25 Abril 2026
A hostilidade dos Pais Fundadores e a heresia do americanismo: a disputa entre o papa e o magnata se origina de uma fonte profunda. A decisão do presidente de deixar a situação explodir coloca os católicos em uma posição desconfortável. Especialmente J.D. Vance.
A reportagem é de Mattia Ferraresi, publicada por Domani, 19-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
A dura disputa político-teológica desencadeada pelas falas de Donald Trump contra Leão XIV se origina de uma fonte muito profunda. A rixa não tem a ver apenas com o debate sobre a guerra no Irã, com o comportamento do eleitorado católico no futuro próximo ou com o destino de dois potenciais candidatos à presidência, mas com a concepção que os Estados Unidos têm de si mesmos, de sua missão moral e de seu papel no mundo. E com a Questão Romana em sua versão estadunidense, que evidentemente ainda permanece sem solução. O primeiro papa oriundo dos Estados Unidos conhece melhor do que qualquer outro pontífice antes dele aquele emaranhado de desconfiança, mal-entendidos e tentativas desajeitadas de integração que caracterizaram a presença dos católicos nos EUA, nascidos como um projeto ao mesmo tempo secularizado e protestante, gnóstico e bíblico, secular e messiânico. A experiência estadunidense começou com os puritanos, com a intenção de restabelecer no Novo Mundo a aliança rompida entre Deus e o povo de Israel, e a moderação laica de seu projeto de autogoverno era uma resposta às guerras europeias entre católicos e protestantes.
Os Pais Fundadores dos Estados Unidos colocaram a tolerância religiosa no centro da estrutura governamental, mas inevitavelmente tomaram esse conceito de John Locke, o mais influente dos filósofos que moldaram a construção estadunidense, que teve o cuidado de especificar que a tolerância religiosa se estendia a todos, exceto aos papistas. Os católicos, em sua visão, eram cidadãos traiçoeiros e desleais que não podiam ser acolhidos como os demais na nascente sociedade liberal.
Assim, a relação controversa com Roma pesou desde o início sobre o projeto de uma nação "sob Deus" que, desde suas origens, aspira cumprir alguma promessa evangélica na história, mas quer fazê-lo em competição, não em colaboração, com Roma. Robert Prevost, de Chicago, sabe disso perfeitamente, e quando proclama no conturbado noroeste de Camarões que "Bamenda, tu és a cidade sobre a colina", está dizendo algo enorme para um país, o seu, que fez da imagem evangélica da cidade na colina que resplendece, para que todas as nações a possam admirar, uma parte central de sua autoconsciência, a ponto que desde sempre os presidentes a citam sem reservas.
Ronald Reagan era particularmente apegado a essa expressão, que o papa estadunidense inverte, dirigindo-a a um lugar remoto e frágil, muitas vezes esquecido até mesmo na própria região. Trata-se de uma enormidade simbólica com a qual Leão XIV desafia a ideia civilizadora e evangelizadora que os Estados Unidos têm de si mesmos, e que na curva histórica do presente se manifesta também na enésima guerra no Oriente Médio, à qual se opõe com crescente veemência um papa que inicialmente parecia pacato, mas que, na verdade, não é.
No sábado, durante o voo de Camarões para Angola, Leão XIV fez questão de enfatizar que o discurso, que também continha uma referência aos "senhores da guerra" e a um mundo "devastado por um punhado de tiranos", havia sido escrito antes do ataque postado por Trump no Truth.
"Espalhou-se uma certa narrativa, não totalmente precisa, devido à situação política criada quando, no primeiro dia da viagem, o presidente dos Estados Unidos proferiu algumas declarações a meu respeito", disse o papa aos jornalistas.
"Boa parte do que foi escrito desde então não passa de um comentário sobre um comentário, na tentativa de interpretar o que foi dito", acrescentou, mas o discurso em Bamenda "foi preparado bem antes daquele presidente fazer comentários sobre mim e a mensagem de paz que estou promovendo. No entanto, foi interpretado como se eu estivesse tentando debater com o presidente novamente, o que não é de forma alguma de meu interesse".
Das margens ao poder
Ao longo de 250 anos de história estadunidense, as relações evidentemente evoluíram, os preconceitos anticatólicos que se manifestaram em violência e exclusões sistemáticas de imigrantes irlandeses e italianos diminuíram com o tempo.
