“O crime organizado não é uma anomalia do capitalismo; é parte constitutiva dele”. Entrevista com Mark Galeotti

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02 Junho 2026

Há livros que incomodam porque dizem em alto e bom som o que todos intuem, mas ninguém quer admitir. Homo criminalis: Cómo el crimen organiza el mundo (Capitán Swing), do historiador e analista de segurança Mark Galeotti, é um deles. Sua tese é tão simples quanto perturbadora: o crime organizado não é um parasita que se alimenta da sociedade a partir das margens, mas um de seus motores fundacionais. Das repúblicas mercantis do Renascimento italiano aos cartéis que financiam igrejas na América Latina, passando pelos piratas que traçaram as rotas do comércio atlântico, Galeotti argumenta que sempre que a sociedade humana dá um salto de complexidade, o crime organizado dá outro ao seu lado.

A entrevista é de Guillem Pujol, publicada por La Marea, 30-05-2026.

Galeotti é doutor em Filosofia pela Universidade de Oxford, assessorou governos e organismos internacionais em temas sobre crime transnacional e ameaças híbridas, e há décadas estuda o crime organizado russo, campo no qual é uma referência mundial. Sua trajetória começou, como ele explica, de forma quase acidental, durante seu doutorado sobre veteranos soviéticos da guerra do Afeganistão. Foi então que alguns de seus entrevistados lhe explicaram como acabaram entrando nas redes mafiosas que proliferaram no caos pós-soviético. Aquela pista acidental se tornou vocação.

O pesquisador fala da impossibilidade de separar história legítima e história criminal, da guerra às drogas como um fracasso programado, da lavagem de dinheiro como coluna vertebral da economia global, da arte como moeda do submundo e do porquê o trumpismo, as Guerras do Ópio britânicas e os yakuza japoneses respondem a uma mesma lógica: a do poder que não precisa mais disfarçar.

Eis a entrevista.

O título do livro, ‘Homo criminalis’, sugere uma espécie de ontologia do crime: que transgredir é algo intrínseco à natureza humana ou, ao menos, a qualquer forma de organização social. Você concebe o crime organizado como um subproduto inevitável de qualquer estrutura social ou, melhor, como um de seus motores ativos?

Em sentido técnico estrito, o crime é aquilo que a lei define como tal. Por isso, é revelador que em tantas línguas exista uma distinção: o crime, que delimita o Estado, e o mal, que delimita a sociedade. Um dos argumentos centrais do livro é precisamente que sempre haverá uma distância entre o que o Estado criminaliza e o que a sociedade considera reprovável. E o crime organizado floresce nessa brecha. Em uma democracia que funciona bem, essa distância deveria ser estreita. Mas, em muitas sociedades, é enorme.

E quando o crime organizado emerge historicamente como tal?

Os grandes momentos de emergência do crime organizado coincidem com os grandes momentos de organização social. Após a queda do Império Romano, não houve crime organizado propriamente dito, apenas banditismo, porque também não havia uma sociedade organizada para além do nível local. O crime organizado reaparece no Renascimento, na Itália e nos Países Baixos: os berços de novos modelos de sociedade, de banco e de comércio. Hoje, a sociedade está mais organizada do que nunca e, portanto, é um momento extraordinário para ser do crime organizado. A globalização lhes oferece as mesmas vantagens que a qualquer empresa transnacional.

Por que a historiografia tradicional tende a tratar o crime como uma anomalia, uma patologia social, em vez de como um dos pilares estruturantes das sociedades humanas?

Em parte, por uma razão muito humana: é confortável pensar que o crime acontece em outro lugar, em países desordenados onde as drogas são fabricadas, ou entre indivíduos de aparência ameaçadora em bares aos quais nunca iríamos. Sempre é externalizado. Mas há uma razão mais estrutural: a erudição clássica se constrói sobre os documentos e registros do Estado. E o crime deixa poucos registros.

Além disso, até relativamente pouco tempo atrás, a produção acadêmica esteve muito ligada aos interesses estatais. A ideia do intelectual independente tem, no máximo, 200 anos. Tudo isso conspirou para que ignoremos até que ponto o crime organizado não apenas é uma ferramenta útil para entender como as sociedades funcionam, mas também uma força muito mais poderosa do que estamos dispostos a reconhecer.

Costuma-se dizer que a história é escrita pelos vencedores, e você escreve a transição do bandido ao fundador de nações como um fato quase estrutural. Pode nos dar algum exemplo histórico em que essa transição tenha sido tão fluida que hoje celebremos esses fundadores como heróis legítimos?

