O exemplo do papa no Canadá: percursos penitenciais também para os teólogos? Artigo de Andrea Grillo

Papa Francisco beija a mão de um líder indígena durante um encontro com as comunidades das Primeiras Nações, Métis e Inuit em Maskwacis, Alberta, Canadá, em 25 de julho. (Foto: CNS/Vatican Media)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Julho 2022

 

"A visita do papa ao Canadá é um ato teológico de primeiro nível. Em 'Fratelli tutti' falou de fraternidade, mas no Canadá é importante que também a liberdade e a igualdade sejam restabelecidas como linguagem comum, como código de reconhecimento, como experiência compartilhada. O papa que 'pede perdão' com gestos de fraternidade mostra que a 'doutrina antropológica católica' viveu profundas descontinuidades, que foram pagas na pele de várias gerações de homens e mulheres, no Canadá como no resto do mundo, em outras condições e de diferentes maneiras. Mas o nó é a representação distorcida do homem e da mulher", escreve o teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado no blog Come Se Non, 26-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

As imagens poderosas com as quais Francisco recupera uma relação profundamente alterada pela injustiça, pelo abuso, pela falta de respeito e dignidade são tocantes. Talvez arrisquem ficar isoladas na narrativa jornalística, que poderia perder de vista as questões fundamentais que fundamentam e justificam a ação de Francisco e que só podem ser compreendidas olhando melhor para o cerne da questão.

 

A cumplicidade das instituições e ministros católicos em práticas gravemente discriminatórias, abusivas, marginalizadoras não é acidental, não são "episódios isolados", mas derivam de uma compreensão geral do homem, de sua natureza social, relacional, política e de gênero que durante séculos justificam estruturalmente essas práticas. Digamos mais claramente: não gostaria que se pensasse que os sujeitos estavam agindo na época "de forma criminosa". Não, aplicavam uma ideia de justiça distorcida, cheia de preconceitos, que também a teologia, a disciplina eclesial e o bom senso justificavam e tornavam recomendáveis. Uma mulher relatou ontem na televisão: "A freira tirou meu vestido, me deu uma bofetada e me disse: você é filha de uma selvagem, tenha vergonha!"

 

Uma história marcada por essa profunda injustiça não é um destino. O papa sabe disso. E com a sua pessoa opera gestos e diz palavras de nova esperança. Para que o ódio resultante da injustiça possa ir embora. Mas pode fazê-lo porque já não partilha mais os preconceitos que a Igreja partilhou e alimentou com a sociedade colonial e com a sociedade fechada.

 

Por um lado, devido ao atraso de um pensamento católico polarizado, que permitiu, ainda na segunda metade do século XIX, a defesa da “escravidão” como direito natural, o pedido de “inclusão no Índice” de A cabana do pai Tomás porque se inspirava no igualitarismo protestante e no enrijecimento "antimodernista" que bloqueou, em posições próprias do final do século XIX, a cultura católica até os anos 1960. Iludimo-nos que defender os preconceitos da sociedade fechada – sobre a inferioridade de alguns povos em relação a outros, sobre os direitos divinos dos patrões sobre os trabalhadores, sobre a falta estrutural de dignidade pública da mulher - fossem a forma de defender o Evangelho. E aqui está o ponto decisivo.

 

A visita do papa ao Canadá é um ato teológico de primeiro nível. Em "Fratelli tutti" falou de fraternidade, mas no Canadá é importante que também a liberdade e a igualdade sejam restabelecidas como linguagem comum, como código de reconhecimento, como experiência compartilhada. O papa que "pede perdão" com gestos de fraternidade mostra que a "doutrina antropológica católica" viveu profundas descontinuidades, que foram pagas na pele de várias gerações de homens e mulheres, no Canadá como no resto do mundo, em outras condições e de diferentes maneiras. Mas o nó é a representação distorcida do homem e da mulher.

 

Sobre isso, já em 1963, João XXIII em sua última encíclica, Pacem in terris, identifica três "sinais dos tempos": a igual dignidade de todos os povos, os direitos dos empregados em relação aos empregadores, a entrada da mulher no espaço público e sua dignidade. Esses três "sinais" exigem um trabalho teológico novo e corajoso. O que Francisco faz no plano do exemplum e sacramentum deve corresponder a um trabalho igualmente penitencial com o qual o pensamento teológico católico, despindo os hábitos altivos da superioridade, possa assumir o diálogo com a melhor cultura contemporânea para melhor servir ao anúncio do evangelho, sem confundi-lo com as formas com que a sociedade fechada impôs preconceito à leitura dos textos e gestos da tradição.

 

Um papa vestido de "índio" é uma coisa curiosa. Que pode permanecer no plano da maior superficialidade. Na realidade, reconciliar-se com culturas oprimidas e gravemente discriminadas implica um processo de espoliação e de revestimento que tem sua imagem mais poderosa na "metáfora batismal". Vestir-se de Cristo implica aprender a estar plenamente dentro de cada cultura. Só assim se podem ver os limites da tradição, corrigir os erros e aprender a "tirar os sapatos" diante da revelação de Deus em cada povo, em cada homem e em cada mulher.

 

Para isso, é necessária uma grande revisão da "antropologia católica". E os teólogos não podem esperar que o papa tenha que resolver todas a situações. Há "viagens penitenciais" que os teólogos devem assumir inteiramente "por conta própria", porque são parte integrante de sua profissão/ministério: para preparar novas reconciliações devidas e novas pazes possíveis.

 

Leia mais