A regra de ouro é uma via universal para enfrentar os desafios do presente e do futuro, sugere economista e jesuíta francês
O agravamento do estresse hídrico, a difusão de doenças tropicais e a combinação entre o aumento da temperatura e a umidade vão gerar milhões de migrantes no planeta na segunda metade do século XXI. Os países mais frágeis e suscetíveis a essas condições estão situados nos continentes africano e asiático. Essas projeções sobre os efeitos das mudanças climáticas foram apresentadas pelo economista Gaël Giraud na videoconferência “Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Uma leitura sistêmica”, ministrada no Instituto Humanitas Unisinos – IHU no mês passado. O evento integra o “Ciclo de Estudos – Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais”, realizado pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o IHU.
O enfrentamento desse cenário, segundo o jesuíta francês, “requer uma mudança econômica, estratégica e espiritual imediata”. Do ponto de vista geopolítico, pontua, o desafio será assegurar ambientes habitáveis para os refugiados climáticos. “A questão que tudo isso traz é: quais os objetivos que devemos adotar na perspectiva da ecologia integral para desenvolver um programa humano e ecológico para o planeta nos próximos anos?”
Giraud também comenta os efeitos da Inteligência Artificial (IA) no contexto de agravamento climático. Para ele, a IA é uma “catástrofe ecológica e antropológica”, que acentua a policrise planetária. Para avançar num diálogo universal em busca de soluções para os problemas emergentes, o jesuíta sugere o retorno à aplicação da regra de ouro da tradição bíblica. “A regra de ouro pode ser encontrada nos evangelhos de Mateus e Lucas e diz o seguinte: tudo que eu gostaria que os outros fizessem por mim, devo fazer por eles”, afirma.

Gaël Giraud no IHU em 2016 (Foto: João Vitor Santos | IHU)
A seguir, publicamos a conferência de Gaël Giraud no formato de entrevista. A programação completa do “Ciclo de Estudos – Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais” está disponível aqui.
Gaël Giraud é jesuíta e graduado pela École Nationale de la Statistique et de l’Administration Economique (ENSAE) e pela École Normale Supérieure. Realizou mestrado em Modelagem e Métodos Matemáticos em Economia, na École Polytechnique/University Paris-1, e doutorado pela Faculdade Loyola Paris, antigo Centre Sèvres. Atuou como economista chefe da Agência Francesa de Desenvolvimento e, atualmente, leciona no Programa de Justiça Ambiental da Georgetown University, nos Estados Unidos.
O trabalho de Gaël Giraud pode ser visto em seu sítio na internet gaelgiraud.net. É autor de vários livros, dos quais destacamos Costruire un mondo comune: e Dio non benedisse la proprietà privata (Piemme, 2025), Illusion financière (Les Éditions de l’Atelier, 2014), Le facteur 12: pourquoi il faut plafonner les revenus (Carnets Nord-Montparnasse éditions, 2012) e Vingt propositions pour réformer le capitalisme (Flammarion, 2009).
IHU – Quais são as projeções climáticas para as próximas décadas segundo suas pesquisas?
Gaël Giraud – Atualmente, vivemos uma policrise, uma crise plural do ponto de vista ecológico. Vou começar chamando a atenção para o aquecimento global e alguns dados encontrados pela minha equipe na Georgetown University. A imagem abaixo é um gráfico clínico de medicina que mostra, no eixo horizontal, a temperatura média na floresta em graus Celsius, e o eixo vertical é a umidade média no dia em porcentual.
A curva vermelha que vemos à direita combina temperatura e umidade e mostra o que é mortal para os seres humanos. Se ficarmos num ambiente com essa combinação por mais de seis horas sem recurso do ar-condicionado, poderemos morrer. Com uma temperatura média de 40 graus basta ter mais de 20% de umidade para estar numa zona letal. A pergunta que fizemos em Georgetown é: nos próximos anos quem vai estar exposto a condições mortais e letais de temperatura? As respostas estão simuladas nos mapas da imagem a seguir.
