06 Junho 2026
Jules Boykoff (1970, Estados Unidos) não é o tipo de pessoa que nos vem à mente quando pensamos nos Estados Unidos e, certamente, isto contribui para torná-lo a pessoa mais adequada para falar sobre a Copa do Mundo que começará em breve em seu país. Começou a jogar futebol em uma época em que, o que lá chamam de soccer, era um esporte estranho que tinha se popularizado através do Pelé. Chegou a fazer parte da seleção olímpica dos Estados Unidos, antes de passar a se concentrar em sua carreira acadêmica. Acaba de publicar Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine, no qual analisa o torneio que está prestes a começar.
A entrevista é de Xabier Rodriguez, publicada por Naiz, 02-06-2026.
Eis a entrevista.
Quando foi disputada a última Copa do Mundo nos Estados Unidos, em 1994, não pareceu despertar muito interesse no país. Qual é o clima agora?
É interessante, porque, desde 1994, o futebol se tornou um esporte muito mais popular nos Estados Unidos. Neste momento, é o terceiro esporte, atrás do futebol americano e do basquete. E, ainda assim, o ambiente não é de alegria. Penso que isto tem muito a ver com questões que estão interrelacionadas.
Uma delas é o fato de Donald Trump utilizar o esporte como ferramenta política mais do que qualquer presidente dos Estados Unidos na história moderna. Em muitos aspectos, a Copa do Mundo está associada a Trump, que possui os índices de aprovação mais baixos que já vimos.
Em segundo lugar, o preço dos ingressos é realmente alto. As pessoas comuns não podem se dar ao luxo de comprar ingressos para os jogos. Pelo menos não neste momento, por causa do sistema de “preços dinâmicos” que a FIFA está usando para vender as entradas.
E, em terceiro lugar, é preciso falar do papel que os agentes do ICE vêm tendo no estado de ânimo do país. Muitos dos que acompanham o futebol nos Estados Unidos são imigrantes. Outros nasceram nos Estados Unidos, como eu, mas suas famílias vieram de outro lugar. E todo mundo está pensando nos agentes do ICE correndo com máscaras, detendo pessoas com força excessiva. Detendo pessoas que não estão fazendo nada de errado, com base apenas na cor da pele, no idioma que falam ou no sotaque que têm. Existe, agora, uma cultura real de medo em muitas cidades dos Estados Unidos, incluindo algumas sedes da Copa.
Esses três fatores reduziram a expectativa em torno do torneio. Não é que as pessoas não vão assisti-lo ou que não gostem de futebol, mas, neste clima político tão particular, é muito difícil ficar entusiasmado com a Copa.
Há preocupação de que agentes do ICE possam estar nos estádios durante as partidas?
O diretor de operações do ICE disse que teriam um papel fundamental nesta Copa. Mais recentemente, quando perguntaram ao secretário de Segurança Interno, Markwayne Mullin, se os agentes do ICE estariam nos estádios, se fariam prisões em massa, respondeu que não descartava nenhuma dessas opções, que o ICE faria seu trabalho, que é vigiar a imigração e o controle aduaneiro. Portanto, não os ouvimos dizer que não estarão nos estádios. As autoridades não têm a intenção de afirmar isso.
Há outra coisa que considero importante não esquecer. Você deve se lembrar de que, na Copa de 2022, dois dias antes do início do torneio, o Catar decidiu proibir a venda de cerveja nos estádios. A FIFA concordou, apesar de ter um acordo de patrocínio de 75 milhões de dólares com a Budweiser, naquele momento. Por quê? Porque o Catar tinha muito poder, não era mais possível transferir o torneio para outro país.
Pense nisso agora com Trump. Não vão realocar as 78 partidas previstas nos Estados Unidos. Portanto, mesmo que ele dissesse que os agentes do ICE não estarão nos estádios, como podemos acreditar? De repente, Trump tem um enorme poder e é o presidente mais errático da história recente dos Estados Unidos. É impulsivo. Sua capacidade de atenção é muito baixa. É uma situação preocupante e séria em relação à presença do ICE na Copa.
Essa é a sensação que Trump transmite. Se precisar da Copa para seu benefício, ele a usará. Usará com o ICE, com a seleção iraniana ou seja lá com o que for.
Se Trump for inteligente e previdente, ficará interessado que a seleção iraniana participe da Copa. Lembre-se de que, em 2022, os jogadores da seleção masculina do Irã não cantaram o hino nacional e, assim, enviaram uma mensagem ao seu Governo. E pense nas duas jogadoras da seleção iraniana que receberam asilo na Austrália, durante a última Copa feminina. Isso contribui para a imagem negativa de seu Governo. Portanto, Trump deveria acolher a seleção e dizer: “venham, vamos tratá-los bem”, na esperança de que fizessem algo assim. Mas você sabe, um pensamento calculado assim não sai da Casa Branca, atualmente.
