Brasil detém a segunda maior reserva global de terras raras conhecidas no mundo. Exploração desses recursos naturais estará em pauta nas eleições presidenciais deste ano, observa o geógrafo
“Não há dúvida que estamos diante de um impasse, de uma síntese contraditória”. Esta é a constatação do geógrafo Ricardo Assis Gonçalves ao analisar o debate público sobre a transição energética, a necessidade de descarbonização da economia por causa dos efeitos das mudanças climáticas e a disputa geopolítica por terras raras, que tem como consequência inúmeros conflitos socioambientais no Sul Global.
Defensor do desenvolvimento científico crítico aliado às lutas em defesa da justiça ecossocial dos territórios impactados por grandes projetos de mineração, Gonçalves defende que a posição do Brasil na corrida por terras raras esteja vinculada ao projeto de país que se almeja construir e ciente do quadro geopolítico global. “Este deve ser um debate público permanente, não limitado às esferas acadêmicas”, afirma.
Na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, o entrevistado apresenta os projetos de mineração de terras raras em curso nos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia, destaca os impactos socioambientais no Cerrado e comenta a possibilidade de criação de uma estatal para terras raras. “Não basta a criação de uma empresa estatal para terras raras sem discutir e mudar o modelo de mineração vigente no país. Uma empresa estatal que continue apenas extraindo e exportando bens minerais de maneira intensiva representa a manutenção de um modelo predatório, produtor de injustiças ambientais e de zonas de sacrifício”, argumenta.
De acordo com o pesquisador, o modelo de mineração vigente demonstra as contradições envolvidas na atividade. De um lado, extração de riquezas naturais que geram fortunas e, de outro, a manutenção da pobreza da população local. “O exemplo de Minaçu-GO é emblemático, pois é um município e uma cidade que surgiram com a megamineração a céu aberto de amianto. Com efeito, é um território com mais de cinco décadas de um modelo de mineração no qual as implicações podem ser consideradas como a síntese de um desastre permanente. (…) Há no município 8,1 mil pessoas cadastradas no Cadastro Único em famílias nessa condição (CadÚnico, 2026), o que representa 30% da população total do município, que é de 27,1 mil habitantes (IBGE, 2022)”, exemplifica.
Ricardo Assis Gonçalves também sublinha as contradições presentes no discurso presidencial favorável à soberania brasileira na exploração de terras raras e a prática recorrente no país. “O Brasil não implementou e consolidou uma política de largo prazo com foco na industrialização dos seus minerais. O que presenciamos foi e é o aprofundamento das políticas de base extrativistas e de aprofundamento da condição do país como exportador de matérias-primas e produtos semielaborados. Isso explicita que o setor mineral não teve, e continua não tendo, uma posição enquanto estratégico, de fato, para o desenvolvimento da economia nacional”, pontua.
O geógrafo também interpreta o pronunciamento do presidente Lula após a reunião com Trump, na semana passada. "O discurso do Lula nos Estados Unidos deixou evidente que o seu governo continuará fortalecendo a entrada e expansão de grandes projetos extrativos de minerais críticos das distintas potências, mantendo a condição de inserção do Brasil na órbita imperial enquanto periferia extrativa global". Já quanto a um possível governo Caiado à frente da Presidência da República, avalia, “aprofundaria um neoextrativismo ultraliberal periférico, megaexportador de commodities e de privilégios aos setores que dependem da manutenção do latifúndio, da abertura do subsolo, da terra e das águas nacionais ao capital estrangeiro”.

Ricardo Assis Gonçalves (Foto: Arquivo Pessoal)
Ricardo Assis Gonçalves é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Pesquisador do Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS). É autor de Rede Global Extrativa de Terras Raras: Asfixia Territorial no Brasil.
IHU – No livro Rede Global Extrativa de Terras Raras: Asfixia Territorial no Brasil, o senhor defende que o debate sobre mineração em terras raras não pode se reduzir aos aspectos econômicos, tecnológicos ou de soberania mineral, tal como tem sido feito no Brasil. A partir da sua formação em Geografia, como sugere que esse debate seja pautado e conduzido no país? Quais os eixos centrais que deveriam nortear essa discussão?
Ricardo Assis Gonçalves – Avalio que os argumentos apresentados neste livro – Rede Global Extrativa de Terras Raras: Asfixia Territorial no Brasil – são fundamentais para iniciarmos esta reflexão. Sendo assim, um dos eixos fundamentais para fundamentarmos este debate é partimos da leitura e interpretação do quadro geopolítico global com foco em cinco pontos:
1) O primeiro tem relação com o cenário de crise ambiental global. Em novembro de 2025, na cidade de Belém-PA, o Brasil sediou a 30ª Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Nesse evento, o debate sobre as mudanças climáticas, um tema contemporâneo urgente, arvorou na voz de ativistas, políticos, empresários e povos originários. Diante disso, foi uníssona a defesa de que, para enfrentar um mundo de riscos ambientais globais provocados pelas mudanças climáticas, precisam ser intensificadas as discussões, investimentos e acordos envolvendo governos, empresas e organizações mundiais em torno de pautas como descarbonização e desfossilização da matriz energética. Por conseguinte, para suprir a construção de infraestruturas de produção de energias como eólica e solar ou aumentar a frota de automóveis elétricos e híbridos, é necessário expandir a fronteira de explotação de minerais críticos e estratégicos, localizados, especialmente, em países do Sul Global. Países esses que são vistos pelas corporações de mineração e energia como periferias extrativas, que podem ser transformados em zonas de sacrifício.
2) O segundo ponto tem relação com as economias de guerras contemporâneas. O ano de 2025 e início do ano 2026 são sintomáticos de um mundo implicado em guerras. Os conflitos envolvendo a Rússia e a Ucrânia, assim como Estados Unidos e Israel contra o Irã, são emblemáticos do modo como as guerras tensionam a geopolítica global e impactam setores como a indústria bélica. Por consequência, para que a indústria bélica produza armas com aplicações de alta tecnologia, como mísseis teleguiados, submarinos, sistemas antimísseis, equipamentos a laser, aviões de combate e veículos aéreos não tripulados (drones), a demanda por minerais críticos, como terras raras, torna-se cada vez maior. Por isso, ameaças no fornecimento de minerais às economias de guerra contemporâneas como os Estados Unidos colocaria em risco um dos setores mais lucrativos do capitalismo global que é a indústria bélica.
3) Uma terceira constatação introdutória refere-se ao avanço recente da Inteligência Artificial (IA) como uma das tecnologias mais inovadoras da atualidade, movimentando bilhões de dólares. Contudo, para que isso aconteça, são requeridas megainfraestruturas que dependem de água, energia e minerais críticos. Os data centers são considerados a principal infraestrutura física que garante o funcionamento da IA. Com efeito, para que componentes físicos dos data centers sejam produzidos, os elementos de terras raras são essenciais. Discos rígidos, fontes de alimentação de energia e sistemas de resfriamento requerem a aplicação desses metais. Seu funcionamento exige elevado consumo de energia pressionando a expansão do uso de painéis solares e turbinas eólicas, que também demandam terras raras e outros minerais críticos. Em síntese, o panorama global de rápido avanço da IA tende a pressionar os territórios extrativos por mais mineração e consumo de energia para construção e funcionamento de infraestruturas como os data centers.
4) O quarto ponto diz respeito às disputas comerciais entre Estados Unidos e China. Entre abril e junho de 2025, no centro da escalada das tensões comerciais entre as duas maiores potências econômicas mundiais, estava o mercado de terras raras e ímãs estratégicos, o que permaneceu desde então. Diante das ameaças tarifárias impostas por Donald Trump, a China suspendeu a exportação desses produtos e, de imediato, ameaçou a rede de suprimentos de que dependem fábricas de carros, fabricantes do setor aeroespacial, empresas de semicondutores e fornecedores da indústria militar. Esse é apenas um exemplo da encruzilhada geopolítica que envolve a disputa entre os dois países em torno dos minerais críticos como as terras raras. A hegemonia da China na rede global de produção de terras raras tornou-se uma ameaça ao poderio imperial dos Estados Unidos. Por consequência, a ação econômica do governo de Donald Trump movimenta o geopoder americano em direção ao acesso e ao controle de reservas estratégicas desses metais fora da Ásia e do poderio chinês.