Os católicos foram sendo integrados cada vez mais na vida política. A disputa sobre as heresias "americanistas", condenadas por outro Papa, Leão XIII, se esvaziou. O Concílio Vaticano II redefiniu a relação entre a Igreja e a modernidade, figuras como o jesuíta John Courtney Murray buscaram reconciliar o catolicismo e o projeto liberal, dois católicos foram eleitos para a Casa Branca, a luta contra a União Soviética, travada conjuntamente por Reagan e João Paulo II, confortou gerações de católicos estadunidenses (especialmente à direita) sobre o fato de que os preconceitos de Locke haviam sido arquivados definitivamente e sempre se minimizou prudentemente quando os alertas do Papa entravam em forte conflito com aqueles da Casa Branca. Veja-se a guerra no Iraque.
O alvoroço dialético e psicológico gerado pela posição de Leão XIV demonstra que a ferida ainda está aberta. E, mais uma vez, o estopim é uma guerra, algo a que o Papa se opõe não apenas por práxis magisterial, mas também por realismo político, visto que os desastres causados pelas iniciativas militares estadunidenses neste século deveriam ser evidentes para todos.
A peculiaridade dessa disputa reside no fato de que os católicos, nesse ínterim, se tornaram a força cristã mais importante no cenário estadunidense, corroendo aquele poder wasp (brancos anglo-saxões protestantes) que, não muitas décadas atrás, trabalhava incansavelmente para marginalizar os papistas. Os católicos são numericamente a maior denominação cristã nos Estados Unidos e emergiram como uma força política e eleitoral formidável. O católico Joe Biden levou muitos dos seus para a Casa Branca, e Trump até o superou em seu segundo mandato. Mais de 30% dos membros do gabinete são católicos, e entre eles estão duas figuras-chave: o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, com delegação para tudo, Marco Rubio. Na controversa reunião no Pentágono em janeiro passado, o cardeal Christophe Pierre, então núncio apostólico nos Estados Unidos, se viu diante do subsecretário Elbridge Colby, católico e sobrinho do diretor da inteligência estadunidense, que colaborou estreitamente com João Paulo II na luta contra a União Soviética.
Evidentemente, esse protagonismo católico na vida pública não agrada a todos no governo. Atualmente, a guerra no Irã é o tema mais candente das relações, mas um dos pontos de maior atrito entre o governo e a Igreja é a imigração, assunto em que se entrelaçam as razões do acolhimento, mas também as tendências demográficas. A imigração nos Estados Unidos é predominantemente de latinos, a grande maioria católicos, e as batidas do ICE e o fechamento da fronteira têm o efeito de retardar uma mudança demográfica e religiosa que parece inevitavelmente destinada a aumentar as fileiras dos católicos.
Vance e Rubio
A decisão de Trump de exacerbar as tensões que vêm se acumulando há meses colocou os católicos estadunidenses na posição desconfortável de ter que escolher com maior clareza, sem poder contar com impossíveis conciliações ou terceiras vias, se ficar do lado do homem de branco ou do homem do boné vermelho.
Ao votar em Trump duas vezes, a maioria dos eleitores católicos demonstrou confiança na possibilidade de uma vida toda MAGA e Igreja, mas agora todas as certezas estão vacilando. E, acima de tudo, vacilam os católicos no poder. Trump, nascido presbiteriano e que ficou sem denominação, não por acaso enviou Vance — a quem vem atormentando há meses — para repreender o papa na televisão por suas ingerências em assuntos que não lhe dizem respeito, chegando até a declarar que ele deve ser muito cauteloso ao falar de teologia, sugerindo uma revisão da teoria da guerra justa. Rubio foi poupado, por ora, de um confronto direto com o chefe da Igreja, mas os dois são católicos culturalmente diferentes. Rubio é filho de cubanos, criado precisamente no tipo de fé conservadora que ensinava a conciliar as razões do trono e as do altar, optando pelo trono nos poucos casos em que a situação resvalava para o atrito. Veja-se, mais uma vez, a guerra no Iraque.
Vance é um convertido pós-liberal que cultiva (ou cultivava) a ideia de uma mudança paradigmática na relação entre fé e política, a favor de uma abertura a uma influência mais ampla dos juízos de fé sobre a lei e o poder. Em certo sentido, Vance havia prometido aos católicos conservadores uma profunda reforma das relações, não um pequeno reposicionamento.
Trump o está obrigando a engolir de volta todas as suas palavras.
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