“Nossa civilização está sendo sufocada pelo capitalismo de curto prazo”. Timothée Parrique

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07 Mai 2026

A ser publicado pela Actes Sud em 6 de maio, o manual La science de la post-croissance oferece uma visão geral precisa e acessível deste campo de pesquisa em rápida expansão. Conversamos com seu autor, o economista Timothée Parrique.

A entrevista é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 04-05-2026. A tradução é do Cepat.

“Tentar reduzir a pegada ecológica enquanto se faz a economia crescer é como pisar simultaneamente no acelerador e no pedal do freio”. Com um tom confiante e um estilo de escrita conciso, Timothée Parrique expõe as inconsistências do “crescimento verde” em seu novo livro A ciência do pós-crescimento, um pequeno manual que desmonta, peça por peça, a engrenagem bem azeitada dos argumentos contra uma desaceleração econômica que, segundo ele, tornou-se inevitável.

Baseando-se em um artigo científico publicado em 2025 na prestigiada revista The Lancet Planetary Health, o economista da Universidade de Lausanne descreve cerca de 20 “áreas de concentração” que mapeiam o campo ainda em evolução do pós-crescimento. O conceito-chave: parar de fazer do PIB o objetivo final das políticas públicas e substituí-lo por outra bússola, a do bem-estar humano, alinhada aos limites planetários.

Nesta entrevista com Usbek & Rica, Timothée Parrique discute o surgimento da pesquisa sobre o pós-crescimento, sua ascensão à proeminência nas últimas duas décadas e, sobretudo, seus desenvolvimentos futuros.

Eis a entrevista.

Em 1972, foi publicado o famoso Relatório Meadows, questionando, pela primeira vez, os limites do crescimento econômico. Como ele prenunciou a pesquisa sobre o pós-crescimento que surgiria três décadas depois?

O Relatório Meadows representa um ponto de inflexão ao levantar uma questão que havia estado amplamente ausente do debate até então: a do crescimento econômico em um mundo ecologicamente finito. Até então, havia, por um lado, iniciativas para proteger o meio ambiente e gerenciar recursos e, por outro, políticas de crescimento baseadas em uma visão quantitativa e exponencial da prosperidade econômica. E, de repente, na década de 1970, as duas foram colocadas em equação. E então, a constatação surgiu: “Houston, we have a problem [temos um problema] — construímos um sistema econômico fadado à autodestruição”.

É um momento quase digno de um filme de ação americano, do tipo Missão Impossível — exceto que, neste caso, a missão é realmente impossível. Nem mesmo Tom Cruise seria capaz de realizá-la. Este é um ponto analítico de tamanha força que abalou os próprios fundamentos da economia. Na década de 1970, a compreensão da saúde ecológica era muito fragmentada, frequentemente local. Pense na “primavera silenciosa” descrita pela bióloga Rachel Carson — essas paisagens onde o canto dos pássaros não é mais ouvido devido aos pesticidas. Havia também a questão da camada de ozônio, ainda relativamente desconhecida na época, e a das mudanças climáticas, que era muito marginal.

Hoje, após 50 anos de pesquisa, sabemos que o crescimento infinito em um mundo finito é teoricamente insustentável. Nossa compreensão da saúde ecológica é muito mais refinada e, sobretudo, ecossistêmica. Sabemos que a degradação de um ecossistema pode desencadear efeitos em cascata, levando a pontos de inflexão que abrem caminho para futuros ecologicamente distópicos.

A palavra “decrescimento” surgiu pela primeira vez em 2002, escrita por jornalistas da revista Silence. Só em 2022 foi incluída pela primeira vez em um relatório do IPCC. Seria isso um sinal de uma ciência que demora a ser aceita?

Na realidade, sua disseminação foi bastante rápida. Entre 2002 e 2007, o conceito permaneceu praticamente restrito aos países francófonos, defendido por alguns indivíduos e movimentos ativistas. O verdadeiro ponto de virada ocorreu com sua conceitualização dentro das ciências, especialmente na primeira conferência internacional sobre decrescimento, realizada em Paris em 2008. Foi também nessa ocasião que o termo foi traduzido para o inglês (degrowth). Mas, na época, ainda estava em seus primórdios, com apenas um a três artigos científicos publicados por ano, em comparação com as centenas de hoje.

Eu mesmo recebo um ou dois pedidos por semana de estudantes que querem trabalhar com o tema. Quando comecei meu doutorado em 2016, organizávamos uma conferência por ano que atraía, no máximo, 300 pessoas. Sim, é exponencial e quase milagroso quando se observa que outros conceitos, como o ecossocialismo, permaneceram em nichos devido à falta de um verdadeiro ecossistema (poucos podcasts, convites ou livros)

E, além do IPCC, o endosso máximo vem das Nações Unidas. Olivier De Schutter, Relator Especial sobre Pobreza Extrema e Direitos Humanos, acaba de apresentar um roteiro abrangente com o objetivo de definir a agenda da ONU para o período pós-2030, visando a erradicação da pobreza além do crescimento. Em outras palavras, o conceito de pós-crescimento pode se tornar o novo “desenvolvimento sustentável”, que até agora tem sido o paradigma dominante para se pensar a sustentabilidade.

