Em 2025, foram gastos 3.768 dólares por segundo em arsenais nucleares

Foto: FlickrCC/Governo dos EUA

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12 Junho 2026

"É diante do aumento quantitativo dos arsenais nucleares, da deterioração dos mecanismos de controle e da crescente opacidade das potências atômicas, que a crise do multilateralismo e a predominância da cultura do poder, repetidamente denunciadas pelo Papa Leão XIV, assumem uma gravidade ainda maior", escreve Guglielmo Gallone, jornalista, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 09-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Em 2025, os nove países que possuem armas nucleares gastaram 119 bilhões de dólares para manter e modernizar seus arsenais nucleares, o equivalente a 3.768 dólares por segundo. O aumento em comparação com 2024, é de 19%: em apenas dois anos, chegou-se a gastar 16,8 bilhões de dólares a mais para os arsenais. Esse é o dado que mais impressiona do novo relatório publicado pela Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN), uma coalizão global de organizações não governamentais fundada em 2007 e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2017.

E que está perfeitamente alinhada com o que emerge de outro relatório, também publicado hoje, mas pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI): após décadas de redução dos arsenais, as potências nucleares estão voltando a considerar as armas nucleares uma ferramenta central para sua segurança nacional. De acordo com o relatório do SIPRI, todos os nove países que possuem armas nucleares — Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel — continuaram a modernizar e ampliar seus arsenais durante 2025. Resultado: segundo o SIPRI, em janeiro de 2026, o número total de ogivas nucleares em todo o mundo chegava a 12.187, das quais aproximadamente 9.745 potencialmente utilizáveis e mais de 4.000 posicionadas em mísseis ou aeronaves.

O problema não é que o número total esteja aumentando já hoje, mas sim que o desmantelamento está se desacelerando enquanto a produção de novas armas está se acelerando. Consequentemente, a tendência que havia caracterizado o período pós-Guerra Fria poderia em breve se inverter: até agora, o descarte das antigas ogivas pelos Estados Unidos e pela Rússia compensava a produção de novos armamentos, mas essa tendência está gradualmente se invertendo.

Karim Haggag, diretor do SIPRI, identifica nisso o sinal mais preocupante. As potências nucleares estão transferindo mais ogivas de seus arsenais para sistemas de lançamento, aumentando o número de armas imediatamente utilizáveis e fortalecendo a prontidão operacional. Isso significa que o número de armas que podem ser rapidamente utilizadas em uma crise está crescendo. Isso é um sinal nada tranquilizador quando ligado à cultura que domina cada vez mais as lógicas geopolíticas atuais e que o Papa Leão XIV, em sua primeira encíclica Magnifica Humanitas, define como "cultura do poder", na qual se destaca a "força sem limites" e na qual "a guerra parece quase uma continuação natural da política e o mercado das armas torna-se motor autónomo de escolhas bélicas".

De fato, 2026 foi o ano em que a Conferência das Nações Unidas sobre a Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) terminou sem nenhum acordo, devido ao conflito entre os Estados Unidos e o Irã sobre o programa nuclear de Teerã. Trata-se do terceiro fracasso consecutivo de uma conferência de revisão do TNP, considerado a pedra angular da não proliferação e do desarmamento globais. Na última revisão do tratado, em agosto de 2022, a Rússia havia bloqueado o acordo sobre o documento final devido à invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022 e às referências à ocupação, por Moscou, da usina nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa.

Mas a falta de acordo foi ainda mais preocupante porque, apenas poucos meses antes, em 4 de fevereiro, expirou o Tratado New START entre os Estados Unidos e a Rússia, ou seja, o ápice de um processo iniciado em 31 de julho de 1991, em Moscou, visando precisamente prevenir uma corrida armamentista entre as duas superpotências. Justamente no final da audiência geral de 4 de fevereiro, o Papa Leão XIV havia renovado um forte convite para "não abandonar esse instrumento sem buscar assegurar um seguimento concreto e eficaz", pois "a situação atual exige que façamos todo o possível para evitar uma nova corrida armamentista que ameace ainda mais a paz entre as nações".

E é precisamente um mundo sob ameaça nuclear que emerge de ambos os relatórios. A ICAN e o SIPRI concordam em colocar os Estados Unidos e a Rússia no topo dessa lista, que juntos detêm 83% de todo o arsenal nuclear mundial, com mais de 5.000 ogivas cada. Especificamente, Washington gastou em 2025 69,2 bilhões de dólares, ou seja, aproximadamente 58% dos gastos nucleares globais, um aumento anual de 12,4 bilhões dólares, o maior do mundo. Entre os objetivos estadunidenses, destaca-se a continuação do maior programa de modernização nuclear de sua história recente.

