Maria Madalena e Maria de Nazaré: Longe do dogma, próxima do Evangelho. Artigo de Juan José Tamayo

Aparição de Jesus Cristo a Maria Madalena, obra de Alexander Ivanov (Foto: Domínio público)

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30 Julho 2026

'A história oculta: Maria, Mãe de Jesus, e Maria Madalena', do teólogo catalão Lluís Busquets Grabulosa, ajuda-nos a recuperar a tradição do movimento de Jesus como discipulado entre iguais. Vinte séculos depois, a justiça é feita mais uma vez às duas Marias.

O artigo é de Juan José Tamayo, teólogo espanhol, secretário-geral da Associação de Teólogos João XXIII, ensaísta e autor de mais de 70 livros, publicado por Religión Digital, 29-07-2027.

Eis o artigo.

O cristianismo institucional passou por um processo de dogmatização tão intenso que resultou em rigorismo doutrinal e esvaziamento da experiência religiosa. Os corpos hierárquicos, mais preocupados com a reprodução da instituição eclesiástica do que com a alegre proclamação da Boa Nova da libertação dos pobres, estabeleceram-se como guardiões de uma tradição esclerosada que pouco tem a ver com o Evangelho.

A Igreja Cristã, confortavelmente instalada em dogmas, esqueceu-se muito rapidamente de que o Evangelho é anterior aos dogmas e que os dogmas empobrecem o Evangelho. Substituiu a ortodoxia pela ortopraxia. Trocou a linguagem simbólica, a mais característica das religiões, incluindo o cristianismo, pela linguagem dogmática, resultando num empobrecimento semântico e significativo. Os símbolos abrem novos horizontes e, como disse Paul Ricoeur, dão o que pensar, enquanto os dogmas fecham toda a possibilidade de pensar e impõem uma única forma de pensar.

Nesse sentido, li com grande interesse A historia oculta: Maria, Mãe de Jesus, e Maria Madalena, livro do teólogo catalão Lluís Busquets Grabulosa (Destino, Barcelona), justamente nestes dias em que celebramos a festa de Maria Madalena (22 de julho). Esta obra está mais próxima do Evangelho de Jesus do que do sistema dogmático da Igreja. Esse é, sem dúvida, seu principal mérito, pois lê os textos cristãos do passado não de forma fundamentalista, mas a partir das questões, preocupações e desafios do presente. Assim, os poucos detalhes que os Evangelhos nos oferecem sobre Maria de Nazaré e Maria Madalena ganham vida, se aprofundam em significado e adquirem um novo sentido.

A história oculta: Maria, Mãe de Jesus, e Maria Madalena, livro de Lluís Busquets Grabulosa. (Ediciones Destino, 2009) 

Maria de Nazaré e Maria Madalena: no círculo de Jesus

Gregório de Nazianzo disse que a Bíblia cresce com seus leitores. O mesmo pode ser dito das duas protagonistas deste livro: ambas adquirem novos perfis e novas dimensões nas páginas do teólogo catalão. A tradição (teologia, arte, literatura, piedade, etc.) insistiu em contrapor essas duas mulheres e atribuir-lhes papéis opostos: a Maria, mãe de Jesus, o papel não tão facilmente compreendido de Mãe de Deus, visto que era um ser humano, e de corredentora ao lado de seu filho, Jesus de Nazaré, Filho de Deus; a Maria Madalena, a imagem de uma mulher sensual e pecadora arrependida.

Contudo, nada disso pode ser inferido dos evangelhos canônicos ou apócrifos, que as apresentam como protagonistas e participantes ativas do movimento igualitário entre homens e mulheres iniciado por Jesus de Nazaré, como colaboradoras na práxis libertadora e como seguidoras da causa de Jesus após a sua morte. Ambas são mulheres adultas, independentes, seguras de si e libertas. Ambas pertencem ao círculo íntimo do Nazareno e participam das decisões mais importantes desse círculo.

Os textos evangélicos atestam isso repetidamente, embora interpretações patriarcais tenham procurado obscurecê-lo. Busquets distancia-se dessas interpretações, fazendo justiça às duas mulheres com domínio exegético, conhecimento histórico e sensibilidade feminista. Duas mulheres que transitam entre o símbolo e a realidade, a história e a interpretação.