De acordo com nossas simulações, num cenário em que as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas, as pessoas estarão expostas a combinações letais de temperatura e umidade em 1 a cada 3 dias em 2068, conforme mostra a imagem em amarelo. Nas zonas em laranja, essa combinação será de 1 a cada 2 dias e, onde está vermelho, haverá uma exposição diária. Como podemos ver, há grandes zonas em amarelo e laranja na América Latina, especialmente na Amazônia brasileira. As pessoas estarão expostas a condições letais de temperatura e umidade a cada três dias.
Na América Central e no Sul do México também haverá essa exposição. Na África, o Golfo da Guiné será muito afetado, mas é sobretudo na Ásia que teremos as primeiras vítimas da combinação letal de alta temperatura e umidade. Quase toda a Índia está de amarelo e laranja no mapa e todo o sudeste da Ásia está de vermelho, o que significa que quase todo o sudeste asiático será uma zona em que os habitantes não poderão viver a partir de 2068.
Espero estar errado, mas confrontamos essas simulações com trabalhos de outros pesquisadores e climatologistas. As previsões para a Bacia do Congo, na África, são um pouco mais otimistas. Outros pesquisadores encontram simulações análogas e um pouco mais otimistas, mas o fato é que, se nada for feito, teremos milhões de migrantes no planeta na segunda metade deste século.
IHU – Milhões de pessoas?
Gaël Giraud – Sim, porque, se o sudeste asiático for afetado, afetará a população chinesa e indiana. China e Índia são os países mais povoados do planeta. A grande questão geopolítica que se levanta é para onde vão, por exemplo, os indonésios pobres? Vão para a Austrália, que não tem uma grande tradição de hospitalidade? Vão para a China, para o Vietnã, para a Malásia? Essas também são zonas expostas. Será que a China vai querer receber milhares de pessoas em seu território? Nada disso é garantido.
No mesmo mapa acima, à esquerda, podemos ver que o litoral sul dos Estados Unidos está de amarelo. Já há uma migração nos Estados Unidos, especialmente na Flórida, onde as pessoas se queixam de umidade e aumento da temperatura. O mesmo acontece na China. De amarelo há uma zona no centro da China. É no centro de Wuhan, o epicentro da pandemia de Covid-19. A previsão é que haja migrações muito grandes na China. Espero que isso não aconteça e que possamos reduzir nossas emissões de modo a manter uma situação como essa que vemos embaixo à esquerda do mesmo mapa acima, que é muito mais favorável. Mas isso requer uma mudança econômica, estratégica e espiritual imediata.
IHU – Quais são os países mais vulneráveis às mudanças climáticas?
Gaël Giraud – Os países mais frágeis estão principalmente na África e na Ásia. A América Latina não está totalmente imune, mas menos exposta do que a África subsaariana e o sul asiático.
Outro modo de ver a situação é através dos eventos extremos. Se observarmos os países mais vulneráveis, teremos um mapa muito diferente. Desta vez, a África subsaariana está muito exposta. Em compensação, Madagascar e boa parte da Ásia Central e do sul da Ásia estão muito expostos. Isso mostra que, segundo o modo como entendemos as mudanças climáticas e suas consequências, temos um mapa-múndi completamente diferente.
Se observarmos os eventos climáticos extremos como tempestades, tufões, secas, teremos um mapa. Mas se observarmos os eventos de destruição da biodiversidade, as inundações, falta de água, perturbações, teremos um mapa diferente.
Quando falamos de mudanças climáticas, devemos saber do que estamos falando e como vamos conceber as consequências. Observando esses mapas, as consequências geopolíticas também não são as mesmas. Já seria muito dramático se tivéssemos somente o aquecimento global. De toda forma, já sabemos o que devemos fazer: eliminar a queima de combustíveis fósseis e substituí-la por energias renováveis. Infelizmente, as mudanças climáticas não são o único problema. Por isso, falo de uma policrise.