5) Finalmente, o quinto ponto refere-se aos interesses dos Estados Unidos pelos minerais críticos e estratégicos do subsolo brasileiro. Isso está posto desde o anúncio explícito feito por Gabriel Escobar – encarregado de negócios norte-americano – em julho de 2025, no contexto de negociações frente às ameaças do país de taxar as exportações dos produtos brasileiros. O tema manteve-se ativo na plataforma de interesses do governo Trump. Com efeito, os elementos de terras raras destacam-se como ponto estratégico para as negociações entre o Brasil e os Estados Unidos. As manifestações frequentes dos Estados Unidos sinalizam o fato de que o governo desse país está movimentando sua política comercial e seu poder geoeconômico na tentativa de garantir acesso a bens minerais considerados essenciais para setores estratégicos como a transição energética, a indústria bélica e as infraestruturas da IA. Neste sentido, acredito que o anúncio, no dia 20 de abril de 2026, da aquisição da mineradora brasileira Serra Verde pela empresa estadunidense USA Rare Earth (USAR) evidencia a atuação direta do poder dos Estados Unidos sobre o subsolo goiano e brasileiro.
Em resumo, sendo o Brasil o país com a segunda maior reserva global de terras raras (cerca de 21 milhões de toneladas, o que representa 22,9% das reservas conhecidas e medidas no mundo) distribuída em estados como Goiás, Minas Gerais e Bahia, seu subsolo torna-se um território disputado. Esses cinco pontos sintetizam um panorama no qual as terras raras e demais minerais críticos e estratégicos se transformaram em recursos essenciais para um mundo implicado em guerras, mudanças climáticas, revoluções tecnológicas e tramas geopolíticas. Nesse quadro de disputas e interesses por bens minerais, o Brasil figura como um território central para a expansão da fronteira extrativa global.
IHU – O senhor declarou que o projeto Serra Verde serve para “alimentar a reindustrialização dos Estados Unidos sem cláusula de transferência de tecnologia para o Brasil”. Após o anúncio da venda da Serra Verde para a USA Rare Earth, vieram à tona disputas entre o governo de Goiás e a União. Como interpreta tudo isso? O que está por trás dessa discussão?
Ricardo Assis Gonçalves – Acredito que antes de tudo é fundamental lembrarmos algo básico e que está explícito no Art. 20, inciso IX, da Constituição Federal de 1988: os recursos minerais, inclusive os do subsolo, são bens da União. É importante também sublinharmos o que está formulado no Art. 176, § 1º, da Constituição (1988): “As jazidas, em lavra ou não, e demais recursos minerais e os potenciais de energia hidráulica constituem propriedade distinta da do solo, para efeito de exploração ou aproveitamento, e pertencem à União, garantida ao concessionário a propriedade do produto da lavra” (Brasil, 1988, Art. 176). O § 1º do Art.176 (Redação dada pela Ementa Constitucional n. 6, 1995), por sua vez, diz o seguinte: “A pesquisa e a lavra de recursos minerais e o aproveitamento dos potenciais a que se refere o ‘caput’ deste artigo somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País, na forma da lei, que estabelecerá as condições específicas quando essas atividades se desenvolverem em faixa de fronteira ou terras indígenas”.
Está nítido: os bens minerais são propriedade da União e, por consequência, cabe a Ela, e não aos governos estaduais como de Goiás, qualquer autorização ou concessão à mineração. Isso foi bastante discutido e o Governo Lula, frente a contenda com o Governo de Goiás, foi enfático ao afirmar a competência da União nesta matéria.
Por consequência, avalio que houve oportunismo político por parte do Governo de Goiás nessa movimentação que envolveu desde a assinatura de um memorando de entendimento com os Estados Unidos, firmado em março de 2026, para cooperação em minerais críticos e terras raras, até o anúncio da venda da Serra Verde para a USA Rare Earth. Em um momento no qual o mundo debate minerais críticos e transição energética para enfrentamento das mudanças climáticas, o Governo de Goiás utilizou dessa conjuntura para apresentar uma narrativa segundo a qual o estado goiano se constituiu como pioneiro ou polo de vanguarda. O que é um oximoro, basta avaliarmos as contradições do modelo econômico extrativo em seu território.
Mas, há outras perspectivas importantes para avaliarmos a conjuntura do anúncio da venda da Serra Verde para a USA Rare Earth. Isso inclui, como afirmei acima, o quadro de disputa, ou de ciranda geopolítica, envolvendo a China e os Estados Unidos.
A mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás, é, atualmente (2026), a única fora da Ásia a produzir em escala comercial o neodímio, o praseodímio, o térbio e o disprósio. Esses quatro elementos de terras raras são estratégicos para a fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de guerra como caças, navios, mísseis e submarinos nos Estados Unidos.
Nos últimos dois anos, que situam o início da produção de terras raras pela Serra Verde em Minaçu, praticamente toda exportação de compostos dos metais das terras raras teve como destino a China. Em 2024 foram 60 toneladas no valor de US$ 2,2 milhões; e, em 2025, 678 toneladas no valor de US$ 12 milhões, compradas pelo país asiático (ComexStat, 2026), que controla cerca de 90% do refino mundial desses elementos. Diante disso, a entrada da empresa USA Rare Earth (USAR), apoiada pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos, na extração e exportação de terras raras em Minaçu, sinaliza um redirecionamento estratégico do destino desses elementos metálicos da China para os Estados Unidos. Isso evidencia que estamos diante da transformação de territórios da América Latina, neste caso Goiás no Brasil, em suporte de disputadas por minerais críticos entre China e Estados Unidos.
Os ventos que sopram na conjuntura global de transição energética, inovações tecnológicas como a Inteligência Artificial (IA) e a produção de armas para as guerras contemporâneas, são perturbadores para os países do Sul Global. Por conseguinte, o modo como o Brasil, e especificamente o estado de Goiás, está integrado à rede global de produção de terras raras escancara uma política de dependência estrutural e ameaça à soberania sobre o subsolo nacional. Com o anúncio da venda da Serra Verde para os americanos, Goiás aprofunda sua inserção na órbita imperial como fronteira extrativa periférica e predatória de territórios, ecossistemas e saúde de trabalhadores.
IHU – O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas não tem capacidade tecnológica de exploração e refino. Além disso, há décadas, pesquisadores denunciam os efeitos socioambientais do neoextrativismo e da mineração nos territórios latino-americanos. Nesse contexto, que estratégia o Brasil deve assumir diante da expansão da fronteira extrativa mineral das terras raras?
Ricardo Assis Gonçalves – No Brasil, de fato, este ponto tem sido amplamente debatido por pesquisadores críticos do modelo de mineração, como vem sendo feito pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), do qual faço parte. Mas, não podemos desconsiderar a importância do debate feito por organizações de ativistas ambientais e movimentos populares como o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre outros, nas últimas duas décadas. A junção entre pesquisas críticas e as ações de movimentos populares vem demonstrando que há um problema mineral no Brasil e ele envolve escalas econômicas, políticas e ambientais. Isso é importante, pois, a sociedade passou a debater o modelo de mineração e, ao mesmo tempo, o modelo de desenvolvido ou o projeto de país que queremos, ancorados na justiça ambiental, na saúde do trabalhador, no fortalecimento da democracia e na vida digna nos territórios de existência cotidianos.
Por isso, a estratégia que o Brasil deve assumir diante da expansão da fronteira extrativa mineral de terras raras, e de demais minerais críticos e estratégicos, necessariamente deve passar pelo debate sobre o modelo de mineração. Isso que, inclusive, vem sendo feito por movimentos populares e pesquisadores de importantes universidades brasileiras. Por exemplo, o país vai expandir a fronteira da mineração para continuar extraindo e exportando cada vez mais matérias-primas e produtos semielaborados? Vai manter o modelo que, para atender as demandas globais em escalas intensivas de extração e exportação, fratura águas, ecossistemas, paisagens e saúde dos trabalhadores e trabalhadoras? Continuará promovendo injustiça e sofrimento ambiental nos territórios e mantendo populações em situação de pobreza em municípios e territórios minerados?
