12 Junho 2026
“Você só é amigo de verdade das pessoas a quem pode insultar ou que lhe insultam. Embora tenhamos conversado bastante ultimamente, não te conheço o suficiente. Então, não lhe direi o que costumo dizer aos meus amigos”. O que vem a seguir é um comentário escatológico-sexual impossível de reproduzir nestas linhas, mas revelador do temperamento jocoso, desmedido e sempre politicamente incorreto de Slavoj Žižek.
A entrevista é de Jose María Robles, publicada por El Mundo, 02-04-2026.
Para entrevistar o popular pensador, psicanalista, crítico cultural e agitador que se define como “comunista moderadamente conservador”, o menos importante é ler o livro que está lançando; neste caso, Punto cero (Paidós). Para entrevistar o filósofo mais provocador do planeta, o desafio é tentar acompanhar seu ritmo e assumir que suas respostas podem ser arborescentes ou oblíquas, embora também hilárias e apelativas. Sempre generoso com seu tempo, é impossível saber quando está falando sério ou quando está sendo irônico: nunca deixa de brincar.
Žižek (Liubliana, 76 anos) reúne no volume algumas de suas reflexões mais recentes sobre a reeleição de Trump, a guerra em Gaza, o caso Pelicot e o metaverso. Também aborda as repercussões de seu polêmico discurso na Feira do Livro de Frankfurt de 2023, quando ousou introduzir nuances na resposta militar de Tel Aviv aos ataques do Hamas de 7 de outubro. O conceito ponto zero, por certo, refere-se tanto ao lugar de aniquilação quanto de regeneração em que, segundo ele, vivemos nestes tempos de caos.
Eis a entrevista.
Em um ensaio de 2023, mencionou a possibilidade de que um conflito regional no Oriente Médio escalasse para uma guerra global e falou dos planos de Israel para mudar o regime iraniano. Que balanço faz da operação “Fúria épica”, nesse momento?
Tenho a impressão de que Netanyahu está manipulando Trump, porque este ataque não é o que se esperava dele. Onde estão agora os simpatizantes MAGA que diziam Fuck Ukraine e aos quais nada importava além de America First? Preocupa-me que Trump esteja se comportando cada vez mais como um tipo imoral e alheio a qualquer acordo internacional.
No início da operação, Trump declarou que estava libertando o povo iraniano e levando democracia ao país, como fez com a operação na Venezuela. Depois, disse que queria o controle do programa nuclear e blá-blá-blá. A questão da democracia já havia ficado em segundo plano.
Impor a democracia a partir de bombardeios, além de ser um clichê, é uma má ideia?
É uma loucura. Vimos isso em Gaza. Israel sempre argumentava: “Estamos libertando os habitantes de Gaza do terror do Hamas”. Agora, a única coisa que restou na Faixa é justamente o Hamas...
Voltando ao que dizia antes, Trump se comporta cada vez mais como o senhor do mundo. Intervém onde quer, sem considerar aspectos legais.
Sou contra o regime dos aiatolás. Recentemente, escrevi um texto sobre sua brutalidade. É possível observar que há conflitos e tensões no interior do poder iraniano. Khamenei emitiu uma fátua [decreto religioso] contra o desenvolvimento, armazenamento e uso de armas nucleares.
O paradoxo é que com o ataque à República Islâmica, surgiram os verdadeiros intransigentes. Conhece Ali Larijani, um dos homens fortes do regime? [a entrevista foi realizada antes de seu assassinato]
Sim, claro.
Supostamente, foi ele que coordenou a repressão aos protestos de rua nos quais morreram de 3.000 a 30.000 manifestantes. Sabe qual é a formação dele? Acho fascinante: é graduado em Informática e Matemática e possui doutorado e mestrado em Filosofia Ocidental. Dedicou sua tese de doutorado a Kant. Não às ideias do pensador alemão sobre Deus e religião, mas, sim, à noção kantiana de matemática, tempo e espaço. É uma pessoa altamente qualificada que sempre manteve um perfil moderado e agora se radicalizou.