IHU – Qual o outro problema que enfrentaremos?
Gaël Giraud – O segundo grande problema que enfrentaremos é o estresse hídrico. Vamos enfrentar uma falta de água doce e potável nos próximos anos. O mapa abaixo é do World Resources Institute, que observa o estresse hídrico em 2040.
A imagem mostra que a América Latina e a Europa serão muito afetadas pelo estresse hídrico. Na América Latina (sobretudo Chile e Argentina), isto ocorrerá pela perturbação do ciclo da água. As zonas de amarelo claro terão uma baixa perturbação. Marcado de amarelo mais intenso, um estresse hídrico de 10 a 20%. De cor laranja, de 20 a 40%. De vermelho, de 40 a 80% e, de vermelho mais escuro, superior a 80%.
A situação é bem diferente neste caso. A América Latina será muito afetada no flanco oeste e sul. Os Estados Unidos também. Segundo o mapa, não é somente no oeste dos Estados Unidos que vai faltar água, como na Califórnia e no Texas, onde já falta água de forma crônica. Em toda a África Austral, e na África do Sul também.
A Europa será bastante afetada. Espanha, Itália e Portugal já sofrem uma situação de estresse hídrico. Toda a península Arábica, o Oriente Médio, a Ásia Central, a China, a Índia e a Indonésia serão afetados. A Indonésia será o país mártir nos próximos anos. Seja qual for o critério que utilizamos para entender a policrise, a Indonésia sempre aparece como afetada. Além disso, o país sofre com o aumento do nível do mar.
IHU – Quais são os outros aspectos da policrise?
Gaël Giraud – Outro aspecto é a questão demográfica. Essa previsão é de 2019, mas não mudou muito porque a demografia está inerte. Nos próximos anos, haverá um aumento da população e, em 2100, a população vai declinar nos Estados Unidos e na Europa. A população asiática vai aumentar muito com o avanço da China, mas depois vai decair por causa de uma redução populacional chinesa.
Entretanto, na África a população aumentará muito. O único reservatório demográfico da humanidade para todo o século está na África. No fim do século, em 2100, a África deverá ter uma população equivalente à da Ásia. Isso levanta uma questão temível: como alimentar e alfabetizar essa população excedente? Esse é um desafio imenso e se soma a todos os outros desafios.
O aumento do nível do mar é outra consequência do aquecimento global. Um exemplo no qual trabalhei na Agência Francesa de Desenvolvimento é o do Delta do Mekong, no sul do Vietnã, que vai desaparecer, pois será absorvido pelo aumento do nível do mar. A dificuldade é que o Delta é o celeiro da Ásia: produz todo o arroz do Vietnã. A pergunta que me foi feita por anos pelo governo vietnamita em Hanói, capital administrativa, foi: como alimentar a população vietnamita quando não tivermos mais o Delta do Mekong? É uma questão de existência e de sobrevivência para todo o país.
Há muitas consequências do aumento do nível do mar. Jacarta, capital da Indonésia, e Bangkok, na Tailândia, estarão submersas até 2050. Grandes metrópoles asiáticas, como Xangai, ficam à beira-mar e parte delas serão inundadas até essa data, com exceção de Pequim.
Outro caso que gostaria de sublinhar na policrise é a difusão de doenças tropicais. Com o aquecimento global, vírus e bactérias vão sobreviver em zonas temperadas, regiões em que já não sobreviviam mais. O mapa do Banco Mundial mostra os locais de virulência da malária, que aparecem de amarelo. Zonas que serão atingidas em 2050 estão destacadas de vermelho.
Nesse cenário, a malária atingirá o México, o sul do Brasil, dos Estados Unidos e uma parte da fachada oeste da América Latina. Boa parte da China também vai ter malária, assim como uma parte da Ásia Central e da Turquia. Nessa simulação, a Europa não é afetada, mas conheço outras simulações mais pessimistas com estimativa de que a malária chegará lá. A baixa da biodiversidade também é um problema. Falou-se muito disso na COP30.