Por isso, o Brasil deve assumir, ainda, uma posição na qual qualquer projeto de lei sobre o tema de minerais críticos e terras raras no país seja capaz de envolver a participação popular na sua discussão, uma participação que respeite, inclusive, as opiniões de povos originários, tradicionais e camponeses. Certamente isso demonstraria que a mineração também deve envolver um processo de fortalecimento democrático.
A estratégia que o Brasil precisa assumir diante da expansão da fronteira extrativa mineral das terras raras também necessita incluir o fortalecimento das políticas de licenciamento ambiental e proteção da saúde dos trabalhadores e trabalhadoras. Incorporar como obrigatória a consulta prévia, livre e informada como direito fundamental de povos indígenas e comunidades tradicionais, conforme definido na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Ademais, o debate sobre soberania nacional na mineração convém integrar os territórios e os povos que neles trabalham e vivem. Soberania também se constrói com participação e organização popular, com fortalecimento de comunidades e trabalhadores em redes de solidariedade e ação política em defesa de seus territórios.
IHU – A venda da Serra Verde para a empresa norte-americana USA Rare Earth e o crescente interesse por terras raras trouxeram à tona o debate sobre a criação de uma empresa estatal para terras raras. Este seria um projeto viável e necessário para o Brasil? Sim, não e por quê?
Ricardo Assis Gonçalves – A ciranda geopolítica em torno das demandas crescentes por minerais críticos e estratégicos colocaram os países da América Latina e, por extensão, do Sul Global, no centro do imperialismo extrativo global. Diante disso, as reações em escala nacional têm sido distintas e muito conectadas com as conjunturas políticas de governos que estão no poder em países de regiões como da América Latina.
Por exemplo, em 2022, no contexto do governo de Andrés Manuel López Obrador no México, o país nacionalizou o lítio e criou sua própria empresa estatal, denominada Litio para México (LitioMx). Enquanto isso, outros países como a Argentina, por intermédio do governo ultraliberal de Javier Milei, desde o final de 2023, vem fomentando uma política de desregulação ambiental e abertura do subsolo argentino ao capital estrangeiro, inclusive envolvendo acordos com os Estados Unidos para fomentar a expansão megaextrativista, em especial para a exploração de bens minerais como cobre e lítio.
Esses dois exemplos são ilustrativos de caminhos distintos frente ao destino que países da América Latina estão dando a alguns dos minerais críticos de seus subsolos. Por consequência, acredito que a defesa de criação de uma empresa estatal para terras raras no Brasil é legítima, desde que acompanhada da estruturação de políticas públicas de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico inovadores e capazes de envolver toda a cadeia produtiva desses elementos químicos metálicos. Contudo, isso demanda tempo e investimentos contínuos.
Em vários aspectos, o caso da China é emblemático enquanto exemplo de ascensão e transformação em principal potência na rede global de produção desses metais. Isso ocorreu mediante investimentos em exploração de grandes reservas como a da mina de Bayan Obo, na Mongólia Interior, criação de institutos de pesquisas dedicados a inovações tecnológicas e engenharia de minas, aplicação contínua e ampla de capital estatal em toda as etapas da rede de produção e controle de exportações. Quando, em 1992, o líder chinês Deng Xiaoping disse que “Se o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras”, ficou explícita a consciência estratégica do país asiático quanto à importância desses metais em um mundo de rápidas inovações tecnológicas.
Todavia, voltando ao exemplo do Brasil, avalio que não basta a criação de uma empresa estatal para terras raras sem discutir e mudar o modelo de mineração vigente no país. Uma empresa estatal que continue apenas extraindo e exportando bens minerais de maneira intensiva representa a manutenção de um modelo predatório, produtor de injustiças ambientais e de zonas de sacrifício. É um modelo que depende da remoção de paisagens e ecossistemas. Também implica a expropriação de comunidades e o adoecimento de trabalhadores. Além disso, que promove dependências em economias locais e mantém populações em situação de pobreza. Em resumo, não basta uma empresa estatal, é fundamental transformar o modelo extrativo mineral.
O modelo de mineração vigente demonstra que as populações locais não se beneficiam das rendas extrativas. O exemplo de Minaçu-GO é emblemático, pois é um município e uma cidade que surgiram com a megamineração a céu aberto de amianto. Com efeito, é um território com mais de cinco décadas de um modelo de mineração no qual as implicações podem ser consideradas como a síntese de um desastre permanente como demonstramos em um artigo intitulado “A mineração de amianto e o desastre permanente da minério-dependência em Minaçu, Goiás”. Enquanto corporações extraem e exportam as riquezas do subsolo, populações locais como a de Minaçu permanecem em situação de pobreza e baixa renda. Há no município 8,1 mil pessoas cadastradas no Cadastro Único em famílias nessa condição (CadÚnico, 2026), o que representa 30% da população total do município, que é de 27,1 mil habitantes (IBGE, 2022).
A continuidade desse modelo com a mineração de terras raras, feito por empresa estatal, privada nacional ou estrangeira, tende a não representar mudanças estruturas neste quadro. Daí a insistência de meus argumentos neste ponto: deve-se transformar de maneira radical, antes de tudo, o modelo de mineração no Brasil.
IHU – Em continuidade com esse raciocínio, pode explicar em que consiste a noção de “asfixia territorial”, a partir da qual o senhor aborda as terras raras?
Ricardo Assis Gonçalves – Sou geógrafo e minha formação em Geografia, assim como a trajetória de realização de pesquisas neste campo de saber científico por quase duas décadas, requerem um esforço contínuo de formulação teórica e conceitual para interpretação da produção do território no Brasil. Nessa caminhada nos deparamos com o desafio de interpretar o modelo de mineração e, por isso, noções conceituais como “periferia extrativa global”, “fratura territorial” e “asfixia territorial” têm sido fundamentais.
No caso de “asfixia territorial”, a sistematização desse conceito no livro Rede Global Extrativa de Terras Raras: Asfixia Territorial no Brasil, demonstrou-se fundamental para analisar e interpretar o avanço das fronteiras extrativas predatórias promovidas pela mineração no Brasil. O setor mineral se expande mediante conflitos e disputas em terras indígenas (como no caso de garimpos), territórios quilombolas, comunidades camponesas, assentamentos rurais e unidades de conservação. Ademais, é um setor que depende do controle de terra, água, subsolo e energia. Por isso, processos de apropriação, fratura, controle e disputa por espaço e bens naturais são expressivos do que se pode denominar asfixia territorial. Isso vem acontecendo com a expansão da fronteira mineral por terras raras no Brasil e, em especial, em Goiás, daí sua centralidade no livro que publicamos.
A territorialização de megaprojetos de mineração no Brasil representa uma forma de asfixia territorial, revelando ameaças ambientais e ampliação de conflitos com territórios, comunidades e trabalhadores. Por isso, a asfixia territorial provocada pelo modelo de mineração predatório também se configura como um processo que impõe situações de sofrimento e medo. Trata-se de um processo físico e simbólico. A fratura de territórios, paisagens e ecossistemas não está dissociada da ruptura das relações comunitárias locais, de vizinhança, cooperação e pertencimento. A asfixia territorial imposta pela mineração incide sobre a sociabilidade dos sujeitos, gerando estranhamento e desconfiança entre os membros de uma determinada comunidade, bem como o fortalecimento do individualismo em detrimento da cooperação e do compromisso coletivo.
