"Precisamos de princípios e fundamentos na vida (Santo Inácio), evangelização (Francisco Xavier), misticismo e ousadia (Padre Arrupe). Precisamos de liberdade de espírito, de pessoas da Palavra".
O comentário é de Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, publicado por Religión Digital, 28-07-2026.
Na juventude, Santo Inácio estava destinado a um futuro brilhante, tanto militar quanto pessoal, mas entregue à fantasia e à boa vida nos palácios de Castela. Até os 26 anos, deleitou-se com vaidades mundanas, surfando na onda do poder e do prazer.
Assim como São Paulo, Inácio de Loyola também teve sua queda em desgraça após ser ferido em Pamplona em 1521; ele passou por sua noite escura, teve sua virada e, com a ajuda de Deus, viu a luz e sua vida mudou radicalmente de rumo.
Santo Inácio entra em crise após o grave ferimento sofrido em Pamplona.
Durante sua convalescença em Loyola, ele percebeu que o princípio e o fundamento, o tesouro da vida — sobre o qual meditamos no último domingo —, não são as armas, as honras militares ou qualquer outro tipo de “alicerce”. A rocha que nos sustenta e nos salva, a pedra angular, é Deus (Jesus Cristo).
A primeira meditação dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio é, provavelmente, a pedra angular, a coisa mais importante na vida de Santo Inácio e de toda a existência humana.
Deus é o princípio e o fundamento da vida dele e da nossa.
Aquele que sabe de onde vem e para onde vai na vida, já sabe muito e tem uma opinião definitiva sobre a existência.
Qual é o fundamento da minha vida? Por que e com que propósito eu vivo? Essa é a pergunta fundamental. Por outro lado, para alguém que não sabe para onde está indo, a ausência de vento é favorável.
Ao mesmo tempo: quem tem um motivo para viver, encontrará um caminho. Os alicerces que construímos em nossa existência também determinarão o significado da vida.
Santo Inácio era um peregrino em busca de sentido, procurando centrar sua vida. A pedra angular de sua vida (e da nossa), o princípio e o fundamento, é Jesus Cristo.
Ali em Roma, na Igreja de Gesù (Jesus), estão sepultados Santo Inácio de Loyola e o Padre Arrupe. Eles são frequentemente considerados os dois fundadores da Companhia de Jesus. Santo Inácio a fundou no século XVI (1491-1556) e o Padre Arrupe no século XX (1907-1991).
No transepto da mesma Igreja do Gesù encontra-se também o braço do navarro São Francisco Xavier (1506-1552), amado companheiro de Inácio de Loyola.
Três grandes homens, assim chamados por sua fé e sua coragem. Os três foram homens de pensamento e fé, bravos e audaciosos até o fim.
Inácio poderia ter continuado sendo um soldado brilhante ou vivendo pacificamente em Loyola, ou na corte de Castela, mas ele mudou radicalmente sua vida e a dedicou ao Reino de Deus.
Arrupe foi um homem audacioso que conduziu decisivamente a Companhia de Jesus em direção à teologia dos pobres e da libertação, o que lhe custou a condenação quase total.
Francisco Xavier estava a caminho de se tornar um "cavalheiro parisiense", um "proprietário de terras" em Navarra, mas Francisco queimou suas pontes e, com o evangelho em sua mente e coração, partiu para as missões onde daria a vida e morreria em 3 de dezembro de 1552 em Sanchón, de frente para a China.
Santo Inácio é o basco mais universal. São Francisco Xavier foi um missionário audacioso. O Padre Arrupe infundiu à Companhia de Jesus uma mística dentro do "habitat" da teologia da libertação. Esses três grandes cristãos foram homens audaciosos, ponderados e atuantes.
Eu me pergunto se a nossa Igreja hoje, aqui, é ousada, criativa, evangelizadora e missionária, ou se estamos presos a uma Igreja fossilizada, audaciosa, clerical e sem espírito…
Precisamos de princípios e fundamentos na vida (Santo Inácio), evangelização (Francisco Xavier), mística e ousadia (Padre Arrupe). Precisamos de liberdade de espírito, de pessoas da Palavra.