A questão que tudo isso traz é: quais os objetivos que devemos adotar na perspectiva da ecologia integral para desenvolver um programa humano e ecológico para o planeta nos próximos anos? Este mapa foi feito pela Agência Francesa de Desenvolvimento. Usamos ele para conversar com nossos parceiros sobre objetivos de desenvolvimento. O eixo horizontal é o que chamamos de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que combina três fatores: riqueza nacional (PIB), saúde (expectativa de vida em boa saúde e o nascimento) e o nível educacional.
Com a combinação desses três fatores é feita uma média de IDH, que vai de 0 a 1, publicada anualmente pelo escritório da ONU em Nova York. No Ocidente, considera-se que quando um país tem um índice de desenvolvimento humano superior a 0,8, está bem, ou seja, é desenvolvido e a sociedade está bem. Abaixo desse valor a situação é mais complicada.
O eixo vertical é a pegada ecológica, que é uma medida do impacto ecológico da atividade humana no planeta. Se essa pegada ecológica for superior à capacidade de absorção da pegada humana pelo planeta, significa que o estilo de vida da pessoa é insustentável. A capacidade de absorção do planeta diminuiu com o tempo, conforme fomos destruindo os ecossistemas naturais, principalmente a Amazônia.
Todos os países da Europa ocidental, os Estados Unidos e a Austrália têm desenvolvimento humano superior a 0,8 e uma pegada ecológica muito superior à capacidade de absorção do planeta. Há países da América do Sul, da América Central e da Ásia, que têm um índice de desenvolvimento inferior a 0,8 e uma pegada ecológica superior à capacidade de absorção do planeta, mas não excessiva.
A grande pergunta é: como fazer para que, neste século, todos os países mantenham o desenvolvimento humano superior a 0,8 e diminuam a pegada ecológica? Cada caminho é único. Não há solução universal, contrariamente ao que se diz muitas vezes.
IHU – Como sintetiza a policrise ecológica?
Gaël Giraud – Para sintetizá-la, podemos representá-la num retângulo, que tem quatro pontos vitais para a nossa sobrevivência: energias limpas, minerais, água e biomassa.
A China alcançou e ultrapassou os Estados Unidos e é um dos principais países emissores de gases de efeito estufa. Há um desafio imenso de transição para as energias renováveis.
O segundo ponto são os minerais. A extração de alumínio cresce num índice de 5% ao ano, enquanto a do cobre, de 3%. Mas a extração desses minerais é exponencial. Um geofísico vai dizer que esse princípio dura eternamente por uma razão simples: há uma quantidade finita de minerais no planeta. Sabemos que a guerra indireta entre Estados Unidos e China é também uma guerra sobre terras raras, já vencida pela China, que tem cerca de 80% da produção do planeta. O desafio dos minerais é colossal para os próximos anos.
Poderíamos interpretar o que está acontecendo hoje no Irã como uma luta de braço entre Estados Unidos e China por causa das energias e dos minerais. A China tem a indústria americana em suas mãos, com a pressão que pode exercer por meio do controle das terras raras. Inversamente, os Estados Unidos querem poder controlar o Estreito de Ormuz, que é crucial para as importações chinesas de petróleo. 40% do petróleo chinês transita pelo Estreito de Ormuz, que está bloqueado. Ou seja, os Estados Unidos querem exercer pressão na China, controlando o Estreito de Ormuz. Essa tentativa tem sido um fracasso por enquanto, mas podemos reler ou relacionar esses eventos dramáticos com o desafio do século XXI, que é controlar as energias, principalmente os minerais.