O caso da expansão da fronteira mineral no Cerrado em Goiás, que analisamos e debatemos mais detidamente, onde estão situados alguns dos principais projetos de terras raras no Brasil, representa uma ameaça que pode fraturar esses territórios de vida e transformá-los em territórios controlados pela racionalidade da economia extrativa predatória. Em outras palavras, o avanço dos interesses econômicos (mediante processos minerários) e dos projetos de mineração de terras raras e demais minerais críticos traduz ameaças a unidades de conservação, territórios quilombolas e assentamentos de reforma agrária. Isso também implica no que denominamos asfixia territorial provocada pela mineração.
IHU – Segundo sua pesquisa, o Cerrado goiano tem sido transformado em uma “periferia extrativista global”. Quando esse processo começou e qual é a situação da região neste momento? Como a extração mineral tem transformado esse território?
Ricardo Assis Gonçalves – Para responder esta questão, inicialmente gostaria de enfatizar que nos últimos anos publicamos um conjunto de pesquisas demonstrando que o Cerrado é um território minerado e ameaçado pelo modelo de mineração brasileiro. No texto “Mineração e o cercamento das águas do Cerrado”, por exemplo, afirmamos o seguinte: “As águas do Cerrado estão feridas. Nascentes, aquíferos, rios, córregos, veredas e bacias hidrográficas estão expostas à voracidade do capital extrativo global. Consequentemente, feridas foram abertas e permanecem expostas diante do desmatamento, uso de agrotóxicos, construção de empreendimentos hidroelétricos, abertura de canais de irrigação, barragens de rejeitos, minerodutos e megaminas a céu aberto ou subterrâneas”.
O Cerrado é um sistema biogeográfico, como defende o professor Altair Sales Barbosa, que nas últimas décadas foi exposto a um modelo econômico contraditório, que ameaça as águas superficiais e subterrâneas, a sociobiodiversidade, os povos e as comunidades. Um importante geógrafo goiano, o professor Eguimar Felício Chaveiro, diz que há uma hegemonia predatória no Cerrado representada por setores como o agronegócio, a mineração e o setor hidroenergético.
De fato, desde os anos 1960, as políticas de desenvolvimento através dos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND) no contexto dos governos militares, incentivos a projetos de cooperação com presença ativa de capital internacional como o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER), investimentos em megaprojetos de infraestrutura, desmatamento por correntões para promover a expansão de monoculturas, territorialização de grandes projetos de mineração e produção de energia transformaram as paisagens do Cerrado.
Sendo assim, considerada a escala temporal desde os anos 1960, são décadas de estruturação e organização produtiva do Cerrado para especializá-lo em território de extração e exportação de commodities agrícolas e minerais. O Cerrado foi transformado em fronteira do capitalismo extrativo global. Nele, as águas, os solos e os bens minerais (subsolo), considerados como “natureza barata”, como diz o historiador ambiental Jason W. Moore, foram convertidos em uma fronteira aberta às corporações nacionais e internacionais. Por isso, pode ser considerado como uma “periferia extrativa global”. Um território cuja natureza está exposta a um processo de dominação ecocolonial.
O modelo de apropriação do Cerrado por grandes empreendimentos hidroelétricos, de mineração e do agronegócio de grãos e de cana-de-açúcar traduz ameaças aos modos de vida e trabalho desses povos. Logo, distintas populações, como quilombolas, ribeirinhos, indígenas, camponeses e posseiros estão ameaçadas. Se a extração de minerais críticos se expandir no Cerrado, poderá acontecer uma intensificação de conflitos, injustiças e sofrimentos ambientais de populações com identidades territoriais historicamente construídas na relação com esse território. Esse é um dos dramas de sua transformação em periferia extrativa global. Nela, territórios e povos são convertidos em zonas de sacrifício.
O mapeamento dos processos minerários e dos principais projetos de terras raras em Goiás demonstram que territórios com sensibilidades ambientais (devido à ampla biodiversidade, características dos solos, relevo e presença de águas) ou que são espaços de vida e cultura de populações do Cerrado estão em disputa pelas estratégias de controle corporativo do subsolo pela mineração. Haja vista que a existência social e cultural dos povos do Cerrado depende das águas, plantas e solos desse sistema biogeográfico, é fundamental que o modelo de mineração seja debatido e, principalmente, que as comunidades locais sejam consultadas, ouvidas e respeitadas.
Finalmente, gostaria de citar os versos da música Terra, de Francisco Mário: “Rasgou meu corpo, de pedra / Levou, sem medo, sem pressa / Um pedaço de mim”. Esses versos podem ser interpretados como uma síntese metafórica do modo como os territórios do Cerrado estão expostos à expansão das fronteiras extrativas predatórias. Um território apropriado pelo modelo econômico dependente da extração e exportação de bens comuns naturais que aprofunda sua transformação numa periferia extrativa global. Isso acaba por expor feridas dolorosas de um corpo-território – o Cerrado e seus povos – ameaçado e fraturado, daí a importância de pesquisas críticas se somarem às lutas em defesa de justiça ecossocial e vida plena no Cerrado.
IHU – Quais são os projetos de mineração em curso ou previstos para os territórios goianos de Iporá, Minaçu e Nova Roma? Qual é a origem das companhias interessadas na exploração desses municípios?
Ricardo Assis Gonçalves – Minaçu, Nova Roma e Iporá são os três municípios goianos com projetos de mineração de terras raras em estágios mais avançados.
O município de Minaçu, com área territorial de 2.854 km2 e população de 27.075 habitantes, localiza-se na região Norte de Goiás. A mineração faz parte de sua formação socioespacial e, nos últimos anos, a disputa pelo subsolo passou a incorporar o controle das reservas de terras raras.
Há 70 processos minerários ativos, com atuação de dez empresas no município. Do total, 62 são de autorização de pesquisa, sete, concessões de lavra e um, requerimento de lavra. Ainda, 60 processos minerários são controlados pela Serra Verde Pesquisa e Mineração; um, pela Vale da Serra Mineração; um, pela Rio de Moura Pesquisa e Extração Mineral; um, pela N Green Minerais; dois, pela Mineradora Serra Geral; um, pela Mineração Mata Azul; um, pela Core Mining Services; um, pela Bw Consultoria em Empreendedorismo; dois, por Armando Cruz Furtado de Oliveira; e um, por 3PS Naturelli Pietra do Brasil (ANM, 2025).
Ademais, no município localiza-se o projeto de extração de terras raras da empresa Serra Verde Pesquisa e Mineração, que, no primeiro trimestre de 2024, iniciou a produção em escala comercial dos elementos pesados neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, presentes no depósito de argila iônica Pela Ema.
Com esse empreendimento, Goiás integrou-se à rede global extrativa de terras raras como um território estratégico fora da Ásia na produção desses elementos magnéticos, essenciais na aplicação de tecnologias e infraestruturas da transição energética, como os ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos e turbinas eólicas.
A Serra Verde foi criada em 2008 e, em 2010, adquiriu os primeiros processos minerários no município de Minaçu. Ganhou projeção no debate público recente o anúncio de venda da Serra Verde para a empresa americana USA. Contudo, importante dizer que a Serra Verde se desenvolveu com o controle majoritariamente por fundos dos Estados Unidos (Denham Capital Management LP e Arsago Mining Capital) e com aportes financeiros de US$ 150 milhões advindos dos fundos Energy and Minerals Group e Vision Blue Resources entre os anos de 2023 e 2024 (Mineração Serra Verde, 2024, 2025), e foi incluída na lista de projetos da Minerals Security Partnership, que envolve 14 países e a União Europeia, para desenvolver cadeias globais de suprimentos de minerais críticos aplicados à produção de energias renováveis.
Esse projeto de mineração de terras raras em Minaçu representa a continuidade de um modelo extrativo contraditório no município. Minaçu é considerada a “cidade do amianto”, com uma história de mais de 50 anos de extração de amianto crisotila.
Mapa do município de Minaçu (Foto: Research Gate)
Nova Roma, com território de 2.136,725 km², localiza-se no Nordeste goiano e possui população de 3.076 habitantes (IBGE, 2022). Diferentemente de Minaçu, não possui histórico de megamineração a céu aberto, mas o mapeamento dos processos minerários ativos revela que a mineração de terras raras pode transformar o município em território minerado.
