28 Março 2026
A guerra contra o Irã tem o potencial de colocar fim à hegemonia estadunidense no Golfo Pérsico.
O artigo é de Fabian Scheidler, jornalista, dramaturgo e historiador, publicado por La Marea, 22-03-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Mais de duas semanas após o início da guerra de agressão contra o Irã, os Estados Unidos e Israel ainda não alcançaram seu objetivo bélico de provocar uma mudança de regime, e é pouco provável que o alcancem por esta via. A história mostra que bombardeios aéreos por si só raramente levam à vitória, muito menos à derrubada de governos. Ao contrário, aqueles que são atacados tendem a se unir em torno de seus líderes, especialmente quando o agressor, como neste caso, bombardeia escolas e hospitais.
A guerra pode se tornar muito mais do que uma missão fracassada e custosa para os Estados Unidos. Os ataques do Irã com mísseis contra bases estadunidenses e outros alvos nos países do Golfo estão abalando toda a estrutura de poder da região. Por um lado, esses ataques demonstram que os Estados Unidos são incapazes de defender os países do Golfo.
Vale lembrar: o acordo histórico dos anos 1970 entre os Estados Unidos, por um lado, e a Arábia Saudita e outros países do Golfo, por outro, estava ancorado em dois pilares. As monarquias vendiam seu petróleo exclusivamente em dólares e investiam seus excedentes em petrodólares, nos Estados Unidos. Isto garantia um fluxo permanente de capital para os Estados Unidos e, em particular, para Wall Street. Em troca, os Estados Unidos ofereciam modernização tecnológica e, sobretudo, segurança.
Esse segundo pilar está ruindo diante de nossos olhos. As bases militares estadunidenses provaram não apenas ser, em grande medida, inúteis frente aos mísseis iranianos, como também um fardo para os países do Golfo, já que são alvos óbvios. Além disso, em alguns desses países, há muito tempo setores importantes da população se opõem a essas bases.
No Bahrein, por exemplo, onde 60% da população é xiita, houve demonstrações de comemoração após o sucesso iraniano ao infligir graves danos ao quartel-general da Quinta Frota dos Estados Unidos. A presença estadunidense se revela, portanto, um possível fator de instabilidade política interna.
A escala dos ataques contra bases estadunidenses é considerável. O Irã, por exemplo, conseguiu destruir duas instalações de radar na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos, fundamentais para guiar os mísseis THAAD, um componente central da defesa contra mísseis iranianos. A reconstrução dessas infraestruturas, avaliadas em bilhões de dólares, pode levar meses ou até anos. Outras bases importantes também foram atingidas, como a de Erbil, no Iraque, a maior base da Força Aérea estadunidense no país.
A situação pode se agravar ainda mais se os Estados Unidos e Israel enfrentarem uma escassez de mísseis interceptores. Estes já eram limitados no final da guerra de doze dias contra o Irã, em junho de 2025, sendo uma das principais razões pelas quais ambos os países optaram por um cessar-fogo. Agora, de acordo com vários relatórios, os arsenais podem estar se aproximando de uma escassez mais severa, o que enfraqueceria decisivamente uma defesa já em si incompleta.
Os Estados Unidos também demonstraram ser incapazes de manter o Estreito de Ormuz aberto, apesar da promessa de Donald Trump de escoltar navios. Seu apelo urgente à OTAN e a outros aliados para o envio de navios ao Golfo Pérsico ressalta a gravidade da situação. O fato de todos os seus aliados - do Reino Unido e Alemanha à Austrália e Japão - terem rejeitado o pedido é um sinal humilhante do crescente isolamento e impotência dos Estados Unidos.
O Estreito de Ormuz é a artéria vital das monarquias do Golfo. Não só as suas exportações de petróleo e gás dependem dele, como também importações essenciais. Se permanecer fechado por um período prolongado, as economias e as sociedades do Golfo enfrentarão novas turbulências.
Enquanto as elites das monarquias do Golfo começam a considerar que os Estados Unidos não conseguem protegê-las e que, inclusive, estão levando a guerra para os seus territórios, as repercussões econômicas minam ainda mais o status quo. O modelo de negócio desses países se baseia na estabilidade. Tanto o turismo quanto o investimento estrangeiro se assentam na promessa de um mundo brilhante, protegido da pobreza e das guerras constantes dos países vizinhos.
No entanto, esse modelo também pode entrar em colapso. Quem compraria ilhas ao largo da costa de Dubai, se não houver segurança frente aos mísseis? E se as grandes fortunas se afastarem, quem vai querer investir bilhões em uma região com um futuro incerto?
A guerra também evidenciou a vulnerabilidade do abastecimento de água doce na região. Com apenas alguns ataques de mísseis iranianos, as usinas de dessalinização, que fornecem de 60 a 70% da água consumida nos países do Golfo, poderiam ficar fora de serviço. Sem água doce, nem mesmo os mais ricos conseguem sobreviver.
Além disso, uma evacuação rápida pode ser impossível. No início do conflito, a disponibilidade de voos privados diminuiu drasticamente em questão de horas, já que poucos fornecedores estavam dispostos a assumir o risco. Os enclaves de luxo podem se tornar armadilhas.
Muitas das monarquias petroleiras diversificaram suas economias nos últimos anos. Um dos novos pilares são os data centers operados por grandes corporações estadunidenses, como Amazon, Google, Microsoft, Palantir, NVIDIA e Oracle. No entanto, o Irã já atacou data centers da Amazon, no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos, com repercussões significativas para os serviços digitais.
A liderança iraniana apresentou uma lista de 31 data centers que considera “alvos legítimos”, por considerar que são usados pelo exército estadunidense. Se algum deles fosse atingido, o golpe seria significativo não apenas para a economia regional e sua infraestrutura digital, mas também para um pilar central da hegemonia estadunidense.
Diante desse cenário, Donald Trump busca desesperadamente uma saída que lhe permita declarar vitória e colocar fim à guerra. No entanto, o mais provável é que o Irã não facilite um desenlace rápido.
Mesmo que o conflito termine relativamente em um prazo curto, seu impacto na região e no equilíbrio geopolítico será profundo e se desdobrará completamente nos anos seguintes. De qualquer forma, as monarquias do Golfo se verão forçadas a buscar novos modelos de sobrevivência política e econômica. O mais provável que é se voltem para a Ásia, e particularmente para a China, que nos últimos anos construiu laços econômicos e diplomáticos sólidos na região e se posicionou como um ator de estabilidade. Poderá ser o início do fim da hegemonia estadunidense no Golfo.
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