Haiti. Resposta ao terremoto não trouxe mudança estrutural, dizem irmãs religiosas

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20 Janeiro 2020

A resposta ao terremoto massivo que atingiu o Haiti dez anos atrás foi bem-intencionada, mas não trouxe nenhuma mudança estrutural que ajudasse a aliviar a pobreza esmagadora no país, dizem as irmãs que refletiram sobre o legado do desastre natural que atingiu o país.

A reportagem é de Chris Herlinger, publicada por Crux, 19-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Estima-se que o terremoto matou 220 pessoas, deixando feridas outras 300 mil e 1,5 milhão de desabrigados, segundo a organização humanitária inglesa Disasters Emergency Committee.

Irmãs católicas que atuam no Haiti concordam que a ajuda humanitária merece destaque, mas também puseram em dúvida a longa relação do país com os grupos de auxílio. Muitos haitianos disseram que parte dessa ajuda não foi eficaz e não chegava até quem precisava.

“O terremoto foi um desastre de proporções estarrecedoras, mas também o foi o desastre que veio depois: as promessas de ajuda que se transformaram em dinheiro direcionado a consultores e empresas estrangeiras, e não a trabalhadores haitianos”, disse a Irmã Marilyn Lacey, diretora executiva da agência humanitária Misericórdia Além-Fronteiras e membro das Irmãs Religiosas da Misericórdia. Ela foi uma das cinco irmãs entrevistadas pelo sítio Global Sisters Report, que pediu que as religiosas refletissem sobre o legado do terremoto no país caribenho.

“A Cruz Vermelha prometeu milhares de casas novas, tendo entregue somente umas poucas dúzias. O continente da ONU que não só trouxe a cólera para o Haiti como também a triste realidade de centenas de crianças geradas por membros das tropas militares que as abandonaram”, contou Lacey.

Essa resposta reforçou a dinâmica preocupante no país de 11 milhões de pessoas, no qual as preocupações com a corrupção e uma governança enfraquecida se tornam cada vez mais públicas. Os haitianos têm ido às ruas das cidades em do interior em protestos contra o governo do presidente Jovenel Moise.

As populações que foram exploradas por governos coloniais e autocráticos “convivem a décadas com uma raiva que pode explodir em violência sem muita provocação”, diz Lacey. “É a ‘gota d’água’ para a explosão acontecer. Vimos isso no Haiti, nos últimos dois anos”.

Lacey diz acreditar que a resposta ao terremoto foi bem-intencionada e muito boa em muitos sentidos.

“Ela salvou vidas. Restaurou parte da infraestrutura. Trouxe esperança a um povo assustado”, afirmou na entrevista a religiosa. No entanto, “não trouxe uma transformação sistêmica nem transparência no governo, tampouco oportunidades de emprego, ou uma melhoria econômica”.

“O terremoto de 2010 agravou a desesperança no Haiti”, escreveu a Judy Dohner, irmã americana da ordem Humildade de Maria e que estava no país durante o terremoto e depois. “Os haitianos estão desiludidos, ao não verem sinais de uma transformação estrutural a longo prazo”.

O terremoto foi seguido por uma epidemia de cólera, vários furacões e pela retirada de forças da ONU, deixando muitos sem emprego. “Houve também casos de desobediência civil que continua até hoje”, explicou Dohner, que hoje atua com haitianos que vivem na Flórida.

Iniciativas de melhoria no Haiti continuam em pequena escala através de ONGs, “mas não há um plano maior” disse ela, notando que “até mesmo a empobrecida catedral de Porto Príncipe ainda se encontra em ruínas”.

Na época do terremoto, com as cidades destruídas e com locais de adoração perdidos, “os olhos do mundo estavam abertos à pobreza e à devastação do país”, também escreveu a Irma Marilyn Marie Minter, que trabalha na cidade de Jacmel, ao sul do Haiti.

“Isso colocou muitas ONGs e outras entidades como a nossa congregação religiosa em relação com os mais pobres entre os pobres”, disse.

Mas, ainda segundo a religiosa, dez anos depois as ONGs foram embora. “Algumas delas pioraram um pouco a situação, pois deixaram para trás outros problemas, e outras, sim, fizeram a diferença, reconstruindo vidas”.

Minter faz parte de um ministério das Irmãs Felicianas da América do Norte, criado em 2012 após um trabalho de curto prazo que a congregação realizou na sequência do terremoto.

“A nossa congregação respondeu com o acompanhamento na Diocese de Jacmel, buscando fazer uma evangelização que caminhasse – e estivesse – com os empobrecidos”, disse ela, destacando que “estas vidas não foram transformadas porque elas aqui ainda estão materialmente – e por vezes espiritualmente – pobres”.

O trabalho destas irmãs inclui educação, formação na fé e clínicas móveis, explicou Minter. “As crianças ainda estão famintas? Com certeza, em alguns aspectos. A situação política em 2019 não ajudou em nada. No meio disso tudo, a vida permaneceu a mesma e, para uns, piorou. Mas, para nós, temos o sentimento de que damos o nosso melhor para continuar a crescer em nossas relações com aqueles a quem servimos”.

Através da Associação Católica da Saúde, muitas congregações de irmãs arrecadaram consideráveis recursos de todo os EUA – não apenas milhões de dólares como também um tremendo conhecimento em assistência médica – para planejar e implementar a construção de um hospital moderno em Porto Príncipe. Elas fizeram isso em colaboração com a hierarquia local de Porto Príncipe e outros setores católicos na área da saúde que atuam no país.

Uma das coisas que o Haiti precisa é fortalecer o seu protagonismo, “e isso é algo que nós como irmãs podemos ajudar”, disse a Irmã Sissy Corr, da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur e que trabalha no ministério de voluntariado em Les Cayes.

“Passamos a fazer muitas coisas que achávamos que não faríamos no começo. Nunca achei que ajudaria na administração de uma padaria de nível industrial. Nem fazer pão eu sei. Mas está em nossa psique como educadoras, como colaboradoras. Podemos ver o potencial nos outros”, explicou.

“Podemos também ver além do futuro imediato”, continuou a religiosa, notando que muito do que é preciso no Haiti tem a ver com a sobrevivência: “as pessoas só precisam ter uma ocupação. Para temos uma padaria, precisamos de uma equipe, que trabalhe e pense junto. Precisamos de talentos em nível industrial. Este talento está aí. Eu o vejo. Podemos ampliar esses talentos”.

A Irmã Fidelis Rubbo, das Irmãs de São Francisco de Sylvania, no estado de Ohio, que atuou como missionária no Haiti de 2001 a 2014, afirmou na entrevista que “a esperança desse povo vem da confiança indomável que ele tem em Deus e no forte senso que tem de família e comunidade”.

Embora a maioria das pessoas que visitaram o Haiti ficam encantadas com o país e seu povo, “às vezes é mais difícil para os próprios haitianos continuarem esperançosos, já que a situação não está nada fácil”, disse Rubbo. “Mas, apesar de tudo, eles se unem, dão o melhor que têm para si e para os filhos. Este povo fica tão alegre com qualquer coisinha que fazemos para ajudar”.

Minter disse que a esperança está nos jovens.

“O foco é guiá-los para que se tornem líderes, e respeitar o que podem e o que não podem mudar”, disse ela. “Quando empoderamos alguém, a pessoa empoderada pode crescer e descobrir seus dons”.

Lacey acredita que há muita esperança no Haiti.

“O povo haitiano é resiliente, tem um bom coração, é generoso”, disse. “O espírito dessas pessoas não se rompeu com o abalo de 2010, com a epidemia subsequente de cólera ou com a corrupção geral que assola o país”.

 

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