Mineração em Nova Roma (Foto: Wikimedia Commons)
Os processos minerários ativos concentram-se ao Norte do município, estando 11 em fase de autorização de pesquisa, assim distribuídos: dois controlados por Manoel Barbosa Lopes Junior; dois por Foxfire Metals; dois por RCO Mineração; um por AF Extração de Areia e Calcário; um por Irmãos Martins Serviços e Comércio; dois por Aclara Resources Mineração; e um por 3D Minerais (ANM, 2025).
A empresa Aclara Resources Mineração detém dois processos minerários em etapa de direito de requerer lavra. Isso demonstra que ela está avançando com a territorialização do Projeto Carina, de extração de terras raras, que representa a expansão da fronteira mineral para novos espaços em Goiás. A empresa, com sede no Chile, está listada na Bolsa de Valores de Toronto e possui o Grupo Hochschild como seu principal acionista.
A territorialização do projeto da Aclara em Nova Roma poderá ameaçar populações e ambientes locais, atuando sobre características econômicas, sociais, ambientais e culturais representativas. O município, por exemplo, possui 1.644 pessoas inscritas no Cadastro Único que vivem em situação de pobreza e baixa renda (CadÚnico, 2025), além de ser um território com presença de população quilombola. Conforme dados do Brasil Quilombola (IBGE, 2022), são 99 pessoas quilombolas no município e na Comunidade Quilombola Magalhães. Historicamente territorializada, essa população vive integrada à sociobiodiversidade do Cerrado.
No município, o sistema biogeográfico do Cerrado é predominante e ainda preservado, contando com mais de 30% da área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o que revela a existência de um território exuberante de águas, fitofisionomias, solos, relevos e paisagens.
Por fim, destaca-se o município de Iporá. Iporá localiza-se na região Oeste de Goiás e possui área de 1.027,249 km² e uma população de 35.684 pessoas (IBGE, 2022). A economia local é dependente de setores como agricultura, pecuária e serviços.
Mineração em Iporá (Foto: Research Gate)
A disputa pelo subsolo do município por elementos de terras raras representa o avanço do capital extrativo no território goiano, em especial, na região Oeste do estado.
O subsolo de Iporá está incorporado ao processo de controle corporativo exercido por mineradoras. Com foco nas áreas de concessão de pesquisa, destacam-se 11 processos ativos, sendo um controlado por José Pereira Neto; um por I.R.S. Minerals – Extração de Minerais; um pela Ultra Brasil Rare Earths Mineração; três pela RTB Geologia e Mineração; dois pela RCO Mineração e três pela Perth Recursos Minerais.
A expansão da fronteira extrativa de terras raras em Goiás incorporou o município de Iporá por intermédio de dois projetos, um controlado pela Appia Rare Earths & Uranium e outro pela Alvo Minerals. A Appia, empresa canadense de capital aberto nos setores de terras raras e urânio, detém o projeto de argila de adsorção iônica, também conhecido como Projeto Cachoeirinha ou Projeto PCH. Além de um processo minerário de autorização de pesquisa de terras raras, é detentora de outros 11 títulos minerários (todos em etapa de autorização de pesquisa) envolvendo níquel, fosfato e calcário (ANM, 2025).
Por sua vez, a Alvo Minerals, empresa com sede na Austrália, possui o Projeto Iporá no município. Com outros projetos localizados em Goiás, Tocantins e Bahia, sua presença no município ilustra a disputa pelo subsolo goiano por empresas estrangeiras que planejam controlar o acesso às reservas de terras raras.
Ainda em fase de exploração, os dois projetos também se destacam por se localizar em territórios do Cerrado, na Alta Bacia Hidrográfica do Ribeirão Santo Antônio, nas cabeceiras do córrego Cachoeirinha. Portanto, a instalação da mineração com ações que incluem desmatamento, abertura de minas, impactos em nascentes e remoção de paisagens originais poderá comprometer a recarga hídrica de aquíferos.
IHU – Segundo sua pesquisa, além de Goiás, os estados da Bahia e Minas Gerais são os principais territórios de expansão das terras raras no país. Pode nos dar um panorama dos processos minerários de terras raras em curso nesses estados?
Ricardo Assis Gonçalves – Avaliamos que estes três estados estão no centro de disputa territorial provocada pela expansão da fronteira extrativa de minerais críticos e estratégicos no Brasil.
Os interesses por terras raras poderão ampliar a fronteira desse modelo extrativo mineral no Brasil. De acordo com dados da ANM (2025), há 2.216 processos minerários de monazita e terras raras ativos no território brasileiro. Desses, 2.148 são autorizações de pesquisas (97% do total), 31 são requerimentos de lavras (1,4% do total), 12 são de direito de requerer a lavra (0,6% do total) e 25 são concessões de lavra (1% do total), sendo 252 empresas nacionais e estrangeiras detentoras desses processos minerários. A concentração desses processos minerários ou sua legenda espacial localiza-se, em especial, nos estados de Goiás, Bahia e Minas Gerais.
Na Bahia, há 844 processos minerários de monazita e terras raras, com atuação de 70 empresas (ANM, 2025). Desse total, 831 estão em fase de autorização de pesquisa, o que representa 98,5% do total. Há ainda três processos minerários em etapa de direito de requerer a lavra e, finalmente, sete requerimentos de lavras, controlados por três empresas. Com foco nos requerimentos de lavras, etapa mais avançada junto à ANM para que um território seja minerado, cinco são controlados pela empresa Multiverse Mineração, localizados no município de Itamaraju; um, pela empresa Energy Fuels Brazil, localizado em Alcobaça; e dois, pela empresa Riper Indústria e Comércio, nos municípios de Prado e Alcobaça.
O segundo estado com mais interesses por terras raras é Minas Gerais, contando com 523 processos minerários, controlados por 97 empresas. Desses, 522 estão em fase de autorização de pesquisa e apenas um, em etapa de concessão de lavra (ANM, 2025). Os principais municípios mineiros com processos minerários de terras raras são Presidente Olegário, com 59 (11,3% do total); Caldas, com 57 (10,9% do total); Poços de Caldas, com 36 (6,9% do total); Santa Rita de Caldas, com 34 (6,5% do total); Patos de Minas, com 31 (5,9% do total); Andradas, com 29 (5,5% do total); Ipuiúna, com 26 (4,9% do total); Varjão de Minas, com 21 (4,0% do total); Turvolândia, com 17 (3,3% do total); Tapira, com 18 (3,5% do total); e Araxá, com 15 (2,9% do total).
Por sua vez, as principais empresas detentoras de direitos minerários de terras raras em Minas Gerais são Nazca Gold Mineração, com 54 (10,3% do total); I.R.S. Minerals – Extração de Minerais, com 37 (7,1% do total); Axel Ree, com 34 (6,5% do total); e Alpha Minerals Brazil Participações, com 31 (5,9% do total) (ANM, 2025).
Por fim, em Goiás, os elementos de terras raras somam 458 processos minerários ativos (4,0% do total em Goiás), sob controle de 48 empresas (1,3% do total). Destes, 449 correspondem a autorizações de pesquisa (98%); um, a requerimento de lavra – localizado em Minaçu –; e oito, a concessões de lavra (1,7%), concentrando-se sete em Minaçu, vinculados à empresa Mineração Serra Verde, e um em Catalão, sob responsabilidade da Mosaic Fertilizantes (ANM, 2025). Com esses números, o subsolo goiano configura-se como o terceiro mais disputado do Brasil para a exploração desses elementos (ANM, 2025). Isso ilustra o modo como a fronteira extrativa mineral está em processo de expansão em Goiás.
IHU – O senhor chama a atenção para a distribuição geográfica das reservas mundiais de terras raras, que estão concentradas na China, no Brasil e na Índia. Além disso, destaca que dos 12 países que detêm as maiores reservas de terras raras, sete estão localizados no Sul Global (China, Brasil, Índia, Vietnã, Tanzânia, África do Sul e Tailândia). O fato de esses países pertencerem ao Sul Global e de a China, o Brasil, a Rússia e a Índia integrarem o Brics pode significar uma mudança de rota no extrativismo exploratório que é feito no Sul Global ou esses países tendem a reforçar esse modelo em seus territórios?
