Catar 2022. A Copa do Mundo Greenwashing

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06 Outubro 2022

 

Querendo ser neutra em carbono pela FIFA e pelo país anfitrião, a Copa do Mundo da FIFA no Catar tem todas as características de um desastre ecológico, tanto nos fatos como nos símbolos.

 

A reportagem é de Jérôme Latta, publicada por Alternatives Économiques, 04-10-2022. A tradução é do Cepat.

 

Os grandes eventos esportivos (grands événements sportifs) e os gases de efeito estufa (gaz à effet de serre) compartilham o mesmo acrônimo (GES, em francês), e a Copa do Mundo de 2022 no Catar não contradiz essa ressonância: a denúncia da “aberração ecológica” desta 22ª edição da competição constitui um dos seus dois grandes aspectos polêmicos, ao lado de seu número impressionante de milhares de mortes de trabalhadores nos canteiros de obras.

 

Nada de muito surpreendente, claro, para um torneio que visa garantir a promoção de um Estado que vive da receita de gás, detém o recorde mundial de emissões de CO2 por habitante e é o primeiro no mundo a atingir o seu “dia da sobrecarga” – em 10 de fevereiro de 2022, de acordo com o think tank Global Footprint Network.

 

“Mesmo que tenham sido vítimas do calendário climático descontrolado nos últimos anos, o Catar e a FIFA subestimaram completamente as críticas que teriam que enfrentar a esse respeito. Eles estão tentando tornar esta Copa do Mundo mais verde, mas é tarde demais”, disse Gilles Paché, professor de Ciência da Gestão da Universidade de Aix-Marselha.

 

A climatização a céu aberto dos estádios, inicialmente prevista para amenizar as temperaturas extremas do verão, constituiu uma espécie de emblema da natureza ecologicamente irracional da competição – finalmente transferida para o outono por uma decisão da FIFA em 2015.

 

Uma reserva de elefantes brancos

 

Mas a aberração está, em primeiro lugar, na própria existência desses oito estádios com capacidade para 40.000 a 80.000 lugares, incluindo sete novos, em um território tão pequeno. Cerca de sessenta quilômetros separam os dois estádios mais distantes entre si e sete estão amontoados em um círculo de quinze quilômetros de raio dentro da aglomeração de Doha (menos de 800.000 habitantes): pela primeira vez na história, não é propriamente um país que sedia a Copa do Mundo, mas uma cidade.

 

Os organizadores defendem essa proximidade como uma forma de reduzir as viagens. No entanto, sendo o transporte de torcedores, junto com a construção de equipamentos, a principal fonte de emissões de CO2, a safra 2022 pode ser apresentada como um contramodelo ao torneio de futebol Euro 2020, realizado em onze países, ou à Copa do Mundo de 2026, que será organizada conjuntamente pelo Canadá, Estados Unidos e México.

 

“O impacto das viagens se dará – como em toda Copa do Mundo – principalmente pelos voos intercontinentais para se chegar à região”, objeta Gilles Dufrasne, da associação Carbon Market Watch. “Por outro lado, por falta de capacidade hoteleira suficiente, os torcedores são convidados a se hospedar nos Estados vizinhos e a fazer o trajeto de ida e volta de avião durante o dia”.

 

Cinco companhias do Golfo anunciaram 160 voos diários para conectar Doha a cidades da região.

 

“O argumento da proximidade dos estádios é digno de uma certa hipocrisia, dada a impossibilidade de amortizar essas construções nos próximos anos”, afirma Gilles Paché.

 

Este parque de estádios permanecerá de fato desproporcional e a pequena península está destinada a se tornar uma reserva de elefantes brancos, mesmo que continue com sua política de sediar eventos esportivos.

 

Um Mundial sem legado

 

Porque o Catar não tem público para o esporte, mesmo em proporção à sua modesta população – menos de 3 milhões de habitantes, dos quais 80% a 90% são trabalhadores imigrantes. O campeonato nacional de futebol atrai apenas algumas centenas de torcedores por partida, a ponto de, em 2017, residentes estrangeiros serem pagos para assistirem aos jogos, de acordo com uma pesquisa da France Football.

 

Durante a Copa do Mundo de Handebol em 2015, até mesmo torcedores foram recrutados na Espanha para, com todas as despesas pagas, fazer número atrás das diferentes seleções. Quatro anos depois, o Campeonato Mundial de Atletismo foi marcado por imagens impressionantes de arquibancadas praticamente vazias.