Já falei sobre a água anteriormente e agora vou tratar da biomassa. O mapa abaixo, feito pela NASA, mostra a produção de biomassa mundial pela fotossíntese natural. Podemos identificar a Amazônia, a Bacia do Congo e a floresta tropical da Indonésia, que mostram o consumo de biomassa pelos seres. Em nível mundial, o consumo de biomassa pelas populações que vivem na Amazônia é baixo. Mas, no nordeste dos Estados Unidos, no norte da Europa, no Golfo da Guiné e, principalmente, na Ásia, no norte da Índia, onde há uma densidade populacional muito grande, no noroeste da China, no sul do Japão e na Ilha de Java, na Indonésia, é imenso.
Com esses dados, podemos fazer um mapa do déficit (imagem abaixo), mostrando a diferença entre o consumo local de biomassa e a produção local de biomassa. Vocês podem observar as zonas de vermelho, onde os seres humanos consomem centenas de vezes o que não podem produzir localmente. São dependentes, portanto, do comércio internacional. Podemos ver que a Península Arábica está de vermelho. Isso não é uma surpresa porque essa é uma região de deserto; não se produz biomassa localmente. A Índia está marcada de laranja e de vermelho, assim como a China e o Japão. Essas são zonas extremamente vulneráveis às perturbações do comércio internacional de produtos agrícolas.
Nos últimos seis anos, vimos que o comércio internacional não tem uma promessa de vida eterna. Podemos ver isso com a crise da Covid, que interrompeu toda uma cadeia do comércio internacional, e com a invasão da Ucrânia pela Rússia, que interrompeu, durante vários meses, o comércio ucraniano. Uma parte do Magrebe, na África, sofreu com a fome por causa da guerra. Essa é uma população que depende de forma crucial do comércio agrícola internacional.
IHU – Como a noção de ecologia integral pode auxiliar no enfrentamento desses problemas?
Gaël Giraud – Devemos a noção de ecologia integral ao Papa Francisco, embora ela já tenha sido usada pelo Papa Bento XVI antes. Isso significa que as crises às quais assistimos – ecológica, econômica e espiritual – são uma única e mesma crise. O Papa Francisco enfatizou muito isso. Para ele, o meio ambiente não é um objeto externo e alheio a nós, mas uma rede de relações que podemos tecer entre os seres humanos e o mundo que nos cerca. É um mundo indispensável para a nossa sobrevivência. É também um modo de dizer que as oposições clássicas da metafísica ocidental – natureza versus cultura, natureza versus sociedade ou economia versus meio ambiente, ou ser humano versus ecossistema – são equivocadas. Precisamos pensar todas essas crises como uma única e crise.
Outro modo do Papa Francisco expressar isso é dizer que tudo está conectado. Não é que tudo se equivale no caos e numa confusão conceitual. Não é isso. Significa dizer que tudo está conectado: a crise das desigualdades tem a ver com a crise climática, que também tem a ver com a crise dos minérios.
Como disse anteriormente, já há falta de água no sul da Europa. Qual é a solução empregada por Marrocos? Fazer a dessalinização da água do mar. Marrocos buscará água no Mediterrâneo, no Oceano Atlântico, irá dessalinizá-la e obter água doce para a agricultura e para produzir biomassa. A biomassa e a água estão ligadas. Sem água não há agricultura. Para buscar água, é preciso tirá-la do oceano e isso requer muita energia. Marrocos tem a sorte de ter uma grande central solar financiada pelo Banco Mundial e a Agência Francesa de Desenvolvimento, mas o país vizinho, a Tunísia, não tem a mesma sorte.
Para ter biomassa para a agricultura é preciso água. Para ter água é preciso ter energia. Para ter energia são necessários minérios. No sentido inverso, para extrair minérios na América Latina é preciso ter energia e muita água. Não se podem extrair minérios como lítio sem energia e água. E para ter água é preciso energia, assim como para a biomassa também. Nesse sentido, esses elementos são interdependentes. Nos próximos anos, os países que sofrem da falta desses recursos enfrentarão grandes dificuldades.