Ricardo Assis Gonçalves – Esta questão é importante e coloca nossa interpretação frente à importância estratégica dos Brics no atual quadro geopolítico envolvendo terras raras e demais minerais críticos e estratégicos. Isso merece uma análise detida sobre o tema, com apresentação de alguns dados.
O Brics é um grupo de 11 países de economias emergentes e situados no Sul Global – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Irã e Arábia Saudita –, cuja participação no Produto Interno Bruto (PIB) mundial é de aproximadamente 39%. Juntos, os países do bloco representam 48,5% da população do planeta. Ademais, eles possuem quase 80% das reservas mundiais de terras raras, 43,6% da produção global de petróleo, 36% da produção de gás natural e 78,2% da produção de carvão mineral (Brics, 2025).
Com foco à distribuição geográfica das reservas mundiais de terras raras, pontua-se o destaque da China, do Brasil, da Rússia e da Índia, que juntos somam 81%. Esses quatro países se destacam no cenário geopolítico e econômico mundial a partir de iniciativas importantes como o Brics, que reúne países emergentes empenhados no fortalecimento da cooperação econômica, tecnológica e política.
Esses dados suscitam algumas interpretações. A primeira diz respeito ao papel da China na produção global de terras raras. Esse país asiático, a partir de efetivo apoio estatal, menores restrições da regulação ambiental e baixos custos de produção, transformou-se no maior produtor mundial de terras raras nas últimas décadas.
De 1994 a 2024, por exemplo, o aumento de sua produção foi de 30,6 para 270 mil toneladas, ou seja, 782,4% a mais em 30 anos. Apenas a mina chinesa a céu aberto de Bayan Obo, controlada pela empresa China Northern Rare Earth e localizada na Mongólia Interior, ao Norte do país, é responsável por mais de 40% das terras raras do mundo.
O domínio chinês no mercado global de terras raras não se reduz à mineração. O país também controla 90% do potencial de refino, o que faz dele o ponto estratégico com capacidade de influenciar preços e ameaçar a competividade de empresas estrangeiras dependentes dos elementos de terras raras. A China domina as tecnologias de refino das terras raras e, nos últimos anos, passou a dominar toda uma cadeia produtiva de alta tecnologia com aplicações desses elementos químicos, da produção de painéis solares, turbinas eólicas, aviões e celulares a carros elétricos e híbridos fabricados pela Build Your Dreams (BYD).
Em resumo, isso demonstra que o BRICS controla as jazidas e representa uma posição estratégicas no mercado global de terras raras. Contudo, o desafio é fortalecer a cooperação Sul-Sul, investir em inovação tecnológica e agregação de valor para que o modelo histórico dependente de transferência tecnológica e de megaexportacao de matérias-primas seja transformado.
IHU – De um lado, os especialistas defendem um processo de descarbonização da economia para o enfrentamento das mudanças climáticas. De outro, defende-se uma transição energética baseada em energia limpa que, por sua vez, implica na expansão da mineração e gera inúmeros conflitos territoriais e injustiças socioambientais nos países do Sul Global. Estamos diante de um impasse? Vê alguma saída?
Ricardo Assis Gonçalves – Não há dúvida que estamos diante de um impasse, de uma síntese contraditória. Inicialmente, podemos demonstrar isso impasse a partir do que ocorreu na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em novembro de 2025, na cidade de Belém-PA. A realização da COP30 em uma cidade localizada na Amazônia brasileira foi simbólica e serviu de base para os debates sobre as mudanças climáticas e os desafios da transição verde. Nesse evento, perspectivas distintas sobre o enfrentamento do desastre ambiental global se destacaram: de um lado, chefes de Estado e de governo, diplomatas e representantes de empresas de tecnologias, de energia e de mineração discutiam temas como estratégias de descarbonização e inovações tecnológicas para produção de energias renováveis; de outro, lideranças indígenas, integrantes de movimentos populares, ativistas ambientais e cientistas críticos, em especial de territórios do Sul Global, debatiam e evidenciavam as injustiças e desigualdades da transição verde.
Diante disso, pode-se dizer que a transição verde envolve uma dupla contradição. Em relação à primeira, para que novas tecnologias e infraestruturas necessárias para a economia de baixo carbono sejam produzidas por países ricos e desenvolvidos, milhares de toneladas de minerais são extraídas em periferias extrativas do Sul Global, transformadas em megazonas de sacrifício a céu aberto. Isso explicita uma transição desigual: enquanto os países desenvolvidos se beneficiam dos avanços tecnológicos, da agregação de valor em produtos de alta tecnologia ou por serem sede das grandes empresas de energia e mineração; países do Sul Global continuam exportando matérias-primas e produtos semielaborados. Isso expressa a continuidade de uma lógica neo-eco-colonial.
A segunda contradição refere-se ao fato de que a transição verde amplia estratégias de acumulação capitalista dependentes da colonização da natureza através do cercamento de bens comuns naturais como águas, solos, minérios e florestas. A fronteira de acumulação capitalista se utiliza de “negócios verdes”, “financiamento climático”, “mercados de carbono” e demais práticas especulativas. Nesse sentido, ela permanece ativa e em expansão, impondo o imperialismo extrativo sobre os territórios de países de regiões como a América Latina. Isso indica que as estratégicas de acumulação incorporaram os discursos em defesa da descarbonização, das energias renováveis e da economia circular.
Acredito que as alternativas estão na emergência e na importância das lutas em defesa de justiça ecossocial e contra a pilhagem ecológica, protagonizada por povos, movimentos populares, ativismos ecofeministas, a defesa do bem-viver, a ruptura com a sociedade de consumo infinito e o fortalecimento de exemplos de transições justas e não desiguais. Há uma difusão de vozes, em especial de povos do Sul Global, da América Latina, por exemplo, que tem muito o que nos ensinar em termos de relação com a natureza, com o consumo, com a alimentação e com as águas. Por isso, é essencial difundir as vozes das lutas em prol de territórios de vida plena, intensificando as resistências contra a racionalidade econômica predatória e colonizadora da natureza.
IHU – No livro, o senhor também adverte para o “risco das narrativas promovidas por empresas mineradoras e por governos em defesa da extração de minerais críticos e estratégicos”. A extração desses minerais é, de fato, fundamental no atual estágio de desenvolvimento da humanidade e para assegurar a transição energética? O que seria uma alternativa a esse modelo?
Ricardo Assis Gonçalves – O discurso em defesa da transição energética e das “energias limpas” para enfrentamento das mudanças climáticas ou do desastre ambiental global foi apropriado pelas corporações de mineração e energia. O chamado neoextrativismo verde se tornou um grande negócio global. A fronteira de negócios, como “negócios verdes”, “financiamento climático”, “mercados de carbono” e demais práticas especulativas, continua ativa e em expansão. Isso indica que o capitalismo extrativo global mantém fronteiras de extração em movimento e gera oportunidades de acumulação, inclusive incorporando discursos verdes e de sustentabilidade.
As empresas estão aproveitando dessa narrativa da transição energética e das “energias limpas” para tentar reposicionar sua imagem no Brasil. Entre 2015 e 2019, a ocorrência de três desastres-crimes provocados pelo modelo de mineração fraturou a imagem das mineradoras no país. Os desastres-crime da Samarco-Vale-BHP Billiton em 2015, promovido pelo rompimento da Barragem de Fundão em Mariana-MG, o da Braskem em 2018, provocado em Maceió-AL, e o da Vale em 2019, provocado pelo rompimento da Barragem I em Brumadinho-MG são exemplos dramáticos e que não podem ser esquecidos. Inclusive, esses eventos extremos contribuíram para a difusão de posicionamentos críticos na sociedade contra o modelo predatório e de riscos representado pelas mineradoras no território brasileiro. Foi um período que inclusive fortaleceu o ativismo dos movimentos populares, a difusão de pesquisas críticas frente ao problema mineral.