O autor retorna aos evangelhos, tanto canônicos quanto apócrifos, para fazer uma reconstrução histórica de ambos por meio de métodos histórico-críticos, mas estando muito consciente das dificuldades envolvidas em separar precisamente a história da interpretação, a lenda da realidade.

A recuperação de Maria Madalena

Nas últimas décadas, houve um forte movimento para recuperar a figura de Maria Madalena por parte de especialistas do Novo Testamento, de preferência mulheres, que leem os textos a partir de uma perspectiva de gênero, por historiadores, que realizam uma reconstrução não patriarcal dos primeiros séculos do cristianismo, e pela teologia feminista, com sua hermenêutica da suspeita lúcida e precisa.

Os chamados evangelhos "apócrifos", especialmente os de natureza gnóstica, desempenharam um papel fundamental nessa recuperação. Entre eles estão o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe e o Evangelho de Maria e Pistis Sophia. Busquets está familiarizado com esses textos e os estuda, situando-os em seu contexto e recorrendo a pesquisas exegéticas recentes para desvendar seu alcance. Voltarei a eles mais adiante.

A centralidade da figura de Maria Madalena também está sendo decisivamente influenciada, ao menos no imaginário religioso e social, por certas obras de ficção centradas no caso amoroso entre Jesus e Maria Madalena, sobre as quais os textos dizem muito pouco e quase tudo é produto da imaginação. Entre elas, destaca-se o romance A Última Tentação, do escritor grego Nikos Kazantzakis (1885-1957), obra de grande qualidade literária, que foi adaptada para o cinema por Martin Scorsese.

Às numerosas e rigorosas investigações sobre a figura de Maria Madalena, soma-se agora o excelente ensaio de Elena Gortázar, Seguindo os Passos de Maria Madalena no Século XXI (Tirant, 2026, várias reimpressões), que atualiza os novos avanços em questões hermenêuticas sobre uma figura tão relevante, dá-lhe nova vida, expõe os erros e projeta a sua importância para o século vindouro, visando um cristianismo libertador numa perspectiva feminista.

Mulheres no movimento de Jesus: práxis de solidariedade a partir de baixo

As pesquisas atuais em sociologia, história social, antropologia cultural e hermenêutica feminista sobre as origens do cristianismo situam o grupo de seguidores de Jesus no contexto mais amplo dos movimentos de renovação do judaísmo do primeiro século, ao lado dos essênios, terapeutas, penitencialistas e outros. Também os inserem nos movimentos que lutaram contra a exploração patriarcal em diversas culturas: grega, romana, asiática e judaica. Ao longo da história de Israel/Palestina, houve intensas lutas lideradas por mulheres que desempenharam um papel político e cultural crucial.

As primeiras seguidoras de Jesus foram mulheres galileias que se reuniam para refeições comunitárias, encontros de oração e sessões de reflexão religiosa, movidas pelo sonho de libertar todas as mulheres em Israel. Foi precisamente esse movimento, em busca da emancipação do domínio patriarcal, que possibilitou o nascimento do movimento de Jesus como um discipulado igualitário de homens e mulheres, no qual as mulheres desempenhavam um papel central, e não meramente periférico.

A presença e o papel de liderança das mulheres nesse movimento, como reconhece a teóloga Elisabeth Schüssler Fiorenza, foram de suma importância para a prática da solidariedade popular. Sua atuação foi crucial para garantir a continuidade do movimento de Jesus após a execução do fundador e sua expansão para além da comunidade judaica.

As diversas tradições evangélicas concordam que essas mulheres desempenharam um papel fundamental em quatro momentos-chave: o nascimento do movimento de Jesus na Galileia, seu ministério público acompanhando-o na proclamação do Reino de Deus, sua crucificação ao lado do Jesus sofredor e sua ressurreição como as primeiras testemunhas. Na maioria das vezes, três nomes de mulheres são mencionados em meio a um grande grupo de mulheres. O mesmo padrão se repete para os homens. Isso serve para destacar o lugar de destaque que tanto homens quanto mulheres ocupavam na comunidade.