Nos quatro documentos fundamentais (Laudato Si’, Fratelli Tutti, Querida Amazônia e Laudate Deum), o Papa Francisco nos mostra que a humanidade deve mudar de imaginário cósmico. Um modo de compreendê-lo é observar o Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci. Esse desenho é tido como o símbolo da humanidade. No entanto, se pensarmos um pouco, é impossível considerá-lo assim porque falta a metade da humanidade: faltam as mulheres – há só um homem nessa imagem.
A diferença entre homem e mulher talvez seja constitutiva da humanidade. Não há humanidade sem essa diferença. O Homem Vitruviano, então, não pode ser símbolo da humanidade. Em segundo lugar, não há crianças e não há velhos. Não há gerações. Talvez a coexistência entre as gerações seja constitutiva da humanidade. O que nos torna humanos é que homens e mulheres têm filhos; existem pessoas mais jovens e mais velhas do que eu.
O que mais falta nesse desenho? A natureza. Ela está ausente. Implicitamente, esse desenho representa, ao menos no imaginário ocidental, a humanidade reduzida aos homens, uma humanidade masculinista, com homens adultos, uma única geração, todos brancos, europeus, ocidentais, que enfrentam a natureza. A natureza está à frente desse homem. Ele olha para ela como se ela estivesse externa e alheia. Como o homem olha para a natureza? Com as armas da técnica, da geometria, para dominá-la. Creio que este imaginário é o que poderíamos chamar de naturalista, que pensa que a natureza nos é externa e que podemos dominá-la.
O Papa Francisco quis romper com essa visão e nos convidou a pensar com cosmologias e cosmovisões muito mais próximas da tradição cristã, como aquelas que encontramos entre algumas populações e povos da América Latina. Na África também tem o Ubuntu, que significa “eu sou porque somos”. Essa é uma antropologia que também é uma cosmologia.
O Papa Francisco nos diz que precisamos romper com a imagem do Homem Vitruviano, que faz com que os transumanistas da Califórnia vivam um delírio perigoso, embriagados pelo imaginário que os autoriza destruir o planeta e ir para Marte. A posição de Francisco nos diz que a antropologia cristã não é a do Homem Vitruviano; está mais próxima da Sumak Kaway e de populações muito distantes do imaginário ocidental.
IHU – Nesse contexto, como avalia o desenvolvimento da IA?
Gaël Giraud – Infelizmente, a IA não nos ajuda no processo de conversão advogado pelo Papa Francisco. Um ponto fundamental e pouco conhecido da IA é o que chamamos de “a doença da vaca louca”, que nada tem a ver com alucinações. O ChatGPT e outros sites de linguagem de IA alucinam. Nós perguntamos algo e eles inventam respostas estúpidas. Inventam pessoas que nunca existiram. Muitos engenheiros costumam trabalhar para reduzir essas alucinações. Mas aqui temos um problema mais grave para o qual ninguém tem solução. Nos últimos anos, percebemos que os dados disponíveis na internet para treinar a IA gerativa não bastam mais; foram esgotados.
Os engenheiros da Califórnia pensaram em formar a IA com todos os dados disponíveis na internet e todos os dados por vir. Podemos chamar isso de IA de segunda geração, treinada com base nos dados humanos. Depois, espera-se passar para a terceira geração. Ou seja, uma IA formada pelos dados da primeira geração, da segunda e assim por diante. Estima-se que poderemos chegar a uma IA de sexta geração, que vai poder fazer qualquer coisa.
Abaixo, vemos uma imagem com um rosto de um senhor produzido por IA. A primeira IA, que é a geração zero, foi treinada com foto humana. A primeira geração treinou a segunda geração.

Na sequência da segunda imagem à esquerda, percebemos que muitas informações foram perdidas. E quanto mais avançamos para a direita, mais informações se perdem. Constatamos que a IA de sexta geração não transmitirá mais nenhuma informação. Esta é uma doença grave da IA: ela é incapaz de formar a si própria com dados produzidos por IA. É o que chamamos de “doença da vaca louca”. A IA também pode ficar louca.
