18 Junho 2026
"Porque o ser humano pós-moderno aceita a vivência no claustro do engano? Deveríamos estar em um levante pela liberdade, pela verdade. Defender nossas mentes contra um mundo que não pedimos. A construção social do cotidiano precisa voltar ao eixo da solidez. Criticidade não é uma questão ideológica, é a sobrevivência de si, do Ser."
O artigo é do Prof. Me. Marcos Prudêncio, formado em Geografia e mestre na mesma área pela UFMS.
Eis o artigo.
“Ergo os olhos para os montes, de onde virá o meu socorro? O meu socorro vem da opinião (doxa) que fez novos céus e nova terra.”
“O que é a verdade?”. Pergunta feita por Pilatos a Jesus Cristo. E hoje a mesma indagação ressoa nas paredes da caverna em que talvez estejamos presos. Loki como deus da mentira é louvado por cada dissimulação ou mentira induzida por postagens direcionados e entregues precisamente em cada feed.
Em Loki, a capacidade de mutar o corpo conforme a necessidade é seu atributo mais notável. Na era da pós-modernidade técnica a verdade é moldada segundo a intenção de quem a produz. É claro, fake news, não são uma novidade deste milênio, porém a capilaridade de sua atuação é recente.
Antes para mentir era preciso uma proximidade e um momento específico com o interlocutor, pois, ou se estava na presença de um indivíduo ou se via/ouvia em uma mídia de massa (jornal, rádio, revista, livro, cinema e televisor). O acesso à informação digital permitiu que o ludibriar seja feito na fluidez do tempo e do espaço, sem hora e sem local, a desinformação é constante.
A constância desta ilusão cria uma atmosfera de instabilidade na vida social, é como viver debaixo de uma possível tempestade de raios o tempo todo, com o medo de não saber se será atingido pela efusão de uma inverdade, é Loki roubando o martelo de raios, e usando para o caos. O caos que é a incerteza e transforma-se em nova troposfera.
Essa troposfera – a primeira camada da atmosfera, onde há fenômenos climáticos, local de vida humana – é apropriada por algoritmos que a configuram segundo interesses deste capitalismo de vigilância e podem reestruturar a psique política. Gostos, desejos, intuições e pensamentos são reajustados para vantagens de outros.
Para Byung-Chul Han, em Infocracia, a fake news não é uma mentira, mas uma outra realidade criada, moldada. Quem molda, precisa da matéria para dar forma, quem mente ou forja precisa da verdade para distorcer, portanto, o silogismo aqui já decidiu, para se ter uma nova realidade – aliada aos interesses de quem o faz – é preciso saber o que é a verdade, ter a verdade, como Pilatos.
A era da pós-modernidade técnica é permeada pela pós-verdade. Os fatos não estão à um click de distância, isto é alienação. Fatos são distantes e a miríade de desinformações nubla a visão, são nuvens espessas que bloqueiam o Sol (a verdade em Platão), impedindo de enxergar com lucidez. O caos é presente onde não se pode ver direito. Os fatos estão no horizonte da visão, e a sombra impede de ver ao longe. [1]
Dirimir o que é real do que é uma nova realidade exige tempo e consciência crítica, no mundo da escassez cronológica este investimento é desperdício. É preferível viver na penumbra criada pelo louvor incessante à Loki, no caos de seu reino, assim vemos o plasmar de jotunheim [2] sobre nossa midgard [3].
Jotunheim é a terra natal do deus nórdico, um lugar de sombras e frio, bem como o mundo interior de quem é persuadido por uma – ou várias – fake news e dali não consegue sair, o Ser está sem direção e vai perdendo-se em si mesmo, nas próprias crenças ecoadas nas paredes de sua caverna interior. A terra de midgard, a terra iluminada do Ser, é tomada por jotunheim. Quanto mais pessoas são presas assim, mais as sombras da falsidade encobrem o tecido da realidade.
Porque o ser humano pós-moderno aceita a vivência no claustro do engano? Deveríamos estar em um levante pela liberdade, pela verdade. Defender nossas mentes contra um mundo que não pedimos. A construção social do cotidiano precisa voltar ao eixo da solidez. Criticidade não é uma questão ideológica, é a sobrevivência de si, do Ser.
Neste ponto a estrutura da tecnificação deveria trabalhar ao nosso favor, é preciso utilizar do veneno para se fazer o antídoto, isto é, combater a desinformação tecnificada com a informação tecnificada. Ora, a lógica está invertida, a técnica tem sido utilizada para criar o fato.
Ela tem de ser usada para criticar o fato, elucidar a realidade, pois o fato não se cria, ele é. A técnica pode ser auxiliar de aprofundamento se bem usada, contudo, a superficialidade rege a condição atual.
E isto urge, pois as informações falaciosas são difundidas 70% mais rápido em comparação as autênticas, segundo o Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT) [4]. A corrida é desleal, vídeos curtos, dopamina barata, são o brilho desta pirita [5], isto reluz aos olhos e ludibria a mente.
A nova realidade, – falsamente – mais bela e perfeita coincide com o intento da mente espectadora, no fundo os adoradores de Loki querem ver representadas e ratificadas as suas ideias. É plausível afirmar: a fake news é um espelho do interior do sujeito que a dissemina. Desta feita, o problema não é o que sai pela boca – ou toques em compartilhar – mas o que entra pelos olhos da mente.
