O Ocidente precisa de uma nova utopia. Artigo de Vito Mancuso

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03 Março 2022



"Este é o ensinamento da guerra na Ucrânia: a conversão do Ocidente ao primado da justiça sobre a economia. Utopia? Sim, mas a fraqueza ocidental apontada por muitos comentaristas está, em minha opinião, justamente aqui: na falta de uma utopia, de uma motivação ideal mais importante que os bolsos. Sem essa utopia, terá inevitavelmente razão o cinismo dos embaixadores atenienses e de todos aqueles que reafirmam sua lógica, entre os quais Hegel com sua 'astúcia da razão', Nietzsche com sua 'vontade de poder', Carl Schmitt, jurista do Terceiro Reich, com sua 'teologia política'".

 

A opinião é de Vito Mancuso, teólogo italiano, em artigo por La Stampa, 26-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.


Holodomor. Acredito que poderíamos começar por aqui a enfrentar o senso de impotência que serpenteia em todos nós diante do maior desdobramento de vontade de poder na Europa de 1939 até hoje. Holodomor em ucraniano significa "extermínio pela fome" e refere-se à fome que, entre 1932 e 1933, causou a morte de um número desconhecido de camponeses ucranianos, com estimativas que variam de um milhão e meio a cinco milhões. Eram os chamados "kulaks", os camponeses que, por possuírem suas próprias terras, se opunham à coletivização comunista e que foram liquidados por Stalin tirando-lhes todo alimento.


Pontualmente ontem Mattia Feltri recordava o grande escritor Vasilij Grossman (de família judia, língua russa, nascido na Ucrânia) que narra o seu extermínio no romance "Tutto scorre...", obra que pode ser lida junto ao ensaio do historiador inglês Robert Conquest "Raccolto di dolore" e o romance do ucraniano Vasyl 'Barka "Il principe giallo".

 

Em 23 de outubro de 2008, o Parlamento Europeu votou uma resolução declarando o Holodomor um "crime contra a humanidade", como já reconhecido pelos EUA e Canadá, mas desde então a maioria dos países ocidentais, incluindo Alemanha, França e Itália, não formalizaram o reconhecimento. O motivo não é difícil de adivinhar, acredito que se chama gás. Por que colocar nossos interesses econômicos em risco por um evento que aconteceu há quase um século?


E aqui estamos na nossa principal arma, as sanções econômicas. Ontem, Massimo Giannini argumentou que elas são "uma espada sem cabo" que, enquanto fere quem é atingido, ao mesmo tempo fere quem a empunha. É verdade, mas a questão é que devemos estar prontos, permita-me o arcaísmo, a "fazer sacrifícios". Amamos realmente a justiça, a liberdade, a democracia? Se assim for, devemos estar dispostos a pagar para defendê-las, nada é gratuito na história. Honrar a justiça reconhecendo o genocídio dos kulaks apesar da oposição da Rússia, assim como o genocídio dos armênios apesar da oposição da Turquia, significa implementar uma política que coloca a justiça em primeiro lugar, não o interesse econômico. Teremos menos gás e ficaremos no frio? Isso significa que ficaremos em casa com dois blusões e ceroulas de lã, como as gerações de nossos pais e mães acostumadas com a dureza da vida.


Edith Bruck se perguntava neste jornal: "É possível que o homem nunca aprenda?". De fato, parece que Putin tenha aprendido muito bem a lição da história, aquela sintetizada pelo historiador grego Tucídides no discurso dos embaixadores atenienses aos habitantes da ilha de Melo, aliados de Esparta na guerra do Peloponeso e que fez apelo para o senso de justiça: "Os conceitos de justiça emergem e tomam forma na linguagem dos homens quando a balança da necessidade está suspensa em equilíbrio entre duas forças iguais. Caso contrário, os mais poderosos agem, os fracos se dobram”(A guerra do Peloponeso, V. 89). Os atenienses, mais fortes, agiram, e os melos, mais fracos, se dobraram.


Hoje os russos, mais fortes, agem, e os ucranianos, mais fracos, se dobram. Nada mudou desde então.


Assim, a pergunta de Edith Bruck volta com mais sentido ainda e sob uma nova luz: "É possível que o homem nunca aprenda?". O que ele deveria aprender? Que a justiça não é um mero compromisso entre duas forças de igual intensidade, mas é a lógica mais verdadeira do mundo, graças à qual a vida floresce e sem a qual a vida murcha, sangra, morre. Isso deveria aprender, mas, olhando mais de perto, o homem também sabe disso há tempo, como o próprio Tucídides mostra ao citar as palavras de Péricles em louvor à democracia, quando o estadista ateniense disse que a ordem política de Atenas se chamava assim, democracia, por ser "um governo não de poucos, mas do círculo mais amplo de cidadãos", em que "vigora a igualdade absoluta de direitos para todos perante a lei" (A Guerra do Peloponeso, II, 37).


Eis que aqui estamos à verdadeira alternativa diante da qual a consciência de cada um de nós é chamada a decidir: a força ou a justiça. Para afirmar a segunda, como toda democracia verdadeiramente tal é chamada a fazer, às vezes é preciso pagar, perder, mas, se a economia está acima de tudo, isso nunca será possível, a começar pelo reconhecimento do Holodomor. Este é o ensinamento da guerra na Ucrânia: a conversão do Ocidente ao primado da justiça sobre a economia. Utopia? Sim, mas a fraqueza ocidental apontada por muitos comentaristas está, em minha opinião, justamente aqui: na falta de uma utopia, de uma motivação ideal mais importante que os bolsos. Sem essa utopia, terá inevitavelmente razão o cinismo dos embaixadores atenienses e de todos aqueles que reafirmam sua lógica, entre os quais Hegel com sua "astúcia da razão", Nietzsche com sua "vontade de poder", Carl Schmitt, jurista do Terceiro Reich, com sua "teologia política".


Falando de teologia, lemos no profeta Isaías: "Guarda, que houve de noite? Guarda, que houve de noite? E disse o guarda: Vem a manhã, e também a noite; se quereis perguntar, perguntai; voltai, vinde" (21,11-12). Esta é a tarefa da consciência moral: como guarda para chamar à conversão, ao primado da justiça.


Giannini ilustrava a "alternativa do diabo" diante da qual se encontra o Ocidente, entre o condescendente "espírito de Munique" que daria a Putin o mesmo espaço concedido em seu tempo a Hitler e o beligerante "espírito de Marte" que faria do continente uma nova e imensa Stalingrado. Mas e se tentarmos conceber uma alternativa diferente, não do diabo, mas do anjo?


Refiro-me a um espírito de Marte que faça guerra sobretudo à nossa hipocrisia, ao nosso hábito de colocar os nossos interesses econômicos acima de tudo, de não estarmos mais dispostos a fazer nenhum sacrifício, começando por reconhecer o Holodomor, amanhã mesmo no Parlamento, como crime contra humanidade.

 

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