A cegueira da guerra. Artigo de Massimo Recalcati

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04 Março 2022

 

"Insignificância da singularidade da vida diante da cegueira fanática da ideologia. Esta é a grande e cínica vantagem de que Putin usufrui. Aos seus olhos, as vidas dos outros são apenas números. Por esta razão, ele não teme de forma alguma a guerra, mas é seduzido por ela. O universal da Ideia - a defesa da grande Rússia e suas ambições dos redimensionamentos impostos pelo Ocidente - não pode ser contrariado pela morte insignificante de quem está destinado a ser apenas um figurante na história", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 03-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Segundo ele, "narcisismo maligno e paranoia são frequentemente termos convergentes: tudo o que é outro de mim ameaça de morte a minha subsistência. Esta é a posição atual de Putin. Pode-se pensar que na raiz da sedução da guerra há sempre uma espécie de transbordamento paranoico do narcisismo humano. Segundo a Torá, este é o único pecado humano realmente digno desse nome: acreditar ser Deus, assimilar-se a Deus, agir como se fosse um Deus na terra".

 

Mas, completa o psicanalista, "o narcisismo insano do Eu, para poder mobilizar os coletivos humanos, deve estar sempre firmemente ligado a uma Causa. Que Causa? No século XX tivemos várias encarnações dela: a Raça, a História, o Império, o Povo. Na recente guerra na Ucrânia, ainda encontramos em primeiro plano essa união, que parece ressuscitar fantasmagoricamente do século XX".

 

Eis o artigo.

 

A violência da guerra é sempre cega. Geralmente, como a ideologia que a inspira. A relação entre ideologia e cegueira é um grande tema da filosofia política. Para a psicanálise, a cegueira na visão da realidade pode depender de vários fatores. Um destes é o arrebatamento narcísico por si mesmo. Funciona como uma lente que deforma e oferece uma visão distorcida da realidade.

 

Narcisismo maligno e paranoia são frequentemente termos convergentes: tudo o que é outro de mim ameaça de morte a minha subsistência. Esta é a posição atual de Putin. Pode-se pensar que na raiz da sedução da guerra há sempre uma espécie de transbordamento paranoico do narcisismo humano. Segundo a Torá, este é o único pecado humano realmente digno desse nome: acreditar ser Deus, assimilar-se a Deus, agir como se fosse um Deus na terra. Mas o século XX nos ensinou que a megalomania paranoica dos grandes líderes, para conquistar o consenso e empurrar as massas para a guerra exigia, porém, outra condição além daquela idolatradamente narcisista: a ideologia. O narcisismo insano do Eu, para poder mobilizar os coletivos humanos, deve estar sempre firmemente ligado a uma Causa. Que Causa? No século XX tivemos várias encarnações dela: a Raça, a História, o Império, o Povo. Na recente guerra na Ucrânia ainda encontramos em primeiro plano essa união, que parece ressuscitar fantasmagoricamente do século XX.

 

De um lado, o expansionismo do Eu de um líder - Vladimir Putin - autoritário, centrado em si mesmo, a encarnação de um fantasma machista e paranoide que vive a democracia como uma ameaça constante à sua própria identidade; de outro, a ideologia do retorno nostálgico à Rússia soviética, a um nacionalismo imperialista que rejeita o caminho da história rumo à democracia.

 

Não é por acaso que Putin, embora seja um produto cultural direto do comunismo russo, sempre foi visto com admiração pelas Direitas ocidentais: o punho de ferro, a reivindicação soberanista, a defesa militar das próprias fronteiras, o desprezo pelo parlamentarismo e, em última análise, pela cultura iluminista do Ocidente tout court, definem o retrato de um líder evidentemente reacionário.

 

Um exemplo disso é o uso da máquina ideológica no caso ucraniano que gostaria de transfigurar a trágica violência da guerra em uma operação política considerada necessária. A palavra "guerra" é, de fato, ainda sistematicamente censurada pela mídia do regime russo em favor da fórmula neutra de "operação especial". A retórica do poder e da tirania já havia nos acostumado no século XX a sofismas linguísticos que tendiam a esconder a destruição traumaticamente brutal da violência. Basta pensar na terminologia artificial com a qual o regime nazista cobriu o crime hediondo do Holocausto. Esse desnivelamento entre a linguagem e a realidade é um ardil de todo regime totalitário, incluindo o de Putin. Não é por acaso que Hannah Arendt considerava toda ideologia portadora de violência por ser insensível ao destino da vida real dos seres humanos.

 

O imperialismo da Ideia esmaga com desconsideração e total indiferença a singularidade insacrificável da vida.

 

A aridez dos números substitui a vida dos nomes próprios: quantas mortes entre seus soldados Putin previu nessa "operação especial"? Quantos nas fileiras do exército adversário e quantos, por fim, na população civil?

 

Insignificância da singularidade da vida diante da cegueira fanática da ideologia. Esta é a grande e cínica vantagem de que Putin usufrui. Aos seus olhos, as vidas dos outros são apenas números. Por esta razão, ele não teme de forma alguma a guerra, mas é seduzido por ela. O universal da Ideia - a defesa da grande Rússia e suas ambições dos redimensionamentos impostos pelo Ocidente - não pode ser contrariado pela morte insignificante de quem está destinado a ser apenas um figurante na história.

 

A desconcertante continuidade antropológica entre nossos defensores de Putin e os mais ideológicos No Vax reflete bem a total insensibilidade e falta de solidariedade para com a vida dos outros. No entanto, sabemos que são sempre as populações civis que sofrem as consequências mais trágicas dos conflitos armados. O número de deslocados, feridos, refugiados e mortos entre civis em todas as guerras é sempre superior ao dos soldados mortos em batalha. O mecanismo é fatal: quanto mais se acentua o valor ideal da Causa, mais perdem valor as vidas dos homens reais. É a espinha dorsal de toda ideologia, seu traço marcadamente fundamentalista.

 

Serão as gerações russas mais jovens, culturalmente mais livres da cegueira ideológica, que poderão lembrar ao ditador imperialista que no fundo de toda ideologia sempre se esconde uma pulsão de morte? Será o espírito democrático e iluminista da Europa que vai contrastar a terrível sedução paranoica da guerra?

 

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