Você falou dos “preços dinâmicos”, e é uma estratégia que também foi usada na final da Copa em que a Real Sociedad venceu o Atlético de Madrid. Quando perguntaram a Infantino sobre o alto preço dos ingressos para a Copa, ele disse que eram preços habituais nos Estados Unidos. Os “preços dinâmicos” são realmente uma prática comum nos Estados Unidos?
Quando Infantino, Trump ou quem quer que seja fala de “preços dinâmicos”, soa bem. Gostamos de coisas dinâmicas, mas isto não é bom para o consumidor. Basicamente, trata-se de a FIFA tentar lucrar o máximo possível com cada ingresso. Estão abraçando o hipercapitalismo que impera atualmente nos Estados Unidos. Isso é verdade. Os Estados Unidos são um império em decadência, além de um Estado pária que está se agarrando ao que pode. Penso que a administração Trump é um bom exemplo de como isso funciona e está acontecendo rapidamente.
Infantino não mente quando diz que é mais comum nos Estados Unidos. Um bom exemplo é o Uber. Quando está chovendo, cobram mais porque sabem que você não quer ficar esperando do lado de fora. Vão cobrar mais por um ingresso da Copa quando sabem que você está disposto a pagar mais? Isto são os preços dinâmicos. Então, o que Infantino diz é verdade, mas não significa que seja justo e, definitivamente, está afundando a expectativa em torno da Copa nos Estados Unidos.
O País basco tem um debate aberto sobre os benefícios de sediar a Copa. Nos Estados Unidos e no Canadá também ocorreram situações semelhantes.
Penso que é muito inteligente, por parte dos bascos, falar a esse respeito agora e não pouco antes do torneio. Porque a realidade é que a FIFA tem um modelo de negócios associado à Copa que pode ser resumido assim: a população paga e as empresas vinculadas à FIFA ficam com os lucros. São os contribuintes de San Sebastián, Nova York ou Nova Jersey que pagam. A FIFA, tecnicamente, é uma organização sem fins lucrativos, mas, uau, eles realmente têm muito lucro e esperam ganhar mais de 11 bilhões de dólares só com esta Copa.
Portanto, é um bom momento para ter consciência de como a coisa funciona. Nos Estados Unidos, eu diria que as pessoas demoraram bastante para perceber a situação e agora as autoridades locais estão muito preocupadas, pois precisam fornecer muitos policiais. O governo federal contribui com algum dinheiro, mas grande parte será responsabilidade dos governos locais. A FIFA não paga por tudo isso.
Do modo como eu vejo, há um modelo de negócios do qual eu recomendaria que os espanhóis estivessem conscientes agora e lutassem contra isso para obter uma proposta melhor da FIFA. Se você olhar o relatório para a candidatura à Copa de 2030, muitas das coisas ditas nele talvez não se concretizem quando chegar o momento, a menos que você se certifique e deixe tudo registrado em lei e nos contratos com a FIFA.
A Copa de 1994 foi uma oportunidade para a FIFA tentar entrar nos Estados Unidos, e as emissoras do país tinham interesse em expandir o futebol. Qual é o principal objetivo desta Copa?
O que você diz está 100% correto. Mesmo hoje, com o futebol sendo o terceiro esporte mais popular no país, há espaço para crescimento. Esse é um dos principais motivos. Além disso, com todos os patrocinadores que a FIFA tem nos Estados Unidos, é uma oportunidade para mantê-los satisfeitos. Como você sabe, o sportswashing é um termo frequentemente usado para se referir à Rússia, Catar... e normalmente não é usado para países como Estados Unidos, Espanha. Mas é exatamente o que está acontecendo aqui.
Se o sportswashing se refere a líderes políticos que utilizam o esporte para desviar a atenção de problemas sociais, problemas com os direitos humanos, para aumentar a importância de um país ou ganhar legitimidade no cenário mundial, pode ser aplicado à Rússia ou ao Catar, sem dúvidas, mas também se aplica a Trump, e acredito que essa é uma das razões pelas quais sua administração está se empenhando tanto nesta Copa.
Sobre quais temas ele tenta desviar a atenção?
Seus índices de aprovação são terríveis, os mais baixos de seus dois mandatos. Há os arquivos Epstein, a guerra horrível no Irã, que os Estados Unidos estão conduzindo com Israel e que não está de modo algum de acordo com o plano previsto... Posso passar uma hora mencionando temas dos quais ele quer desviar a atenção. Quanto mais seus índices de aprovação caem, mais interesse ele tem em se aproximar do esporte como um salva-vidas político, se preferir.
Quando falamos de sportswashing, é preciso perguntar se isso realmente funciona, se Trump parece importante quando aparece ao lado de Infantino, quando aparece com jogadores como Messi, que esteve na Casa Branca há pouco tempo, ou Cristiano Ronaldo, que o visitou alguns meses atrás. Isto o ajuda para as próximas eleições de novembro, nas quais ele está realmente em dificuldade? Penso que essa é a forma de analisar como Trump está usando ou tentando usar esta Copa para seu avanço político.