Todos os Estados foram fundados por senhores da guerra. Os mais eficazes não foram apenas aqueles que tinham mais espadas, mas os que entenderam a importância de construir legitimidade. A espada mais poderosa é a que está na alma dos súditos: convencê-los de que você tem o direito de governar porque Deus quis assim ou porque retirou a espada de uma pedra.

Toda a história britânica está moldada pela conquista normanda, ou seja, pela invasão de uma potência estrangeira, sem nenhum fundamento real. Contudo, se você permanece tempo suficiente, torna-se o monarca legítimo. É exatamente o mesmo princípio que um mafioso inteligente aplica quando convence sua comunidade de que está do seu lado.

A pirataria é muito romantizada na cultura popular, mas qual foi seu papel real na formação do capitalismo mercantil? E, a propósito disso: Trump chegou recentemente a se referir à pirataria como “um bom negócio” ao justificar a apreensão de petróleo venezuelano. Estamos voltando a um paradigma em que a legitimidade não se constrói mais discursivamente, mas se impõe pela mera demonstração de força?

Os piratas não criaram as estruturas do capitalismo mercantil moderno. Foram um produto delas e um fator dentro delas. Sem essas grandes rotas comerciais e as frotas de ouro provenientes da América Latina, não teria havido incentivo para o surgimento dessa subcultura econômica pirata.

Mas, ao mesmo tempo, a pirataria gerou rotas alternativas, cidades inteiras que viviam da venda de saques. Tornou-se instrumento de guerra entre Estados por meio do corso e um mecanismo pelo qual elites mais amplas conseguiam participar dos lucros do colonialismo. É, mais uma vez, um sinal de que o crime faz parte do mundo capitalista: investe-se nele, tomam-se decisões empresariais, ganha-se ou perde-se.

Quanto à questão da legitimidade, penso que há uma crescente legitimação tecnocrática que diz: “não segui as regras, mas faço os trens chegarem a tempo”. Há uma palavra russa magnífica, vranyo, que significa uma mentira que a pessoa sabe que é mentira, mas não pode fazer nada a seu respeito.

Antes, os Estados Unidos ao menos mantinham a cortesia de fingir que construíam alguma justificativa. Com Trump, vemos que não há sequer esta pretensão. Não vejo isto como um fenômeno Trump, mas como um sintoma do declínio estadunidense. Assim como as Guerras do Ópio marcaram o declínio do Império Britânico, quando um poder precisa se esforçar mais para parecer forte, é porque não é mais tão forte assim.

Que balanço você faz da chamada guerra às drogas, iniciada no século XX? Você apoiaria a descriminalização total como estratégia para desarticular o mercado ilegal?

Não apoiaria a legalização de todas as drogas, porque, quando uma substância tem potencial de dependência química, distorce a livre vontade do consumidor. Há substâncias com efeitos genuinamente devastadores.

Dito isso, no caso da cannabis, por exemplo, é preciso perguntar se é social ou sanitariamente pior do que o tabaco. E uma das razões pelas quais, hoje, circulam versões extremamente potentes da cannabis é justamente sua criminalização: perdemos a capacidade de regulá-la e criamos incentivos para que criminosos ofereçam versões cada vez mais viciantes.

A questão de fundo, novamente, é a distância entre Estado e sociedade. Quando uma parte importante da sociedade não acredita que certas drogas brandas sejam prejudiciais, o traficante se torna aliado e o Estado inimigo. Isto deslegitima o Estado e as forças da ordem.

Além disso, a guerra às drogas foi catastrófica porque gerou expectativas irreais: as guerras se vencem. Isto não é uma guerra, é um problema de saúde pública. E ela se concentrou obsessivamente na oferta – queimar cultivos, interceptar mensagens -, sem abordar a sério a demanda, que é mais difícil e politicamente mais incômoda.

O fentanil é uma epidemia nos Estados Unidos, mas não na Espanha. Isto não diz algo sobre fatores sociais mais profundos do que a mera disponibilidade da substância?

Absolutamente. O fentanil é, em grande medida, produto de um sistema de saúde completamente mercantilizado. A epidemia de opioides começa nas salas de espera dos médicos, não nas esquinas. A indústria farmacêutica prescreveu opioides em massa e criou uma dependência que depois encontrou seu curso no mercado ilegal. É um exemplo perfeito de como a distinção entre medicamento e droga é, no fundo, artificial e política.