Maria Madalena, testemunha da ressurreição e apóstola

A mulher quase sempre mencionada em primeiro lugar entre as amigas de Jesus é Maria Madalena, que recebeu o nome de sua cidade natal, Magdala, uma pequena vila de pescadores na costa leste do Mar da Galileia, entre Cafarnaum e Tiberíades. Ela foi uma das primeiras discípulas, pertence ao círculo íntimo de Jesus, ocupa uma posição de destaque dentro dele, faz a mesma jornada que o Mestre para Jerusalém e compartilha seu projeto de libertação e sua causa. As mulheres que seguem Jesus geralmente são mencionadas nos Evangelhos em relação a um homem; Maria Madalena não, o que demonstra ainda mais sua independência de qualquer estrutura patriarcal.

A lealdade ou deslealdade a uma causa ou pessoa se revela "quando os tempos ficam difíceis", em tempos de perseguição e sofrimento. Quando Jesus é condenado à morte, os discípulos homens fogem por medo de serem identificados como membros de seu movimento e sofrerem o mesmo destino. As mulheres que o seguiram desde a Galileia o acompanham no caminho para o Gólgota e permanecem ao seu lado na cruz.

Maria Madalena age como uma discípula fiel não de um Messias triunfante, mas de um crucificado por subverter a ordem religiosa e política estabelecida. O fato de ela ter permanecido aos pés da cruz de alguém condenado à morte por subversão faz de Maria Madalena, Maria de Nazaré, e suas companheiras, elas próprias subversivas.

Os diversos relatos dos Evangelhos concordam em apresentar mulheres como testemunhas da ressurreição, sendo Maria Madalena a primeira entre elas. É ela quem comunica a notícia aos discípulos, que reagem com incredulidade. Maria Madalena cumpriu as três condições para ser admitida no grupo apostólico: ter seguido Jesus desde a Galileia, ter visto Jesus ressuscitado e ter sido enviada por ele para anunciar a ressurreição. O reconhecimento de Maria Madalena como a primeira testemunha de Cristo Ressuscitado explica sua proeminência no cristianismo primitivo, em pé de igualdade com Pedro, e até mesmo maior em algumas igrejas.

Contudo, nas cartas de Paulo e em outros escritos do Novo Testamento, o testemunho de mulheres não aparece mais, e Maria Madalena é substituída por Pedro. Isso ocorre porque a Igreja estava começando a se submeter ao domínio masculino, o que logo passou a suprimir o importante papel que Jesus confiou às mulheres. O silenciamento, por Paulo e outras tradições do Novo Testamento, da aparição de Jesus a Maria Madalena e outras mulheres levou diretamente à sua exclusão das esferas de responsabilidade comunitária.

 – Juan José Tamayo

No entanto, o próprio Paulo de Tarso afirma na Carta aos Gálatas que “não há homem nem mulher, escravo nem livre, judeu nem grego” (Gl 3,28) e, no final da Carta aos Romanos, cita inúmeras mulheres, reconhecendo seus papéis de liderança nas comunidades cristãs.

Pode-se afirmar, com toda a razão, que as mulheres são indispensáveis ​​para a transmissão da mensagem do Evangelho, sendo, aliás, o elo essencial para o nascimento da comunidade cristã. Sem o testemunho das mulheres, não haveria Igreja cristã hoje.

Nos diálogos reveladores dos evangelhos apócrifos com inclinações gnósticas, Maria Madalena aparece como a interlocutora preferida do Cristo ressuscitado e irmã de Jesus, discípula e companheira predileta do Salvador. Essa posição privilegiada provoca ciúmes em alguns dos apóstolos, especialmente em Pedro, que, segundo o apócrifo Pistis Sophia, reage nestes termos: “Mestre, não suportamos Maria Madalena, porque ela nos impede de falar; está sempre fazendo perguntas e não nos deixa falar”.

