ChatGPT: “Comunismo 2.0 ou a destruição em massa da humanidade”. Comentário de Rodrigo Petronio

Foto: Guns | Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Mai 2023

"Minha modesta opinião é que esse novo mundo vai nos oferecer duas saídas: um Comunismo 2.0 ou a destruição em massa da humanidade. Não vai haver terceira opção. Estes são apenas alguns pontos. O debate é infinito e cheio de meandros".

O comentário é de Rodrigo Petronio, publicado em sua página pessoal do Facebook, 22-04-2023.

Escritor e filósofo, Rodrigo Petronio é professor titular da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP. Desenvolve pós-doutorado no Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital – TIDD/PUC-SP sobre a obra de Alfred North Whitehead e as ontologias e cosmologias contemporâneas. É também doutor em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ.

Possui dois mestrados: em Ciência da Religião, pela PUC-SP, sobre o filósofo contemporâneo Peter Sloterdijk, e em Literatura Comparada, pela UERJ, sobre literatura e filosofia na Renascença. Entre suas publicações poéticas, destacamos História natural (Gargântua, 2000), Assinatura do sol (Gêmeos R, 2005) e Pedra de luz (A Girafa, 2005). Atualmente divide com Rodrigo Maltez Novaes a coordenação editorial das Obras Completas de Vilém Flusser pela Editora É.

Pelo IHUPetronio publicou Mesoceno. A Era dos Meios e o AntropocenoCadernos IHU ideias número 339; Yuval Noah Harari: pensador das eras humanasCadernos IHU ideias número 329; e Desbravar o Futuro. A antropotecnologia e os horizontes da hominização a partir do pensamento de Peter SloterdijkCadernos IHU ideias número 321.

Eis o texto.

Algumas impressões bem preliminares sobre ChatGPT:

1.

O importante quando se fala de IAs é discriminar inteligência, senciência e consciência. Inteligência é uma forma de discriminar e quantificar dados de modo exponencialmente cada vez mais eficaz. Todos os seres vivos possuem inteligência, pois todos processam algoritmos da natureza. A senciência diz respeito à sensibilidade à dor e ao prazer. Uma IA pode ser senciente? Sim.

Quando se fala de IA, em geral imaginamos máquinas. Mas há um vasto campo a ser explorado da computação biológica. Quando informações operáveis foram inscritas em genes, a fronteira artificial-natural deve se dissolver ainda mais. A biocomputação pode gerar IAs sencientes e autônomas, que não sejam apenas espelhos de nossos sentimentos.

E a consciência? Consciência pressupõe intencionalidade, algo cuja definição é praticamente impossível. Nada impede que um computador universal futuro compute todos os processos dos seres vivos, incluindo os humanos. Mas para computar a experiência que conduziu a esses dados sutis conscientes, ele precisaria rebobinar, quantificar e qualificar todas as informações do universo desde a sua origem. Portanto, as IA por enquanto são apenas sistemas inteligentes. A senciência e a consciência são ainda pura mistificação.

2.

É importante tratar o GPT como apenas uma tecnologia entre outras? Mais ou menos. Do machado como extensão das mãos à engenharia hidráulica como extensão do sistemas circulatórios e aos computadores como extensões do sistema nervoso central: todas as tecnologias se limitaram a imitar estruturas materiais humanas e meta-humanas. As IAs gerativas não aspiram à materialidade. Aspiram ao simbólico. Elas não imitam: hackeiam. E hackeiam algo que é uma propriedade singular dos seres vivos: a replicabilidade do DNA. Não imitam. Criam a partir de dados. E criam a partir de uma singularidade humana: a linguagem. Há aqui uma mudança de natureza, não de grau. É preciso estar atento às consequências disso.

3.

Devido a essa mudança de natureza, não podemos em hipótese nenhuma menosprezar o seu impacto negativo ou mesmo devastador na sociedade, sobretudo no caso de um desemprego estrutural e irreversível. Esse impacto só pode ser corrigido por meio de políticas públicas, não por meio de ladainhas neoliberais autorreguladoras. Contar que estas políticas vão existir é contar com o ovo antes da galinha. Então o debate sobre GPT precisa obrigatoriamente ser político-econômico, não apenas tecnológico.

4.

Um desserviço que deve ser evitado: dizer que as IAs são burras. Qualquer teste empírico simples com esses sistemas deixaria um Slavoj Zizek constrangido.

5.

Um dos maiores perigos das IAs gerativas é a deep fake: a falsificação profunda. Contudo, preparem-se, pois se não houver um colapso planetário antes, o futuro será holográfico. Feito de mundos dentro de mundos, como matrioskas. O GPT é apenas um balão de ensaio.

6.

Os debates em torno de GPT estão ocultando uma revolução de maior impacto ainda: a computação quântica. Outra mudança de natureza, não de grau. E uma mudança escalável e exponencial. O GPT é o jardim de infância da computação quântica. Fiquemos atentos.

7.

A carta de suspensão das atividades com o GPT é um bom documento sobre a necessidade de debate. Mas oculta um misto de inoperosidade e de cinismo. Uma disputa entre quem vai largar na frente e ganhar bilhões com a tecnologia. Isso revela o abismo entre ética e tecnologia. Não é possível legislar antes do impacto. E legislar depois do impacto pode ser tarde demais. Nesse abismo a cadela do fascismo gera seus filhotes. Diante desse dilema, minha visão é sempre consequencialista: liberar o uso e ir regulando os efeitos de modo pragmático. Por isso, a importância dos governos, de políticas de proteção de dados, de uma legislação severa.

8.

As IAs gerativas tendem a se acomodar e a ser mais uma tecnologia dentre outras tecnologias. Mas, como disse, deve-se politizar o debate. Se unirmos as IAs à possibilidade de desemprego estrutural, mutação ambiental, narrativas produzidas por deep fake, neofascismos, refugiados climáticos, deterioração do estado de direito, decrescimento econômico, dentre outros, quando montamos o quebra-cabeça a imagem que surge é monstruosa.

Minha modesta opinião é que esse novo mundo vai nos oferecer duas saídas: um Comunismo 2.0 ou a destruição em massa da humanidade. Não vai haver terceira opção. Estes são apenas alguns pontos. O debate é infinito e cheio de meandros.

Leia mais