Sendo assim, avaliamos que a narrativa de que é necessário minerar cada vez mais para extrair minérios para a transição energética, produção de tecnologias e infraestruturas de geração de “energia limpa” que colaborará para salvar o planeta das mudanças climáticas é uma estratégia das corporações para aumentar seus lucros. Esse enredo coloca as corporações mineradoras numa posição na qual se apresentam como essenciais e que, por isso, devem ter prioridade para minerar cada vez mais. Esse quadro é complexo e pode pressionar ainda mais os governos para flexibilização de políticas ambientais e desregulação de leis que ainda protegem territórios de povos originais e tradicionais no Brasil.
Pesquisadores como o professor Bruno Milanez (UFJF) já vêm demonstrando essa contradição e o modo como os próprios termos “minerais críticos” ou “minerais estratégicos” são ambíguos. Segundo seu argumento, apresentado no texto Me chame pelo meu nome: a falácia dos “minerais estratégicos”: “existe um risco em se naturalizar termos como ‘minerais críticos’ ou ‘minerais estratégicos’, pois eles reforçam a narrativa de uma suposta prioridade do setor. Esses termos são, na verdade, vazios de significado, uma vez que não dizem qual seria a estratégia ou o motivo da criticidade. Assim, um nome mais adequado e didático seria Minerais para Armamentos, Tecnologias e Expansão Energética (MATEEs)”.
IHU – É possível conciliar extração mineral com justiça socioambiental?
Ricardo Assis Gonçalves – Há um importante acúmulo de pesquisas críticas ao modelo de mineração no Brasil e em demais países da América Latina que são enfáticos e dizer que mineração e sustentabilidade, ou mineração e justiça socioambiental são inconciliáveis. Por isso, reforço a importância do debate público e popular que vem sendo protagonizado por pesquisadores críticos, organizações e movimentos sociais sobre o modelo de mineração no Brasil. Eles demonstram que há um problema mineral no país e que o modelo de mineração vigente é predatório. Um modelo que nos últimos anos provocou três desastres-crime na mineração no país, como ilustramos acima.
É neste sentido que nos deparamos com as contribuições do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, por exemplo. Eles estão promovendo um debate nacional essencial sobre o modelo de mineração, que reforça a luta pela soberania popular e a defesa da democracia, a luta em defesa de justiça ecossocial, direitos humanos de populações e trabalhadores impactados pelo setor, debate público e transparente sobre projetos de lei sobre o tema que tramitam no Congresso brasileiro, a proposição de territórios livres da mineração, a defesa da consulta prévia livre e informada, o questionamento sobre os ritmos extrativos e de exportação intensivos. Ademais, são movimentos que estão construindo pontes de diálogos envolvendo a sociedade, as comunidades, os povos e as universidades brasileiras para ampliar a discussão sobre o problema mineral no país.
Em resumo, se, por um lado, a extração mineral e a justiça socioambiental são incompatíveis, considerando a permanência do atual modelo de extração mineral, por outro, caminhos vêm sendo apontados por pesquisadores críticos e pelos movimentos populares organizados no Brasil.
IHU – Como avalia os pronunciamentos do governo Lula em relação às terras raras e à soberania brasileira?
Ricardo Assis Gonçalves – Nos últimos meses, em especial a partir de meados de 2025, o governo Lula intensificou as manifestações em torno do tema dos minerais críticos como as terras raras. Do mesmo modo, percebemos uma movimentação do atual governo federal anunciando acordos com diversos países no mundo em torno desse mesmo tema, como aconteceu recentemente em viagem de Lula à Índia e à Alemanha, e provavelmente esse foi um ponto de pauta entre o encontro do presidente brasileiro e Donald Trump nos Estados Unidos, que ocorreu na última quinta feira, dia 07 de maio de 2026.
Em fevereiro de 2026, na Índia, Lula, ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, anunciou um acordo sobre minerais críticos e terras raras. Esse caso envolve dois países do Sul Global e que pertencem ao Brics. Por isso, podemos falar em um importante passo em termos de cooperação Sul-Sul. Naquele momento, Lula disse: “Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”.
Por sua vez, em abril de 2026, o presidente Lula esteve na Alemanha, se reuniu com o chanceler Friedrich Merze e firmou um acordo com esse país europeu com o propósito de cooperação técnica e exploração de terras raras e minerais críticos. Outra vez o presente brasileiro voltou a defender a soberania brasileira e a industrialização nacional. Na Alemanha, Lula enfatizou: “Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities”.
Se avaliarmos estes dois exemplos, constatamos que os pronunciamos do Lula estão alinhados com um discurso de defesa da soberania nacional e do aproveitamento dos bens minerais do país para promover agregação de valor e fomentar o desenvolvimento tecnológico. Contudo, a realidade brasileira, a dura e histórica realidade brasileira, inclusive dos sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), intensificou o modelo megaextrativo e exportador de commodities. Milhões de toneladas de minérios são exportadas anualmente sem beneficiamento para países asiáticos como a China ou para países europeus e da América do Norte. É a síntese do Brasil na condição de “periferia extrativa global”.
O Brasil não implementou e consolidou uma política de largo prazo com foco na industrialização dos seus minerais. O que presenciamos foi e é o aprofundamento das políticas de base extrativistas e de aprofundamento da condição do país como exportador de matérias-primas e produtos semielaborados. Isso explicita que o setor mineral não teve, e continua não tendo, uma posição enquanto estratégico, de fato, para o desenvolvimento da economia nacional.
Isso vem se repetindo como o caso das terras raras, no qual constatamos a ausência de um papel protagonista e ativo do Estado. Junto ao professor Bruno Milanez, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), escrevemos um texto recente, intitulado “A rede extrativa de terras raras e o populismo mineral no Brasil”, no qual argumentamos o seguinte: “Há no Brasil a livre circulação de empresas de capital nacional e internacional, que se beneficiam das condições existentes de enraizamento da rede extrativa de terras raras e no território, as quais favorecem a extração mineral voltada à exportação. Assim, tais condições de enraizamento mostram-se mais alinhadas aos interesses de outros países e regiões do que aos do próprio Brasil, cujas ações se concentram na simples atração de investimentos estrangeiros. Nesse cenário, caracterizamos a política brasileira sobre terras raras como um populismo mineral, entendido como um conjunto de ações performativas e institucionais que não conseguem alterar de forma concreta as condições de enraizamento das empresas mineradoras no país”.
Em síntese, é um modelo que mantém o país numa posição periférica e exportadora de matérias-primas. Portanto, estamos diante de uma distância do que está no discurso do governo Lula (caracterizado por nós como populismo mineral) e o que, de fato, ocorre nos territórios e na política mineral brasileira, que favorece o modelo megaexportador.
IHU – Como interpreta o encontro do presidente Lula com Trump e a discussão sobre as terras raras na semana passada?
Ricardo Assis Gonçalves – Como se esperava, o tema dos minerais críticos e estratégicos como terras raras foi discutido na reunião de Lula com Donald Trump nos Estados Unidos, ocorrida no dia 07 de maio de 2026. Depois do encontro com o presidente americano, no mesmo dia, Lula concedeu uma coletiva de imprensa na Embaixada do Brasil em Washington e como vem fazendo em distintos pronunciamentos, argumentou a questão dos minerais críticos e soberania nacional. Ademais, disse o seguinte: “Nós não temos preferência. O que nós queremos é fazer parceria, compartilhar com empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas, quem quiser participar conosco para ajudar a fazer mineração, para fazer a separação e para produzir a riqueza que essas terras raras nos oferecem, estão sendo convidados para ir ao Brasil".