Será que o conceito de pós-crescimento é tão confiável aos olhos do público em geral?

Um estudo publicado no final de 2025 mostra uma certa rejeição à palavra “decrescimento” quando apresentada diretamente. Mas quando o termo é apresentado sem o rótulo, obtém 81% de aceitação no Reino Unido e 73% nos Estados Unidos. Em outras palavras, quando se apresenta uma descrição concreta de uma sociedade sem publicidade, com organizações sem fins lucrativos confiáveis, onde os preços estão alinhados aos custos de produção, com maior autonomia no trabalho, mais tempo livre e menos desigualdade, o apoio é esmagador.

Por muito tempo, os economistas afirmaram que o decrescimento era “antinatural”, argumentando que os indivíduos são espontaneamente egoístas, movidos pela sede de renda e bens materiais... Em suma, naturalmente inclinados ao crescimento. Mas esta pesquisa sugere o contrário.

Estamos testemunhando uma inversão: o capitalismo, antes apresentado como a ordem natural das coisas — quase em um sentido darwiniano —, agora aparece como um protocolo social imposto, anormal ou restritivo. A maioria das pessoas não trabalha por prazer e não aspira a trabalhar cada vez mais. Para elas, a economia é um meio, não um fim. Muitas preferem passar tempo com seus entes queridos a acumular mais renda. Isso cria um terreno fértil para a adoção do pós-crescimento.

Os líderes políticos, no entanto, permanecem muito mais apegados à ideia do “crescimento verde” do que à do “decrescimento”.

Infelizmente, a vitória conceitual conquistada junto ao público em geral permanece sem qualquer tradução política real. Conceitos fundamentais para a ecologia, como a superação dos limites planetários, estão praticamente ausentes do debate público ou, na melhor das hipóteses, são mencionados de forma muito diluída — principalmente entre os Verdes. A maioria dos outros partidos políticos simplesmente os ignora.

Tendo a pensar — e esta é uma opinião pessoal como cidadão — que o atual sistema político, baseado na profissionalização da política, com uma classe dominante formada em escolas especializadas e comprometida com carreiras políticas, é estruturalmente incompatível com a consideração do interesse geral. Não se pode convencer uma elite dominante a abandonar seus interesses de classe por qualquer outra coisa.

Dessa perspectiva, penso ser inútil adicionar cursos sobre sustentabilidade ou decrescimento às universidades de elite. O que se faz necessário é desconstruir e descentralizar o poder político para fortalecer forças de contrapeso e dinâmicas de autogestão, capazes de se reconectar com um certo senso comum da economia.

Por que o pós-crescimento permanece marginalizado? Sabemos, no entanto, que o crescimento desenfreado acabará por levar a custos climáticos enormes: cada grau adicional pode reduzir o PIB global em 12%. Isso é um triunfo do imediatismo?

Com certeza. É uma vitória dupla. Primeiro, uma vitória para os mais ricos, porque os custos recaem principalmente sobre os mais pobres — e especialmente sobre as populações dos países do Sul Global. Depois, uma vitória para o imediatismo, já que esses custos nos atingirão com uma defasagem de 5, 10, 15 ou 20 anos. Mas esse tipo de perspectiva de longo prazo simplesmente não existe na dinâmica política atual. Ninguém pensa no futuro. Nossa civilização está sufocada pelo capitalismo do curto prazo, onde até mesmo as instituições públicas operam em termos de lucro imediato.

Por outro lado, se quisermos pensar no longo prazo do pós-crescimento, primeiro precisamos responder a uma pergunta crucial: como podemos prosperar sem crescimento?

Com certeza. Há várias coisas a fazer. A primeira é reduzir a desigualdade. O capitalismo contemporâneo permitiu uma concentração massiva de riqueza que acaba se perpetuando, correndo o risco de manter o resto da sociedade refém. Para prosperar sem crescimento, precisamos compartilhar de forma mais equitativa: enquanto alguns capturarem uma parcela desproporcional dos recursos, o restante não conseguirá acompanhar.

Isso também implica desmercantilizar setores essenciais e bens comuns como a água e recuperar o controle democrático com amplo acesso e preços progressivos.

Precisamos também repensar a empresa, fortalecendo a economia social e solidária em vez de multinacionais concentradas. Isso exige escolhas políticas claras, como reservar certas atividades públicas para organizações sem fins lucrativos.

Mas ainda existem incógnitas, principalmente na esfera geopolítica.

A questão geopolítica é central, inclusive em nível europeu. Em uma união monetária, o que acontece quando um país decide trilhar um caminho de decrescimento ou pós-crescimento para estabilizar sua economia, enquanto os outros permanecem em um quadro de crescimento, com a política monetária alinhada a esse objetivo? Essas são questões em aberto que precisam ser exploradas.