 

A noção de “legado”, promovida pelo Comitê Olímpico Internacional e pela FIFA para dar um caráter duradouro às suas competições, perde aqui a sua materialidade.

 

“O objetivo da noção de legado, que consiste em construir equipamentos para o futuro, compensando as deficiências dos clubes locais e promovendo o desenvolvimento da prática, não será cumprido”, observa Guillaume Gouze, consultor do Centro de Direito e de Economia do Esporte.

 

Os organizadores podem, no entanto, enaltecer essas maravilhas arquitetônicas projetadas por agências de prestígio.

 

“Com seu poder financeiro, o Catar pôde investir nas tecnologias mais recentes de construção e de exploração dos estádios e ambientalmente mais eficientes, cujo custo está afastando os patrocinadores comuns”, reconhece o economista.

 

O país anfitrião está promovendo um catálogo de iniciativas virtuosas: reciclagem da água, fazendas solares, áreas verdes, materiais reciclados, viveiros de árvores, etc. Apresenta também o “estádio 974”, construído com… 974 contêineres e teoricamente desmontáveis para serem transportados para outro país. Por enquanto, por falta de um destino posterior definido, “trata-se mais de um conceito de estádio descartável ou de uso único”, estima Guillaume Gouze.

 

A competição serviu de laboratório para aplicar os padrões de ecoconstrução e ecooperação estabelecidos pelas especificações da FIFA. Definidos há quinze anos, eles eram então bastante ambiciosos. Mas agora, “estão desatualizados em relação às exigências atuais e ao big bang da sobriedade energética”.

 

Verdadeiramente neutro em emissões de carbono?

 

Apesar de tudo, a FIFA e o Catar não têm medo de brandir o trunfo de sua defesa ambiental: a competição será neutra em carbono graças à compensação total das emissões. Uma alegação negada pela Carbon Market Watch, associação que publicou, em maio passado, uma análise segundo a qual seu impacto seria consideravelmente subvalorizado.

 

“Os organizadores se responsabilizam apenas por uma pequena fração das emissões relacionadas à construção dos estádios. Eles consideraram que a Copa do Mundo só seria fonte de emissões durante o mês da competição, e não durante toda a vida útil dos estádios”, explica Gilles Dufrasne, autor do estudo.

 

Sua pegada, estimada em apenas 5% do total, seria, na verdade, oito vezes maior: 1,6 megaton de dióxido de carbono, em vez de 0,2.

 

A ONG também duvida da sinceridade da compensação de carbono fornecida pela Gulf Organisation for Research and Development (GORD). Criada pela Qatari Diar, empresa imobiliária criada pelo fundo soberano catarense Qatar Investment Authority (QIA), a GORD desenvolveu um padrão de certificação “caseiro”, o Global Carbon Council, considerado de baixa qualidade.

 

“Os projetos atualmente registrados de acordo com este padrão – por exemplo, um parque eólico sérvio – não seriam contemplados pelos principais padrões internacionais atuais, que são muito mais exigentes”, assegura Gilles Dufrasne.

 

O nível real de compensação a longo prazo é tanto mais incerto quanto permanece, no momento, muito distante dos objetivos, sublinhando o caráter questionável de uma neutralidade de carbono decretada a priori. Na primavera, apenas 130.000 créditos dos 1,8 milhão de créditos planejados tinham sido comprados.

 

Em a GORD pilotando também a organização que certifica o desempenho ambiental dos estádios, “essas ligações com os organizadores levantam questões sobre a independência dos padrões de crédito de carbono e da certificação das construções”, eufemiza a Carbon Market Watch, para quem a afirmação da neutralidade de carbono “leva erroneamente os jogadores, torcedores, patrocinadores e o público a acreditarem que sua participação no evento não terá nenhum custo para o meio ambiente”.

 

Se já é uma derrota para o clima, a Copa do Mundo de 2022 também pode agravar a crise dos grandes eventos esportivos internacionais e enfraquecer ainda mais as instituições esportivas que os promovem. “O custo simbólico para a FIFA será alto e duradouro, principalmente em caso de desafeição do público e de deserção dos patrocinadores”, adianta Gilles Paché.

 

O balanço da imagem da Copa do Mundo será tão negativo quanto seu balanço de carbono?

 

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