Será uma vitória que não encerrará conflitos, mas os reorganizará. Será uma vitória que exigirá, no dia seguinte, mais política, mais escuta, mais reconstrução simbólica. Será uma vitória sem celebração fácil, sem catarse coletiva, sem sensação de redenção.

A pesquisa de 14 de janeiro de 2026 aponta para uma eleição e para uma campanha muito difíceis tanto para Lula quanto para Flávio Bolsonaro. Ninguém atravessará esse processo ileso. Ninguém sairá maior do que entrou sem pagar custos elevados. O país, mais uma vez, será chamado a decidir entre caminhos imperfeitos, projetos incompletos e promessas sob suspeita.

O Brasil segue suspenso. Entre a memória e o desejo. Entre a proteção e a mudança. Entre o medo do retorno ao caos e a frustração com o presente. É nesse espaço instável, tenso e aberto que a eleição de 2026 se desenha. Não como redenção. Não como colapso. Mas como mais uma travessia histórica num país que insiste em continuar caminhando, mesmo quando o chão parece instável sob seus pés.

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