Daqui a alguns meses ou anos, quando formos para a internet, não saberemos mais se os dados ali postos foram produzidos por seres humanos ou por uma IA. Se tiverem sido produzidos pela IA, não saberemos se será uma IA de primeira, segunda ou sexta geração. Isso significa que os dados disponíveis na internet já não serão mais confiáveis. No meu entender, isso quer dizer que, se quisermos salvar a internet, deveremos parar a IA.
A IA também é uma catástrofe ecológica e antropológica. Ela também tem um problema interno, de modo que ela destrói a si mesma e destrói a nossa capacidade de transmitir informações. É um problema extremamente grave para o qual não há resposta hoje. Estou dizendo isso para mostrar que a crise do saber e da informação faz parte da policrise ecológica.
IHU – Como sair da policrise?
Gaël Giraud – Há dois aspectos no meu entender. O primeiro, da tradição bíblica, a regra de ouro. A regra de ouro pode ser encontrada nos evangelhos de Mateus e Lucas e diz o seguinte: tudo que eu gostaria que os outros fizessem por mim, devo fazer por eles. No fim do discurso da Montanha, Cristo diz que toda a tradição bíblica é resumida na regra de ouro. O que essa regra de ouro supõe? Que eu coloque no meu desejo tudo o que quero que os outros façam por mim. Devemos colocar o nosso desejo a serviço do desejo do outro. É um modo de dizer que precisamos aprender no lugar do outro, sem deixar o nosso lugar. Não vamos nos tornar escravos do outro, mas, sim, ter uma experiência espiritual. É tentar colocar o seu pé no sapato do outro, conhecê-lo. Devemos colocar o nosso desejo a serviço do desejo do outro. Christoph Theobald escreveu muito sobre isso.
Dou este exemplo porque ele significa uma regra universal com duas variantes universais. A primeira é o interdito do incesto e a segunda é a regra de ouro. Muitas vezes, encontramos uma versão negativa da regra de ouro: “Tudo o que vocês não querem que os outros lhes façam, também não façam a eles”. Mas a regra de ouro bíblica é muito mais exigente. Ela leva à infinidade do desejo: “Tudo o que quiser que os outros façam por você, faça por eles”.
Com isso, poderíamos avançar num diálogo universal, planetário, num contexto em que a policrise é planetária.
A IA é incapaz de vivenciar a regra de ouro. A máquina não é um sujeito com desejo; não tem desejo. Usamos constantemente metáforas antropomórficas para falar da IA, mas essas máquinas não têm nada de inteligência, uma vez que não há inteligência sem desejo. Somos convidados pelo próprio Cristo a vivermos o nosso desejo enquanto ele estiver a serviço do desejo dos outros.
De certa forma, não há política nem democracia sem a regra de ouro, sem aprender a calçar o sapato do meu adversário político para entender por que ele pensa de determinada maneira. Por que os americanos votam em Trump? Se não tentarmos entender esse fenômeno, nunca iremos aprender a dialogar com eles e a democracia se tornará impossível.
Acredito também que o apelo do Papa Francisco à sinodalidade é um modo de inserir na governança da Igreja a regra de ouro. Todos nós, batizados, precisamos aprender a calçar os pés nos sapatos dos outros e perguntar: por que os outros vivem o cristianismo de certa forma? Por que a Igreja funciona assim?
Eu gostaria de terminar com uma citação de um grande teólogo da Igreja, São Gregório da Capadócia. No livro A vida de Moisés, ele diz que a realização do desejo não está na sua extinção, mas no seu aumento. Em outras palavras, a regra de ouro nos convida a colocar o nosso desejo a serviço do outro, para aumentar o desejo do outro. Quando falamos do outro na regra de ouro, podem ser, inclusive, os animais. Isso nos convida a estabelecermos uma relação com a natureza. É neste caminho que podemos aprender a criar soluções para a policrise ecológica.