18 Junho 2026
“Quando uma era se aproxima de seu fim, talvez o verdadeiro desafio não seja mudar, nem nos prepararmos para a batalha inevitável. Talvez seja algo mais difícil: construir uma realidade compartilhada capaz de manter o terreno fértil, para que ainda possam surgir futuros que hoje sequer somos capazes de imaginar”, escreve José Luis Blasco, químico, doutor em Economia e executive fellow no Departamento de Estratégia do IESE/IE Business School, em artigo publicado por Ethic, 16-06-2026.
Eis o artigo.
A abertura de capital da SpaceX voltou a colocar sobre a mesa uma das ideias mais ambiciosas do nosso tempo. Para além dos foguetes reutilizáveis, das constelações de satélites ou das futuras missões a Marte, a proposta da SpaceX rompe um dos limites mais fundamentais da história humana: a nossa dependência de um único planeta.
A história do progresso humano pode ser interpretada como uma sucessão de rupturas de fronteiras que foram ampliando esse espaço de possibilidades. O domínio do fogo expandiu os territórios habitáveis. A agricultura permitiu o surgimento das cidades e das primeiras civilizações complexas. A navegação oceânica conectou continentes antes isolados. A eletricidade multiplicou a capacidade produtiva. A internet expandiu as fronteiras da informação e da coordenação humana em escala planetária.
Uma mudança de era ocorre quando aparecem capacidades completamente novas. As antigas não se esgotam. Não se trata simplesmente de melhorias adicionais sobre o que já existe, mas de transformações que modificam o tamanho do tabuleiro no qual uma sociedade opera. Algumas inovações melhoram o jogo. Outras mudam as regras. E algumas poucas alteram o que se acreditava serem seus limites.
Mas as mudanças de era nem sempre acarretam dinâmicas positivas. A história mostra que o espaço de possibilidades disponível para uma civilização pode se expandir, mas também se contrair. Eric H. Cline descreve em seu livro 1177 a.C.: O ano em que a civilização entrou em colapso como o fim da Idade do Bronze implicou a desintegração de uma rede comercial surpreendentemente global para seu tempo, provocando uma perda de complexidade econômica, tecnológica e institucional que afetou amplas regiões durante gerações.
A queda do Império Romano do Ocidente produziu uma dinâmica semelhante, erodindo capacidades comerciais, infraestruturais e administrativas acumuladas ao longo de séculos. As mudanças de era não são necessariamente sinônimo de progresso; são momentos em que o tabuleiro muda de tamanho, para melhor ou para pior.
A inteligência artificial ou a potencial oportunidade de colonizar outros planetas – por certo, protagonizada pelos mesmos pioneiros - nos coloca provavelmente diante de um desses momentos históricos em que o tabuleiro muda de tamanho. No entanto, a incerteza não é nova. Sempre fez parte da experiência humana. O que parece estar mudando é a estabilidade do próprio terreno sobre o qual tomamos decisões.
Durante décadas, operamos sob a premissa de que, como apontou Mark Carney, em Davos, a ficção de instituições globais capazes de coordenar o sistema internacional continuaria funcionando; de que as cadeias globais de suprimentos seguiriam conectando o mundo; de que alcançaríamos acordos de última hora para manter os sistemas ecológicos dentro de limites conhecidos; e de que, graças a tudo isso, o espaço de possibilidades continuaria se expandindo. Hoje, essa premissa é muito menos evidente.
A questão já não é apenas que futuro virá, mas quantos futuros continuarão sendo possíveis. Ou, utilizando a metáfora do tabuleiro, se ainda teremos casas a partir das quais continuar jogando.
O conceito de opcionalidade (optionality) foi inicialmente desenvolvido por N. N. Taleb, em Antifrágil, e descrevia como em um ambiente em que se torna cada vez mais difícil antecipar o futuro, o ativo mais valioso deixa de ser a capacidade de previsão e passa a ser a capacidade de manter abertas as opções.
A Dark Matter Labs, em um de seus trabalhos mais recentes, leva essa ideia um passo adiante e a transporta para a escala das civilizações. Sua pergunta não é como otimizar um sistema estável, mas como conservar a capacidade coletiva de agir quando o próprio sistema está sob pressão crescente. Segundo esse curioso think tank, quando as sociedades percebem que o campo de jogo começa a encolher, tendem a responder de três formas distintas.
A primeira resposta é provavelmente a mais antiga da história humana. Quando um território se esgota, quando uma fronteira se fecha ou quando um sistema deixa de oferecer oportunidades, a solução consiste em construir um novo. Não tenta resolver as restrições existentes; tenta superá-las. Não busca se adaptar aos limites atuais, mas transcendê-los.
A exploração espacial impulsionada pela SpaceX representa provavelmente a expressão mais visível dessa visão. A ideia de uma civilização multiplanetária parte de uma intuição poderosa: uma humanidade distribuída em vários planetas dispõe de mais opções do que uma humanidade confinada a apenas um. A tranquilidade é alcançada expandindo o domínio físico da civilização.
Vista sob essa perspectiva, a Lua e Marte não são propriamente o objetivo. São um símbolo. Representam a convicção de que, quando surgem limites, a resposta consiste em abrir novas fronteiras. A história humana oferece numerosos precedentes dessa lógica. Novos territórios, novas fontes de energia, novas tecnologias ou novos espaços econômicos permitiram repetidamente escapar de restrições que pareciam intransponíveis.