A modernização nuclear estadunidense não é algo recente; pelo contrário, é um programa de décadas apoiado por presidentes de ambos os partidos que prevê, entre as muitas decisões, a substituição dos mísseis Minuteman pelos Sentinel, os novos submarinos da classe Columbia, o novo bombardeiro B-21 Raider, a modernização das ogivas nucleares, a renovação das infraestruturas nucleares, os mísseis balísticos intercontinentais e os bombardeiros estratégicos. Hoje, isso fica ainda mais claro na Estratégia de Defesa Nacional de 2026, que aborda explicitamente a necessidade de modernizar e adaptar as forças nucleares dos EUA em resposta à evolução do cenário estratégico, especialmente pela competição simultânea com a Rússia e a China. Um conceito recorrente é que os Estados Unidos jamais devem ser vulneráveis ao que o documento chama de "nuclear blackmail", ou seja, chantagem nuclear.

No entanto, o próprio SIPRI destaca que uma parcela crescente desses 69,2 bilhões de dólares anuais destinados ao armamento nuclear está sendo absorvida por atrasos, aumentos de preços e dificuldades na execução dos programas. Os problemas estão principalmente ligados à mão de obra, ou seja, o envelhecimento da força de trabalho especializada, às dificuldades em atrair jovens engenheiros, à escassez de pessoal nos estaleiros e à perda de competências acumuladas durante a Guerra Fria. Os ritmos de produção são, portanto, lentos e os custos elevados. O resultado é uma assimetria econômica e militar: os EUA se veem obrigados a utilizar armas sofisticadas, porém caras (por exemplo, os mísseis Patriot, 4 milhões de dólares cada) para neutralizar ameaças de baixo custo (os drones Shaded produzidos no Irã por 30.000 dólares).

Há também um problema de infraestrutura, já que modernizar laboratórios ou atualizar instalações de manutenção não é fácil, especialmente porque o sistema foi projetado durante décadas para uma fase de redução dos arsenais. Tudo isso se torna ainda mais problemático com o aumento dos custos de materiais e com as cadeias de suprimentos sob pressão. Resultado: apesar de um enorme orçamento de defesa (próximo a 900 bilhões de dólares, quase três vezes o da China), a máquina bélica estadunidense tem dificuldades para traduzir esses recursos devido a ineficiências de produção e à expansão imperial excessiva.

Mas, por outro lado, é justamente isso que permite o crescimento da República Popular da China. Seu arsenal atualmente inclui aproximadamente 620 ogivas nucleares, razão pela qual, segundo o SIPRI, a China é o país que expande seu arsenal mais rapidamente. A ICAN acrescenta que, com um gasto de 13,5 bilhões de dólares em 2025, Pequim já é o segundo maior investidor nuclear do mundo e, portanto, está expandindo seu arsenal mais rapidamente do que qualquer outro, por meio de silos de mísseis, mísseis intercontinentais e uma ampliação de sua tríade nuclear (terrestre, aérea e marítima). Inclusive porque, nesse interim, a Rússia, apesar de dispor de mais de 5.000 ogivas nucleares e investir 9,5 bilhões de dólares em seu arsenal, enfrenta problemas ligados aos efeitos das sanções ocidentais, à pressão econômica da guerra na Ucrânia e a alguns testes de misseis fracassados.

Também na frente europeia, o Reino Unido e a França se destacam em ambos os relatórios. Paris possui cerca de 290 ogivas nucleares e, em março, o presidente francês, Emmanuel Macron, delineou a atualização da doutrina de "dissuasão nuclear avançada" de Paris, destacando o papel essencial das armas nucleares na estratégia de segurança nacional e no quadro mais amplo de defesa europeia. Londres, por sua vez, dispõe de cerca de 225 ogivas nucleares e, acima de tudo, segundo a ICAN, gastou a impressionante quantia de 12,6 bilhões de dólares para seu arsenal em 2025, mais do que a Rússia. Por fim, permanecem significativos os arsenais da Índia, com 190 ogivas nucleares, parte das quais parece estar sendo cada vez mais posicionada operacionalmente, e o Paquistão com 170 ogivas nucleares, com um estoque de material físsil que, segundo o SIPRI, poderia sugerir uma possível ampliação futura de seu arsenal.

O mesmo se aplica a Israel, que ostenta um arsenal estimado pelo Relatório do SIPRI em cerca de 90 ogivas, mas sem qualquer confirmação oficial, e à Coreia do Norte, que reivindica o crescimento mais agressivo em relação às dimensões do país, com cerca de 60 ogivas em 2026. "O programa de armas nucleares da Coreia do Norte absolutamente não é negociável", declarou Kim Yo Jong, irmã do presidente Kim Jong-um, que, na véspera da visita do presidente chinês Xi Jinping a Pyongyang, havia visitado uma grande empresa do setor bélico, onde foi informada sobre os planos para aumentar a produção de mísseis balísticos e de cruzeiro.

É, portanto, diante do aumento quantitativo dos arsenais nucleares, da deterioração dos mecanismos de controle e da crescente opacidade das potências atômicas, que a crise do multilateralismo e a predominância da cultura do poder, repetidamente denunciadas pelo Papa Leão XIV, assumem uma gravidade ainda maior.

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