Loki não quer o mal estrito, em suas ações o alvo é o caos, e quem dissemina a falsa informação, pensa fazer o bem, porém é uma mal camuflado de bem, de onde emerge o caos social de nublar a visão. O caos é o maná de Loki.
A tradução (estrita) de feed [6] em português é a alimentação, a ração, então o rolar de dedos sobre o cristal líquido nutre a mente com ideias falsas. O Ser aqui é alimentado com sementes do caos, fragmentos de uma verdade, reorganizado em uma nova verdade, logo não sendo mais fato, sendo então uma opinião, uma doxa, que é transmutada em ortodoxia.
Os discípulos de Loki o louvam com a liturgia do não saber, que se faz em todo ato de criar uma falácia, de compartilhar sem crivo e de crer sem ter visto. É uma procissão de notícias irreais que podem terminar em um sacrifício cruento, de sangue, de morte. Palavras distorcidas de contexto, levam em alguns casos à morte.
Como exemplo, a Covid-19 já totalizou mais de 7 milhões de óbitos no mundo [7] e seria ingênuo afirmar que todas foram decorrência de notícias falsas, mas mais ingênuo seria inferir uma não relação ao fenômeno [8]. Mesmo que fosse apenas uma única morte vinculada a desinformação, não seria condenável? Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) demonstram que 40% de todo conteúdo antivacina na América Latina e Caribe provém do Brasil [9], o país não atingiu metas de vacinação infantil desde 2015 [10] segundo a UNICEF, possíveis mortes a caminho.
Temos uma distorção do real cooptando o Ser dos indivíduos, em detrimento da vida. O próximo deixou de ter valor para se estar certo perante o que se crê sem crítica. O contexto pode dar o sentido da palavra, Wittgenstein na pós-modernidade técnica ficaria surpreso em vista do novo sentido dado ao contexto pela ortodoxia da pós-verdade, ela cria o contexto, ou seja, molda o real, a palavra está criando a conjuntura.
A rapidez é o fio condutor desta ortodoxia da pós-verdade, crer é mais fácil do que investigar, portanto mais fluído, então se a lógica da técnica assim procede, o escape só pode acontecer no sentido inverso. A lentidão é a saída da caverna. O refletir exige atenção, e não há atenção rápida, a concatenação de ideias, a criticidade advém de uma profundeza que a verdade fluída não suporta, logo se especializar nisso é como tatear o escuro, ouvir e inalar com atenção, para sentir, entender e compreender.
O Ser é a nossa verdade, a Aletheia [11] interior. O sujeito está acima da técnica, não o contrário. Em determinado ponto ocupamos o lugar de Pilatos, na hora de julgar o que se vê lavamos as mãos. A ortodoxia da pós-verdade sobrepuja o Ser, nos faz cegos diante à Verdade. A idolatria de Loki é a condenação da essência, o fim da alteridade. A maior revolta contra está liturgia não é um levante social, é a introspecção, o voltar se para si. Parafraseando filósofo medieval, “tarde te amei, ó Verdade, tão bela e tão rara, tu estavas dentro e eu te procurava fora” [12].
Referências
[1] Este texto faz parte do livro MitologIA’s: filosofia de um mundo que voltou a cultuar deuses, onde o autor identifica patologia do mundo contemporâneo da pós-modernidade técnica utilizando os arquétipos de deuses e seres mitológicos para pensar a realidade e possíveis saídas dos problemas.
[2] Reino natural de Loki na mitologia nórdica.
[3] Local da humanidade para os nórdicos.
[4] https://ide.mit.edu/wp-content/uploads/2018/12/2017-IDE-Research-Brief-False-News.pdf
[5] A pirita, apelidada de "ouro de tolo", é um mineral de sulfeto de ferro com cor amarelo-dourada e brilho metálico que frequentemente engana, sendo confundida com ouro real.
[6] Conceito tecnológico pós-moderno que define a chamada linha do tempo das redes sociais.
[7] Número obtido no portal “Nosso mundo em dados”: https://ourworldindata.org/coronavirus
[8] Conferir: Textos que matam: analisando operações textuais-discursivas na construção de fake news sobre a pandemia de Covid-19 no Brasil, disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UNICAMP30_fe8e3a11bb068262767b330996bbc13e de José Elderson de Souza Santos. Ou o estudo The impact of fake news on social media and its influence on health during the COVID-19 pandemic: a systematic review, disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8502082/, feito durante a pandemia.
[9] Alerta: Brasil concentra 40% de todo o conteúdo antivacina do continente. Disponível em: https://www.gov.br/saude/ptbr/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2025/outubro/alerta-brasil-concentra-40-de-todo-o-conteudoantivacina-do-continente
[10] Brasil vive crise prolongada na vacinação infantil, apesar de melhora em 2023, mostra Anuário VacinaBR. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/brasil-vive-crise-prolongada-na-vacinacaoinfantil-apesar-de-melhora-em-2023-mostra-anuario-vacinabr
[11] Alétheia (do grego ἀλήθεια) é um concept filosófico que significa "verdade", traduzido literalmente como desvelamento, revelação ou "não oculto".
[12] Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu fora te procurava. (Confissões - Santo Agostinho).
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