10 Junho 2026
O mundo vive uma nova escalada da corrida armamentista nuclear, impulsionada por investimentos que atingiram níveis recordes em 2025. Segundo relatórios divulgados pela Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican) e pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), os nove países que possuem armas nucleares gastaram quase US$ 119 bilhões em seus arsenais no último ano, cerca de US$ 17 bilhões a mais do que em 2024.
A reportagem é publicada por RFI, 09-06-2026.
O valor representa um aumento de 19% em relação ao período anterior e reflete, segundo a Ican, o início de uma nova corrida armamentista que pode se estender por décadas. Os países que possuem armas nucleares – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Israel, Paquistão e Coreia do Norte – ampliaram seus investimentos simultaneamente, em meio ao agravamento das tensões geopolíticas e à modernização dos sistemas de dissuasão nuclear.
Os Estados Unidos lideram os gastos globais com ampla vantagem. Apenas em 2025, Washington destinou US$ 69,2 bilhões à manutenção e ao desenvolvimento de seu arsenal nuclear, mais do que a soma dos investimentos realizados pelos demais países com armas atômicas. Em seguida aparecem China (US$ 13,5 bilhões), Reino Unido (US$ 12,6 bilhões) e Rússia (US$ 9,5 bilhões).
A expansão chinesa é apontada como uma das mais aceleradas do mundo. O país possui atualmente cerca de 620 ogivas nucleares e poderá alcançar, até 2030, uma capacidade de mísseis balísticos intercontinentais comparável à dos Estados Unidos e da Rússia. Especialistas avaliam que a crescente rivalidade estratégica entre as grandes potências tem levado Pequim a fortalecer sua capacidade de dissuasão nuclear.
Embora o número total de armas nucleares continue menor do que durante a Guerra Fria, os especialistas alertam para o aumento dos riscos. O Sipri estima que existam atualmente cerca de 12.187 ogivas nucleares no mundo, das quais aproximadamente 9.745 permanecem disponíveis para eventual utilização militar. Segundo o instituto, a tendência histórica de redução dos arsenais pode estar chegando ao fim, à medida que o desmantelamento de armas antigas desacelera e novos sistemas entram em operação.
Gastos devem aumentar nas próximas décadas
A Ican destaca que os nove países com atividades nucleares já destinaram cerca de US$ 470 bilhões à manutenção e expansão de seus arsenais nos últimos anos e prevê que os gastos continuem crescendo nas próximas décadas. Nos Estados Unidos, os futuros mísseis balísticos intercontinentais Sentinel foram projetados para permanecer em operação além de 2100. O aumento da produção de núcleos de plutônio também sugere a manutenção de ogivas até pelo menos 2120.
As projeções indicam que Washington poderá gastar quase US$ 1 trilhão em seu arsenal nuclear entre 2025 e 2034. Para a Ican, esses investimentos contrastam com as dificuldades enfrentadas por organismos internacionais e programas humanitários em todo o mundo.
Segundo a organização, os recursos destinados às armas nucleares em 2025 seriam suficientes para financiar 32 anos do orçamento operacional das Nações Unidas. O valor gasto em apenas um dia com arsenais atômicos poderia garantir segurança alimentar para mais de 2 milhões de pessoas.
Avanço da IA
Outro fator de preocupação é o avanço da inteligência artificial nos sistemas militares. A diretora de programas da Ican, Susi Snyder, afirmou estar "apavorada" com a combinação entre a nova corrida armamentista e o uso crescente dessas tecnologias em processos de tomada de decisão estratégica. Especialistas temem que a automação possa acelerar decisões críticas e aumentar os riscos de erros de cálculo em situações de crise.
A fragilização dos acordos internacionais de controle de armas, somada à modernização dos arsenais e ao aumento das tensões entre as grandes potências, contribui para um cenário considerado cada vez mais instável. Para a Ican, os governos estão investindo recursos bilionários em sistemas que, se utilizados, poderiam provocar consequências humanitárias catastróficas.
"Em vez de fornecer ajuda ou garantir serviços essenciais às suas populações, os Estados com armas nucleares investem em um arsenal que sabem não poder utilizar sem cometer um crime de guerra", afirmou Snyder. Para a diretora de programas da Ican, há uma "desconexão total da realidade" entre as prioridades globais e os investimentos crescentes em armamentos nucleares.
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