A “civilização” do futebol. Artigo de Enric González

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17 Junho 2026

Hoje em dia, uma sede da Copa do Mundo (ou várias, que geram mais dinheiro) não seria escolhida sem acordos prévios de venda de armas, contratos multimilionários entre empresas, políticos e monarquias do petróleo, e sem prêmios da paz para Donald Trump.

O artigo é de Enric González, jornalista, publicado por El Diario, 16-06-2026.

Eis o artigo.

O que é civilização? A pergunta geralmente é respondida de duas maneiras: ou como o conjunto de cultura, normas e costumes que definem uma sociedade humana, ou como as vantagens materiais e sociais que caracterizam as sociedades mais avançadas.

De uma forma mais pragmática, e considerando a evolução recente da humanidade, podemos afirmar que a “civilização” (uma palavra tão polissêmica e venenosa quanto “progresso”) é inseparável da concentração de poder em poucas mãos.

(Tenham paciência: falaremos de futebol em breve.) Dizemos, com certa complacência, por exemplo, que um sistema democrático não pode existir sem que o Estado detenha o monopólio da violência (esta é a tese geralmente aceita de Max Weber). E aceitamos como inevitável, ou pelo menos como pouco destrutiva para o tecido social, a corrupção "no topo", aquela gerada pela conivência entre o Estado e o poder econômico privado.

Quer exemplos? Aqui vai um "de cima": o resgate dos bancos espanhóis às custas do contribuinte. Sem problemas. Seguimos com nossas vidas normalmente. Em contraste, a violência e a corrupção "de baixo" perturbam o que chamamos de "paz social": isso acontece quando gangues dedicadas a sequestros e extorsões proliferam, e quando o guarda de trânsito ou o caixa do supermercado exigem suborno.

A Copa do Mundo de 1974, realizada na Alemanha Ocidental, marcou o momento em que o futebol começou a se "civilizar". O brasileiro João Havelange acabara de se tornar presidente da FIFA e abriu o torneio para o dinheiro: direitos exclusivos de transmissão televisiva, patrocínios, publicidade, influência de marketing na escolha do país-sede e corrupção desenfreada, tudo concentrado nas mãos de poucos. Em resumo, o futebol que conhecemos hoje. Segundo a Procuradoria-Geral da Suíça, Havelange recebeu aproximadamente € 40 milhões em subornos durante seus 24 anos de mandato.

Naquela Copa do Mundo de 1974, porém, o lado "incivilizado" do futebol ainda estava vivo. E então veio o "caso Gadocha". Vou contá-lo conforme reconstruído pelo grande jornalista argentino Andrés Burgo. A Polônia tinha uma seleção formidável na época, possivelmente a melhor do mundo. Em sua primeira partida, venceu a Argentina por 3 a 2 e, na segunda, o Haiti por 7 a 0. Como Itália e Argentina empataram em 1 a 1, o destino da Argentina dependia de a Polônia (já classificada) vencer a Itália e a Argentina vencer o Haiti por três gols ou mais.

Um jornalista argentino, Héctor Vega Onesime, encontrou-se com um jogador de futebol polonês, Robert Gadocha, o talentoso ponta-esquerda da seleção nacional. Gadocha estava acompanhado por outro argentino, Iggy Bocwinski, gerente da companhia aérea americana Pan Am na Varsóvia comunista da época. Eles conversaram e Gadocha acabou sugerindo que ele e seus companheiros de equipe estariam dispostos a aceitar "incentivos".

O jornalista transmitiu a sugestão à seleção argentina. Enrique Wolff, lateral-direito que jogou pelo Las Palmas e pelo Real Madrid depois da Copa do Mundo, explicou o que aconteceu anos mais tarde: “Cada jogador pagou mil dólares. O mais engraçado é que havia caras que não tinham dinheiro para pagar a Polônia, então a AFA [Associação Argentina de Futebol] cobriu a despesa, mas depois descontou o valor dos bônus deles.”

No total, os jogadores argentinos arrecadaram US$ 25.000 e entregaram o dinheiro a Gadocha. A seleção polonesa cumpriu a promessa: todos os titulares jogaram e, no intervalo, venciam a Itália por 2 a 0. Foi justamente no intervalo, segundo o zagueiro Wladyslaw Zmuda em sua autobiografia, que Italo Allodi, vice-presidente da Federação Italiana de Futebol, apareceu no vestiário polonês com uma mala cheia de dólares.

O que aconteceu com aquela mala? Zmuda deixou a pergunta sem resposta, embora seja bem provável que os dólares tenham sido divididos no vestiário. A Itália não conseguiu reagir, perdendo por 2 a 1 e sendo eliminada. Ainda mais curioso é o que aconteceu com os 25 mil dólares argentinos. Segundo Bocwinski, Gadocha não disse nada aos seus companheiros e ficou com o dinheiro.

Em 1982, Grzegorz Lato, ponta-direita da Polônia em 1974 e artilheiro daquela Copa do Mundo, jogou ao lado do argentino Rubén Ayala (que passou seis temporadas no Atlético de Madrid) no Atlante, no México. Por curiosidade, Ayala perguntou a Lato sobre os 25 mil dólares. Lato ficou surpreso e ligou para Gadocha, que jogava em Chicago na época. Gadocha não atendeu a ligação. Aparentemente, ele nunca mais quis ter contato com seus ex-companheiros de equipe.

Você percebe a diferença entre a corrupção "no topo" e "na base"? Hoje em dia, nenhum daqueles jogadores de futebol que viajam em jatos particulares se dignaria a aceitar (imagino) alguns maços de dólares como suborno. Por outro lado, hoje um país anfitrião (ou vários, que trazem mais dinheiro) não seria escolhido sem contratos de armamento prévios, acordos multimilionários entre empresas, políticos e monarquias petrolíferas, e sem prêmios de paz para Donald Trump.

O futebol se tornou tão "civilizado" quanto o mundo.

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