E falando de política e artifícios…, você avalia que seria possível sustentar a economia global atual, se pudéssemos eliminar todo o dinheiro de origem criminosa?

Não. A economia global entraria em colapso. O dinheiro sujo penetrou em cada canto do sistema. E agora que o dinheiro é essencialmente uma fantasia consensuada que circula entre computadores, rastrear sua origem se tornou praticamente impossível.

O mecanismo é conhecido: o dinheiro entra no sistema bancário por meio de jurisdições muito obscuras e, a partir daí, vai sendo transferido, lentamente, para lugares cada vez menos suspeitos, até chegar a Londres, Nova York ou Frankfurt. Todo mundo sabe que isto acontece. O problema é que quando a responsabilidade é de todos, acaba não sendo de ninguém.

Londres é apontada como um dos principais centros de lavagem de dinheiro do mundo. Com sua experiência, pode explicar um pouco seu funcionamento interno?

Antes de fazer o doutorado, trabalhei um ano na Cidade de Londres. Odiei, mas foi a melhor decisão que pude tomar, porque, ao voltar à academia, tive certeza do que queria. O que ouvi naquele ano foi revelador: todos eram conscientes da necessidade de cumprir normas de compliance, mas a pergunta nunca era “como fazemos as coisas de maneira certa”, mas, sim, “como garantimos que não sejamos pegos fazendo as coisas de maneira errada”. Uma amiga que trabalhou sete anos nesse setor foi muito clara, antes de sair: seu trabalho consistia em garantir que ninguém fosse perseguido. O sistema não é desenhado para ser ético, mas para parecer que é.

Em ‘A Escuta’, o ponto culminante da carreira criminosa não é o dinheiro, nem o poder nas ruas, mas o acesso ao mundo dos advogados, políticos e homens de negócios. Essa imagem – do crime que busca se juntar ao que é legítimo – é uma representação fiel de como, de fato, funciona a ascensão no crime organizado?

A maioria dos criminosos nunca chegará perto disso. A maior parte fracassa, acaba morta, presa ou simplesmente abandonará o crime porque não compensa. Mas, sim, o sonho é exatamente esse: o momento em que se dá o salto. E melhor ainda quando esse processo se institucionaliza.

Pense no Japão, onde os yakuza foram, por muito tempo, legais. Você tinha o poder e o dinheiro oferecidos pelo crime e a segurança e a respeitabilidade de estar do lado legítimo das coisas. Isto é o ideal. Nos países ocidentais modernos, é mais difícil de conseguir, mas continua sendo o horizonte.

Na prática, o que obtemos, muitas vezes, é uma divisão do trabalho: de um lado, o criminoso; de outro, a figura legítima  o político, o empresário  que mantém uma aliança discreta com ele. Pode ser que você não consiga unir as duas identidades em uma única pessoa, mas consegue uma associação muito conveniente.

Por fim, minha pergunta é sobre os chamados crimes de “colarinho branco”. O tráfico de arte e antiguidades costuma ser visto como um crime “elegante”, quase menor. No entanto, o mercado da arte tem uma característica singular: a obscuridade na formação de preços o transforma em um meio ideal para a lavagem de dinheiro. Qual é, de fato, o papel da arte nas economias do crime?

É realmente deprimente perceber até que ponto os tesouros culturais se tornaram meros instrumentos de transação financeira. No cinema e na televisão, tendemos a imaginar o colecionador que rouba uma obra para guardá-la em seu cofre e contemplá-la em privado. Não digo que isto nunca aconteça, mas é a exceção. Na maioria dos casos, a arte se tornou simplesmente uma unidade de capital muito concentrada.

As obras são usadas como garantia de dívidas no mundo do crime, como mecanismo de lavagem e como reserva de valor mantida em depósitos especiais com controle climático, sem que ninguém as veja. O proprietário sabe que ela está ali e se precisa de um milhão de dólares extra, a tem.

É usada também como meio de troca internacional entre criminosos: uma pequena escultura que, mesmo que seja vista por um agente aduaneiro, é improvável que seja identificada como uma peça babilônica original. Serve para saldar a última remessa de drogas ou armas.

No livro, menciono o caso de um quadro que tinha sido literalmente embutido em uma parede como fundo de reserva: não está exposto, nem sequer é visível. Pode ser perfeitamente um lingote de ouro ou uma bolsa de diamantes de sangue. A arte se tornou isso: dinheiro com boa reputação.

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