Acredito que podemos interpretar a fala de Lula a partir do encontro com Trump focados em dois pontos: o primeiro tem relação com o contexto geopolítico global. Lula sabe que o subsolo brasileiro está em disputa envolvendo grandes economias mundiais, mas, especialmente os Estados Unidos e a China. Temos o avanço dos Estados Unidos promovendo investimentos e adquirindo empresas brasileiras de mineração, mas não podemos olvidar o fato de que a China também está fazendo isso há um tempo. Alguns exemplos se destacam: em 2011 um consórcio de corporações chinesas comprou 15% da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), situada em Araxá-MG, e a maior produtora global de nióbio; em 2016 o grupo China Molybdenum Co., Ltd (CMOC) comprou as operações de nióbio e fosfato da Anglo American em Catalão-GO e Ouvidor-GO; em 2024, por sua vez, a chinesa CNMC Trade Company Limited adquiriu a Mineração Taboca, situada em Presidente Figueiredo-AM, onde detém operações de estanho, nióbio e tântalo; em 2025 foi a vez dos chineses anunciarem a compra das operações de níquel da Anglo American em Barro Alto-GO e Niquelândia-GO, além de projetos do mesmo metal em Jacaré-PA e Morro Sem Boné-MT; finalmente, destaca-se que no início deste ano (2026) o Grupo Votorantim anunciou a venda do controle da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) para um consórcio constituído pela chinesa Chinalco e a anglo-australiana Rio Tinto.
Esses exemplos da entrada de corporações chinesas comprando e controlando megaempreendimentos de minerais críticos e estratégicos no Brasil (além de setores de energia e infraestrutura) demonstram que o imperialismo extrativo atuante no subsolo do Brasil tem a China como uma grande protagonista há muitos anos. Para os Estados Unidos, esse avanço chinês em setores de mineração, energia e infraestruturas em países da América Latina, neste caso o Brasil, é uma ameaça ao seu poder e atuação geoeconômica. Tanto Lula quanto Trump estão cientes disso. Mas, o discurso do Lula nos Estados Unidos deixou evidente que o seu governo continuará fortalecendo a entrada e expansão de grandes projetos extrativos de minerais críticos das distintas potências, mantendo a condição de inserção do Brasil na órbita imperial enquanto periferia extrativa global.
O segundo ponto referente ao encontro de Lula e Trump e ao pronunciamento de Lula nos Estados Unidos sobre minerais críticos e estratégicos tem conexão com o quadro de aprovação do Projeto de Lei 2780/24 no Plenário da Câmara dos Deputados um dia antes da reunião entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos. Lula comenta sobre isso na coletiva imprensa que concedeu nos seguintes termos: "Disse ao presidente Trump que não só fizemos uma coisa extraordinária aprovando na Câmara ontem a lei sobre a questão dos minerais críticos, como a aprovação de um Conselho sob a coordenação da Presidência da República, tratando a questão dos minerais críticos como uma questão de soberania nacional".
Uma das conclusões que podemos sublinhar em relação a isso é o fato de que Lula quis demonstrar que o Brasil está avançando em uma política nacional de minerais críticos e estratégicos, dada sua relevância no quadro geopolítico internacional. Contudo, é fundamental dizer que a aprovação do Projeto de Lei 2780/24 ocorreu mediante contradições estruturais do modelo de mineração brasileiro. É um projeto de indica a manutenção da expansão da fronteira extrativa mineral de maneira intensiva e megaexportadora; mantém privilégios às corporações mineradoras através de políticas de incentivos de créditos fiscais; ausência de participação popular no debate sobre o modelo de mineração diante de uma conjuntura de fomento aos projetos extrativos e de ameaças aos territórios e à sociobiodiversidade local; indicativo de apoio à transformação mineral nacional, mas sem discussão dos possíveis impactos e ameaças ambientais dessa etapa da rede de produção, em especial na escala dos municípios onde estes megaprojetos estão ou serão territorializados.
IHU – Como a exploração das terras raras seria conduzida no país num possível governo Caiado à frente da Presidência da República?
Ricardo Assis Gonçalves – Para refletir sobre esta questão gostaria de primeiro apresentar uma breve interpretação do governo Caiado em Goiás em termos de relação com os setores megaextrativistas, neste caso a mineração.
As movimentações do governo Caiado em Goiás em termos da política mineral focada em minerais críticos e estratégicos, incluindo as terras raras no estado, é um exemplo para refletirmos que possível caminho seria conduzido por ele caso esteja no poder federal.
Na sequência de dois mandatos, desde 2019, o governo Caiado representou um contexto acompanhado por políticas de incentivo e apoio direto à mineração. Isso ocorreu em três perspectivas: a primeira é discursiva. Desde o início do primeiro mandato, em 2019, o governo Caiado apresentou-se como parceiro das mineradoras e disposto a transformar a relação do estado com as empresas. A segunda realizou-se no campo da ação política, econômica e ambiental, através de leis (como de licenciamento ambiental, alinhada com setores extrativistas; ou a lei que propõe a criação de “as zonas especiais de minerais críticos”), assinatura de protocolo de intenções com mineradoras, planos e programas de incentivo ao setor. Por fim, a territorial, que sinaliza a manifestação espacial de expansão do setor através de infraestruturas e impactos ambientais nas comunidades.
Um exemplo ilustrativo do posicionamento do governo Caiado foi a assinatura, em março de 2026, de um memorando de entendimento com os Estados Unidos, envolvendo cooperação em minerais críticos e terras raras. Segundo as palavras do governador, “esta parceria hoje assinada propõe o desenvolvimento do estado, o auxílio no mapeamento dos nossos potenciais minerais e também a absorção de tecnologia, avançando na pesquisa, para que Goiás não seja apenas um exportador de matéria bruta”. Enquanto esses argumentos são apresentados, a história da mineração goiana evidencia um território especializado na exportação de produtos primários e semielaborados, configurando-se como uma periferia extrativa global. Condição essa que tende a se manter à medida que o estado vem abrindo seu subsolo à atuação de empresas e investidores estrangeiros para a exploração de terras raras.
Em resumo, um possível governo Caiado na condução do Brasil aprofundaria um neoextrativismo ultraliberal periférico, megaexportador de commodities e de privilégios aos setores que dependem da manutenção do latifúndio, da abertura do subsolo, da terra e das águas nacionais ao capital estrangeiro. Estaríamos diante de um modelo de desenvolvimento que pode ser traduzido numa síntese feita por Roberto Schwarz no livro “Um mestre na periferia do capitalismo”: um possível governo Caiado conduziria o Brasil ao que o crítico literário chamou de “desenvolvimento moderno do atraso”. Seria o aprofundamento do Brasil na condição de periferia extrativa global.
Um possível governo Caiado na condução do Brasil aprofundaria um neoextrativismo ultraliberal periférico, megaexportador de commodities e de privilégios aos setores que dependem da manutenção do latifúndio, da abertura do subsolo, da terra e das águas nacionais ao capital estrangeiro – Ricardo Assis Gonçalves
IHU – Deseja acrescentar algo?
Ricardo Assis Gonçalves – Gostaria de dizer que as reflexões sobre o modelo de mineração no Brasil, no atual quadro de debate global sobre temas como minerais críticos, transição energética, novas tecnologias como Inteligência Artificial e o avanço das economias de guerra (dada a necessidade da indústria bélica por mais e mais minerais), é também um debate sobre o projeto de país que almejamos construir. Este deve ser um debate público permanente, não limitado às esferas acadêmicas.
Certamente, neste ano de eleições presidenciais, a discussão sobre terras raras estará na pauta dos distintos projetos de Brasil em disputa. Um retorno da extrema direita ultraliberal extrativista representa um risco para os territórios, a saúde de trabalhadores, a sociobiodiversidade dos distintos sistemas biogeográficos brasileiros e a soberania sobre o subsolo nacional.
Vivenciamos um momento no qual o debate público sobre esta temática tem muito a contribuir com a interpretação de um problema que está implicado na construção de um novo projeto para o país, no qual a apropriação predatória da natureza não seja imperativa do regime de desenvolvimento. Afinal, a economia extrativa brasileira depende da mineração como um dos principais setores da pauta exportadora, porém a permanência do modelo atual representa a continuidade de contradições, conflitos e injustiças, característicos de megazonas de sacrifício a céu aberto no Sul Global.