Meus amigos no Irã dizem que a questão já não é quem é a favor ou contra o regime. O xá não é popular, os aiatolás têm o apoio de 10% a 20% da população... e a maioria só quer sobreviver. Está desesperada e com medo. Aqueles que simpatizavam com os Estados Unidos e estavam dispostos a tolerar qualquer ação para que o regime caísse estão mudando de opinião. O único plano que vejo por trás de tudo isso é o de Israel para alcançar segurança absoluta no Oriente Médio, através do controle da região.
Como praticante do humor áspero, tenho que lhe perguntar se a ideia de Trump de transformar Gaza na Riviera do Oriente Médio o fez rir ou chorar.
As duas coisas ao mesmo tempo. Trump se movimenta no território da pós-verdade. Ele diz qualquer coisa, alguém o refuta empiricamente e demonstra que está errado, mas isto não importa para ele. Continua, continua e continua. Dou um exemplo. Melania, o documentário sobre a primeira-dama dos Estados Unidos - eslovena e muito odiada no meu país, aliás - foi um fracasso. No entanto, Trump declarou que foi um sucesso estrondoso.
O que estou dizendo é que ele mantém sua versão a qualquer custo. Quer decidir quem é o presidente da Venezuela, o líder supremo no Irã... Apesar de todos os compromissos que assumiu com o primeiro-ministro Starmer, declarou a seu respeito: “Não convém ao Reino Unido, é melhor que o substituam”, ou algo assim. Trump e, em outro nível, Putin jogam o mesmo jogo das grandes potências. Trump está aplicando essa violência fora e dentro de seu próprio país, como vemos com o ICE.
Escrevi sobre esse paralelismo. Cada vez mais países estão recorrendo ao apoio discreto de organizações ilegais ou violentas. Os colonos israelenses da Cisjordânia criaram seus próprios bandos. Israel, a única democracia do Oriente Médio, alega: “Não somos nós”. No entanto, consente.
Reconhece que o comunismo se tornou inoperante como visão política para enfrentar grandes desafios de nosso tempo como a IA, a guerra ou a crise climática. Por que diz isto e que comentários recebe de leitores de antigos países comunistas?
Não recebo muitas mensagens desses países porque praticamente já não há comunistas neles... Alguns neomarxistas seguem o italiano Domenico Losurdo, tentam reabilitar Stalin e Mao...
Há uma figura que não é de esquerda, mas bem mais conservadora, cujos comentários políticos hoje são escutados com atenção. Refiro-me à alemã Sabine Hossenfelder, divulgadora de Física Quântica. Recentemente, ela disse que com o rumo atual da economia, nos aproximamos da autodestruição. Também afirmou que é necessário um mecanismo transnacional que regule a economia com independência do mercado. “Algo como o que a China tem”, destacou.
Nesse sentido, continuo sendo comunista. Não falo do Politburo, mas do sentido comum. Precisamos de certa coordenação global. O mercado já não consegue realizar este papel. Trump e Putin sabem disso.
Há outro autor italiano de que gosto e imagino que seja popular na Espanha. Refiro-me a Giuliano da Empoli, autor do romance O mago do Kremlin (Editora Vestígio). Ele diz que estão surgindo políticos, como Bukele, em El Salvador, e Traoré, em Burkina Faso, que chama de predadores e que se apresentam como os únicos capazes de agir com eficácia.
Esta é a tendência dominante na atualidade: ser brutal. A ascensão desse perfil é uma tragédia. Continuo pensando que a melhor ferramenta para analisar o mundo atual é o Iluminismo europeu, embora aquilo que os europeus consideram argumento racional já não tenha valor algum.
“Com a ascensão da direita populista na Europa, a esquerda alcançou seu ponto zero, razão pela qual terá de se reinventar completamente ou perecerá”, escreveu após a reeleição de Trump. A esquerda avançou algo, desde então?