E aqui estamos falando de um cenário “gentil”: países aliados que não entram em guerra. Mas também existem configurações muito mais ferozes. De qualquer forma, essas questões nos obrigarão a confrontá-las. Elas surgirão tanto de um decrescimento organizado democraticamente (por planejamento) quanto de um colapso causado por choques externos (por desastres).

Dito isso, quando analisamos a agenda do pós-crescimento — o que faço em meu trabalho na Universidade de Lausanne — e a decompomos em instrumentos políticos, percebemos que muitas medidas, na realidade, não têm consequências geopolíticas.

Por exemplo?

Medidas locais como a tarifação progressiva da água ou a proibição de SUVs têm pouco impacto geopolítico, ao contrário do que os líderes possam pensar, afetados por uma espécie de “síndrome da torre Jenga”, que pressupõe que uma pequena mudança política em nível local causará o colapso global de tudo. Na realidade, essa fragilidade diz respeito principalmente aos ecossistemas, não às economias.

As crises não afetam a todos da mesma maneira e podem até beneficiar alguns, principalmente reduzindo a renda não proveniente do trabalho ou redistribuindo recursos. As quebras do mercado de ações, por exemplo, empobrecem principalmente aqueles expostos ao mercado de ações. No entanto, na França, os 10% mais ricos detêm aproximadamente 64% dos ativos financeiros, enquanto a metade mais pobre possui apenas cerca de 3%. Em outras palavras, para grande parte da população, uma quebra do mercado de ações faz pouca diferença.

Portanto, devemos evitar generalizações. Uma crise econômica não é necessariamente uma catástrofe para todos: também pode ser uma bênção para aqueles que sofrem com o funcionamento “normal” do sistema capitalista. Economistas como Gabriel Zucman, Thomas Piketty ou ainda Ingrid Robeyns há muito demonstram os benefícios da redução da desigualdade: ao tributar os ricos, caminhamos para uma democracia de melhor qualidade, maior coesão social e menor concentração de poder.

Uma desaceleração econômica, seja ela escolhida ou imposta, leva necessariamente a um futuro pós-crescimento? Não existe o risco de surgir uma nova forma de capitalismo, mesmo após um colapso?

Este é um cenário possível. Em tempos de crise e escassez, certas formas de poder podem tirar proveito da situação. É o que Naomi Klein descreve em seu ensaio A doutrina do choque. A ascensão do capitalismo de desastre (Nova Fronteira, 2008): após uma catástrofe, atores privados exploram o caos para impor políticas ou projetos que seriam inaceitáveis em circunstâncias normais. A destruição torna-se então uma oportunidade para uma reconstrução lucrativa, com a cumplicidade — ou pelo menos a inação — das autoridades públicas. Nesses momentos, a resposta democrática se enfraquece: a urgência, a precariedade e o medo monopolizam a atenção. Isso abre caminho para uma maior captura do poder, um risco que certamente aumentará com a proliferação das crises ecológicas.

Para resistir a isso, um caminho consiste em liberar tempo. O antropólogo David Graeber enfatizou a importância de reduzir o tempo de trabalho para liberar tempo político. Nossa capacidade de refletir, debater e exercer o pensamento crítico depende diretamente do tempo que dedicamos a isso. Poderíamos até imaginar, por exemplo, uma semana dedicada à informação e ao debate antes de uma eleição — se levássemos a democracia a sério.

Quais são as suas expectativas para o futuro da pesquisa sobre o pós-crescimento?

As minhas esperanças já foram parcialmente satisfeitas. Ainda esta manhã, estive em conversa com um grupo de modeladores que adaptaram um modelo à Finlândia para testar uma agenda política de decrescimento. Na Itália, colegas fizeram o mesmo, e estamos atualmente trabalhando numa adaptação para a Suíça.

Portanto, existe um verdadeiro florescimento de exercícios rigorosos que abordam metodicamente todos os pontos cegos. Mesmo em temas mais técnicos, como o financiamento ou a política monetária, onde as críticas eram outrora abundantes, a literatura cresceu consideravelmente.

O que eu gostaria de ver progredir mais rapidamente agora é a ligação entre este conhecimento acadêmico e as aplicações práticas. Que estes avanços analíticos se traduzam num verdadeiro empoderamento das iniciativas locais: cooperativas, redes de partilha de patentes, bibliotecas de brinquedos, centros de reutilização, moedas complementares, orçamentos participativos… Todos estes atores ainda operam à sombra do capitalismo, com a sensação de que as suas ações permanecem marginais ou frágeis. No entanto, elas funcionam, e muitas vezes melhor do que o sistema dominante.

O que durante muito tempo foi descartado como uma utopia vã está agora se tornando o terreno fértil para um progresso humano, social e ecológico genuíno. Estamos testemunhando o surgimento de uma economia que poderia fazer o capitalismo termoindustrial do século XX parecer o Windows 95 — ou seja, um sistema obsoleto cujo uso é questionável.

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