Há outro aspecto importante nesta Copa. A de 2022 foi disputada em um país pequeno, com estádios que ficavam próximos. Agora, a FIFA escolheu três países que cobrem boa parte da América do Norte e aumentou o número de seleções. Será uma Copa muito mais poluente.
Muito mais. E gostaria que mais pessoas falassem sobre greenwashing. Porque, sim, houve greenwashing no Catar, pois tiveram que construir todos aqueles estádios e a pegada de carbono aumentou. Mas, estando lá, era possível usar metrô ou ônibus para ir aos jogos. Os Estados Unidos são um país enorme e a ele junte o Canadá e o México. Se sua seleção joga em Los Angeles e você precisa atravessar o país para ir a outra cidade, não há outro meio além do voo, porque nossa rede ferroviária é muito fraca. Então, nesta Copa a pegada de carbono não virá tanto da construção de estádios, mas de todos os aviões que serão utilizados por todo o país e o continente.
Isso é greenwashing, porque a FIFA sempre fala de como se preocupa com o meio ambiente. Donald Trump não faz isso, então, não, ele não faz greenwashing. Mas a FIFA, sim. Você viu a imagem de Infantino mostrando um cartão verde e dizendo que a FIFA se preocupa com o meio ambiente. Claramente, não se preocupa, ou ao menos não é uma prioridade para eles agora.
Então, o que acontece? Teremos pausas de hidratação para evitar que os jogadores sofram durante a Copa. Mas, claro, a FIFA usará essas pausas para vender publicidade. Em outras palavras, a FIFA não apenas nada faz contra as mudanças climáticas, como realmente contribui para elas por meio desta Copa e, além disso, se beneficia, porque vai usar isso para ganhar mais dinheiro com anúncios. É obsceno!
Na Copa de 1986, Maradona e Valdano reclamaram dos horários das partidas por causa do calor e Havelange pediu que se dedicassem a jogar. Nesta Copa, novamente, haverá jogos em horários de muito calor e, neste sentido, o futebol masculino, diferente do feminino, não costuma protestar muito.
Bem, assim que a Copa iniciar, não ficarei surpreso se vermos jogadores que estiverem sofrendo com o calor falar do assunto. O sindicato FIFPro falou bastante sobre os perigos do calor para os jogadores e penso que também deveríamos falar dos torcedores e dos árbitros. Não sei, penso que pode haver protestos.
Uma coisa que lembro da Copa de 2022 é que a Palestina foi a seleção 33 e intuo que possa ser a 49 nesta Copa, com jogadores do mundo inteiro mostrando a bandeira palestina. Este poderia ser um tipo de protesto que não ficaria surpreso em ver.
Você tem razão, os protestos de jogadores são poucos. Estão muito focados no jogo e talvez não queiram se arriscar falando de um problema político, sendo que podem continuar jogando, ganhando dinheiro, sem arruinar suas carreiras.
Também diria que Infantino é tão impopular que qualquer coisa é possível. Eu diria que hoje é mais fácil alguém falar. Sempre digo que precisamos de mais Maradonas no mundo, que estejam dispostos a falar claramente para alguém como Gianni Infantino.
Em sua avaliação, com a Copa, a FIFA aumenta sua ambição de ganhar dinheiro à custa dos torcedores e, ao final, acaba colocando em risco a popularidade do futebol?
Sim. Por isso, descrevo a FIFA como uma máquina de ganância no título do meu livro. Nesta Copa, a FIFA está agindo da forma mais gananciosa e colocando os torcedores em risco. Se você comparar com a Copa anterior, com a de 2010 na África do Sul e a de 2014 no Brasil, os torcedores conseguiram ingressos a preços muito reduzidos. Isto definitivamente não está acontecendo agora. Sei que o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, conseguiu mil ingressos a preços mais baixos. Isto é ótimo e eu apoio, mas é uma quantidade muito pequena em comparação com o que o CNA conseguiu para os sul-africanos, em 2010.
Minha opinião é que Infantino está tentando ganhar a maior quantidade possível de dinheiro para a FIFA, mas está colocando em risco a relação com os torcedores. Já é possível ver um distanciamento. A indústria hoteleira está assustada, pois não contam com a quantidade de reservas que pensavam que teriam para a Copa.
Um dos problemas é o preço; outro é o que falamos antes sobre o ICE; e o terceiro é que ninguém quer apoiar a FIFA. As pessoas gostam de futebol, mas odeiam a FIFA. Portanto, sim, penso que estamos em um momento muito interessante, em que é difícil prever o futuro. Está sendo criada uma situação em que, talvez, Infantino tenha pressionado demais em nome da ganância e terá de pagar um preço. Não tenho certeza, mas será interessante ver o que acontece.
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