02 Julho 2026
Tenho 58 anos e não estou mal; mas é melhor ser jovem. Sou um alemão da região do Ruhr. Sou um casado de sorte e temos uma filha maravilhosa. Acredito que poderíamos viver em uma nova ordem mais justa e que vale a pena buscá-la. Sem direito internacional, o mundo é uma jaula de gorilas onde mandam os mais fortes.
A entrevista é de Lluís Amiguet, publicada por La Vanguardia, 01-07-2026.
A lei da jaula ou a da ONU
A nova ordem internacional sobre a qual nos alerta o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, é uma jaula na qual manda o gorila maior. É o mundo que nos espera se renunciarmos àquele que os signatários da Carta das Nações Unidas conseguiram conceber, sobre a qual hoje se ergue o direito internacional moderno. O da jaula, ao contrário, seria o “estado de guerra” mundial descrito por Fabian Scheidler.
Esse mundo prescinde das lições da Segunda Guerra Mundial, que demonstrou como, sem respeito às leis, resta apenas um guerrear incessante ao sabor do mais forte. E a União Europeia, agora com a cumplicidade do Canadá, deveria se tornar a maior potência diplomática do planeta, colocando todo o seu poder econômico, cultural e demográfico a serviço da lei acima da força.
Eis a entrevista.
Por que tantos alemães têm medo de Putin e você, menos?
Escrevi em meios de comunicação internacionais, como o Le Monde Diplomatique, que a invasão russa da Ucrânia foi um crime, mas um crime evitável; também foi e continua sendo uma guerra evitável.
Como quase todas?
Os governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha têm responsabilidade clara na continuidade da guerra da Ucrânia, mas também o da Alemanha, devido à escalada que pode nos levar a um confronto nuclear.
Não é esse medo que fortalece Putin?
A guerra que vemos hoje é a de dois regimes corruptos...
Mas foi o da Rússia que iniciou a guerra.
São certamente os dois países mais corruptos da Europa...
Com elites extrativistas e oligarquias, mas foram as da Rússia as agressoras.
Foi uma invasão perversa, mas agora já existe uma parte dessa elite russa que quer acabar com a guerra, com suas próprias condições.
Assim qualquer um termina uma guerra.
Mas não compreenderemos nada dela se não analisarmos onde e quando começa, porque se trata de um conflito iniciado há 30 anos.
Então, vamos rever e analisar.
Após a queda do Muro e o fim da URSS, Mikhail Gorbachev ofereceu ao Ocidente uma nova “casa comum” para todos os europeus, que incluía a neutralidade da Ucrânia, e assim teríamos criado uma ordem internacional de paz para a Europa.
Mas para além da OTAN e do antigo Pacto de Varsóvia.
Era uma nova ordem dentro da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, que almejava ser um projeto civil para a paz em todo o continente.
Há 30 anos, e já com várias guerras pelo caminho: a dos Bálcãs, a da Ucrânia...
Lembre-se de que o presidente François Mitterrand disse, então, que não precisávamos mais da OTAN; mas do outro lado do Atlântico estava Reagan...
Não era difícil evitar que reivindicassem a vitória na Guerra Fria?
Eles repetiam: “Vencemos a Guerra Fria e queremos todo o bolo da Europa”.
O que queriam dizer com “toda” a Europa?
Queriam expandir a OTAN para o leste o máximo possível, e isso incluía a Ucrânia...
E nesse contexto... por que não a Rússia?
Essa era a proposta de Gorbachev; mas ela não agradava aos neoconservadores de Reagan, pois não refletia a vitória absoluta que queriam exibir ao mundo.
Não houve vozes discordantes?
No The New York Times, George Kennan, criador da política de contenção durante a Guerra Fria, e o próprio diretor da CIA, William Burns, advertiram que se encurralássemos a Rússia, ela reagiria de um modo que não iríamos gostar.
Estamos nisso.
E até Henry Kissinger se manifestou do mesmo modo; mas foram ignorados. Não eram esquerdistas, mas os maiores inimigos dos soviéticos que haviam derrotado. Ainda assim, esses especialistas foram ignorados.
Putin também não ignorou sua própria fragilidade?
O presidente Biden deu continuidade a essa expansão que a Rússia lia como ameaçadora. Não se esqueça de que Putin havia tentado ser mais um entre os grandes do Ocidente.
Depois de dirigir um táxi em Berlim porque seu salário na KGB não era suficiente para viver.
Naqueles anos 1990, os Estados Unidos humilharam os ex-soviéticos até reduzi-los à miséria. Eles não entendiam por que o Ocidente não os ajudava, como havia feito após vencer a Segunda Guerra Mundial com a Alemanha derrotada...
Por que o Ocidente iriar perdoar os ex-soviéticos e até ajudá-los?
Putin acreditava que seu arsenal nuclear justificaria um tratamento melhor e uma posição entre os grandes. Ao contrário, os Estados Unidos queriam privar a Rússia de seu status de superpotência para sempre.
Por que isolar a Rússia?
Porque, caso a Eurásia se unir, os Estados Unidos ficarão isolados em seu continente. Precisam dividir a Eurásia para continuar mandando. E fazer com que a Rússia e a Europa não tenham acordo algum. Ironicamente, são Rússia e China que agora podem chegar a um entendimento.
E a União Europeia será sempre uma mera comparsa?
É uma potência diplomática. Pode decidir excluir a Ucrânia do futuro da OTAN e assim tornar possível a negociação. O general Milley já deixou claro que não é realista esperar que a Ucrânia recupere território.
O que você propõe?
Voltar ao conceito de segurança compartilhada de Willy Brandt: todo país tem o direito legítimo à sua segurança, dos palestinos de Gaza aos israelenses, ucranianos e russos. Esse conceito evitou que a Guerra Fria fosse a Terceira Guerra Mundial.
Por que ele não se manteve até hoje?
Porque as elites que se beneficiam das guerras na Rússia, na Ucrânia, nos Estados Unidos e em outros países que as promovem conseguiram fazer com que esse conceito fosse esquecido.
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