Apóstola dos Apóstolos é o título que Hipólito de Roma atribui a Maria Madalena, que não considera as mulheres mentirosas, mas sim portadoras da verdade. São Jerônimo expressa-se em termos semelhantes, reconhecendo o privilégio de Maria Madalena de ter visto o Cristo ressuscitado, "mesmo antes dos apóstolos". Contudo, com o processo de patriarcalização, clericalização e hierarquização do cristianismo, Maria Madalena foi relegada ao esquecimento; além disso, foi identificada como uma prostituta, retratada como uma penitente que teve de servir a Jesus em gratidão por ter expulsado os espíritos malignos dela.

De particular importância é o Evangelho apócrifo de Maria, que recupera um cristianismo até então desconhecido ou esquecido e desafia a narrativa dominante sobre as origens hierárquico-patriarcais do cristianismo, a sucessão apostólica e uma tradição cristã uniforme. Mesmo considerando seus acréscimos ficcionais, este Evangelho oferece uma abordagem talvez mais rigorosa do que o relato predominante. A imagem de Maria Madalena como prostituta, tão difundida no imaginário cristão, desaparece, e ela emerge como mestra, discípula exemplar e consoladora, líder e a primeira apóstola em comunicação direta com o Salvador por meio de uma pedagogia dialógica.

O Evangelho de Maria desafia, e até nega, o poder ilegítimo assumido pelos discípulos homens, ao mesmo tempo que defende, com argumentos sólidos, a liderança das mulheres na comunidade cristã e sua relação direta com Jesus, sem mediação patriarcal. Dessa forma, supera a imagem de um cristianismo idílico e uniforme, e descreve um cristianismo caracterizado por diferenças e conflitos. E, o mais importante, não estabelece qualquer tipo de discriminação com base no gênero.

Maria de Nazaré, na tradição das grandes mulheres judias

E quanto a Maria, a mãe de Jesus? Ela teve melhor sorte do que Maria Madalena, pelo menos no cristianismo oficial: foi declarada Mãe de Deus, elevada aos altares e tratada quase com honras divinas. Mais uma vez, o dogma suplantou a história e se afastou do Evangelho. Os dogmas marianos e cristológicos separaram Maria dos mortais, especialmente de suas semelhantes, e Jesus de seus semelhantes.

A maternidade divina de Maria, cuja festa é celebrada em 1º de janeiro, ofuscou sua maternidade humana. Sua assunção, em corpo e alma, ao céu obscureceu a mulher galileia com os pés firmemente no chão. Maria como corredentora nos impediu de vê-la como libertadora. Maria, submissa à vontade divina, anulou a Maria profética do Magnificat.

Maria de Nazaré deve ser inserida na tradição das mulheres do Antigo Testamento: Eva, transgressora e doadora da vida; as matriarcas, na origem das três religiões monoteístas, das quais apenas os patriarcas masculinos são lembrados atualmente; as parteiras do Egito, mulheres revolucionárias que desafiaram as ordens do Faraó; Miriam, que participou com seu irmão Moisés na libertação do povo hebreu da opressão faraônica; Débora, a juíza, que administrava a justiça sob uma palmeira e era consultada por reis; Ana, a profetisa, cujo cântico inspirou o Magnificat. Todas elas eram mulheres crentes com uma fé crítica, não crédula.

Vinte séculos depois, a justiça é feita mais uma vez às duas Marias: Maria de Nazaré e Maria Madalena, duas mulheres que foram apresentadas em campos opostos, quando compartilhavam um projeto comum: romper com o círculo patriarcal da religião judaica oficial e ativar um novo paradigma religioso em uma chave emancipadora para as mulheres e os excluídos.

Busquets ajuda a recuperar a tradição do movimento de Jesus como discipulado entre iguais, embora não clones, e a superar a resistência do pensamento androcêntrico e a organização patriarcal da maioria das igrejas cristãs. Ele nos reconduz a Maria de Nazaré, liberta dos excessos linguísticos das ladainhas marianas e do culto idólatra que cerca sua figura, e oferece uma excelente contribuição para a transição da mariolatria, na qual a piedade mariana está arraigada, para a mariologia como um discurso crítico-libertador. Ele também nos reconduz a Maria Madalena, liberta dos estereótipos que o imaginário cristão construiu em torno dela.

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