Admito que sou pessimista, mas vejamos o que aconteceu com Zohran Mamdani. Ele não promoveu uma grande visão para chegar à prefeitura. Simplesmente, disse: “Em Nova York temos estes problemas concretos”. O prefeito de Minneapolis também enfrentou o Governo Federal. Não se deve subestimar esses movimentos locais que se concentram em questões específicas. Foi assim que nasceu o trumpismo.
Com exceção de Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez e Mamdani, o Partido Democrata se desintegrou. Está afundado na desorganização e não oferece nenhuma contravisão. Assistimos, como diria Gramsci, a uma luta pela apropriação de certos elementos ideológicos. A esquerda não deveria presentear seus rivais com temas como o modo de vida ou o patriotismo, mas lutar por eles. Nem todo patriotismo é fascismo.
Àqueles que se opõem à imigração é preciso dizer: gostamos do nosso estilo de vida, mas as grandes empresas tecnológicas o estão arruinando muito mais do que os imigrantes. Sejamos realistas e proponhamos soluções que estejam em nossas mãos para problemas concretos: que haja creches gratuitas etc. Mamdani sabe disso.
Tenho curiosidade em saber sua opinião sobre ‘Diella’, a IA que a Albânia transformou na primeira ministra não humana do mundo para combater a corrupção.
Deixe-me dizer, de início, que não sou dos que acreditam que a batalha contra a IA está perdida e que seremos dominados pela tecnologia. Já viu a série Pluribus, em que apenas 13 pessoas do mundo todo são imunes a um vírus alienígena?
Sim, claro. Por quê?
Os espectadores se fixam nos 13 sobreviventes, mas a mim interessam mais as pessoas que formam a mente colmeia e se fazem passar por pessoas felizes. Há uma cena que mostra como suas vidas são miseráveis, dormindo todos juntos no chão de um ginásio.
O grande erro do marxismo foi vincular as relações sociais ao desenvolvimento das forças produtivas. Lembro que a internet surgiu como um poder descentralizador. A IA pode ser muito perigosa se permanecer sob a tutela dos grandes conglomerados tecnológicos.
Você confessa que gosta de ouvir podcasts sobre truques de mágicos. O que podemos aprender com a magia em tempos pouco propícios à fantasia, mas tão favoráveis aos trapaceiros?
Trump e outros líderes usam truques para distrair a atenção. Por exemplo, desde que começou a guerra com o Irã, deixou-se de falar do caso Epstein. Tenho refletido sobre o Estado profundo como espaço social de corrupção e exploração sexual no qual convivem de Steve Bannon a Noam Chomsky.
Continua recebendo mensagens, ameaças ou insultos por seu discurso na Feira do Livro de Frankfurt?
Não. Acontece algo ainda mais paradoxal. A Al Jazeera e alguns esquerdistas eslovenos agora me rotulam de sionista pela insistência em propor a solução de dois Estados. Sei que não é mais possível. Mas a alternativa a que israelenses e palestinos continuem se matando é encontrar alguma forma de cooperação. Isto já é considerado sionismo pelos fanáticos pró-palestinos, que veem o Hamas como um movimento de resistência.
Eu me oponho frontalmente. Ninguém fala que Israel permitiu, durante anos, o financiamento do Hamas para dividir os palestinos. É uma questão extremamente complexa e não acredito em fórmulas simplistas.
Voltando ao tema central de ‘Punto cero’, o que você pensa quando ouve a expressão “vai ficar tudo bem”?
Penso: depende para quem. Quando algum idiota me pede que recomende um filme com final feliz, respondo Melancolia, em que a civilização humana corrupta é apagada da face da Terra. Essa é minha posição básica.
Há quem pense que fui eu quem resgatou - e traduziu mal - a famosa frase de Gramsci: “O velho mundo está morrendo. O novo tarda a nascer. E nesse claro-escuro surgem os monstros”. Não concordo com Gramsci nisso. Os monstros não são uma exceção. A história caminha para uma catástrofe mórbida. Precisamos agir e tomar um desvio, porque, caso contrário, estamos perdidos.
Você recomenda ver ‘Melania’?
[Risos] Não!
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