No entanto, essa estratégia também levanta uma questão incômoda. Expandir o espaço de possibilidades para a civilização não implica necessariamente que isso seja melhor, nem que seja possível expandi-lo para todos os seus membros. As novas fronteiras costumam ser acessíveis primeiro àqueles que dispõem de capital, tecnologia e capacidades necessárias para alcançá-las. Uma opção que amplia o horizonte humano, mas o faz de maneira inevitavelmente desigual.
A segunda resposta surge de uma intuição completamente diferente. Se não é possível escapar do sistema, a prioridade passa a ser proteger-se dentro dele.
Aqui, a premissa fundamental é que a instabilidade já não é uma anomalia temporária, mas uma condição permanente. O objetivo deixa de ser a expansão e passa a ser a proteção. Trata-se de preservar a capacidade de ação em um mundo onde os recursos, a estabilidade e a confiança são percebidos como cada vez mais escassos.
Essa lógica é visível em muitas das grandes tendências geopolíticas atuais. A soberania energética, a relocalização de indústrias estratégicas, a competição por minerais críticos, o aumento dos gastos com defesa e o fortalecimento de capacidades de cibersegurança respondem a essa mesma mentalidade. Quando o ambiente se torna mais incerto, os atores tentam reduzir dependências e reforçar suas posições relativas.
Uma opção perfeitamente racional sob a perspectiva de quem a adota. Um governo tem a obrigação de garantir energia, alimentos, segurança e estabilidade a seus cidadãos. O problema surge quando essa lógica se generaliza. A fortaleza como virtude principal protege alguns atores em relação a outros, mas não altera as dinâmicas que estão reduzindo o tamanho do tabuleiro. Pode retardar os efeitos de uma crise, mas dificilmente consegue resolvê-la por si só.
De fato, há o risco de que a proteção de uns acabe aumentando a vulnerabilidade de outros, gerando uma espiral de competição por recursos cada vez mais escassos. Nesse cenário, enormes quantidades de capital, energia e talento são destinadas a defender posições em vez de ampliar as opções disponíveis.
É precisamente diante dessa limitação que surge a terceira estratégia: como evitar que o próprio tabuleiro entre em colapso?
Sob essa perspectiva, os verdadeiros ativos estratégicos de uma civilização não são apenas os foguetes, as fábricas, os centros de dados, os exércitos ou os oleodutos. São também os ecossistemas que regulam o clima, as bacias hidrográficas que fornecem água, os solos férteis que sustentam a produção de alimentos, as instituições que geram confiança, o ato de nos reunirmos em torno de uma mesa para construir algo maior.
As missões a Marte são possíveis graças a décadas de desenvolvimento de sistemas de energia, materiais, estabilidade institucional e uma sociedade capaz de sustentar projetos de longo prazo. Uma estratégia de fortalezas requer recursos, coesão social e sistemas ecológicos suficientemente funcionais para continuar proporcionando segurança material. Quando essas condições se deterioram, tanto a fronteira quanto a fortaleza perdem progressivamente sua capacidade de gerar opções.
A história oferece razões tanto para o otimismo quanto para a prudência. Algumas sociedades aproveitaram as mudanças de era para florescer, expandindo extraordinariamente o espaço de possibilidades disponível para as futuras gerações. Outras atravessaram longos períodos de contração. Um inverno nuclear para a capacidade de imaginar alternativas.
Amartya Sen definiu o desenvolvimento como a expansão das liberdades reais das pessoas. Talvez possamos levar essa ideia um passo adiante. O desenvolvimento não consiste apenas em ampliar as opções disponíveis para quem vive hoje. Consiste também em preservar a capacidade das gerações futuras de continuar criando novas opções.
Quando uma era se aproxima de seu fim, talvez o verdadeiro desafio não seja mudar, nem nos prepararmos para a batalha inevitável. Talvez seja algo mais difícil: construir uma realidade compartilhada capaz de manter o terreno fértil, para que ainda possam surgir futuros que hoje sequer somos capazes de imaginar.
Leia mais
- Edgar Morin (1921-2026): “A experiência me mostrou que o improvável pode acontecer”
- “Esta é a tendência dominante na atualidade: ser brutal”. Entrevista com Slavoj Žižek
- “No oceano de más notícias que inunda o mundo, vivemos de pequenos milagres”. Entrevista com Nancy Fraser
- “Tenho a esperança de que nossa civilização entre em colapso e possamos construir sobre novos alicerces”. Entrevista com Tim Ingold
- O fim da megamáquina. A história de uma civilização à beira do colapso. Artigo de Fabian Scheidler
- “Nossa civilização está sendo sufocada pelo capitalismo de curto prazo”. Timothée Parrique
- Encruzilhada Apocalipse: quando a civilização corre rumo à catástrofe. Artigo de Massimo Cacciari
- “O progresso carrega dentro de si um buraco negro”. Artigo de Edgar Morin
- “Devemos desmistificar a tecnologia e ouvir as pessoas que estão sob os escombros do progresso”. Entrevista com Ruha Benjamin
- O preço do progresso: o lado sombrio dos minerais críticos na Amazônia
- O colonialismo espacial do Vale do Silício: entre o escapismo de Musk e o extrativismo extraterrestre de Bezos
- Não, Elon, não deveríamos ir a Marte. Artigo de Thomas Reese