20 Fevereiro 2026
Nada deu dramaticamente errado nas relações transatlânticas na Conferência de Segurança de Munique (MSC). Após o choque da edição do ano passado, quando o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, lançou um ataque frontal à Europa, o tom aparentemente mais conciliatório do secretário de Estado Marco Rubio foi recebido por muitos ouvintes europeus como tranquilizador. Mas a mensagem que o governo Trump está enviando à Europa hoje é realmente diferente daquela do ano passado?
O artigo é de Nathalie Tocci, diretora do Instituto de Assuntos Internacionais, na Itália, professora honorária da Universidade de Tübingen, publicado no jornal La Stampa, 18-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Há um ano, Vance acusou o Velho Continente de se render à suposta tirania dos "liberais" e de perder de vista os laços culturais entre os dois lados do Atlântico. Seu ataque deixou os europeus perplexos, que, embora geralmente muito inclinados a se concentrar em seus próprios problemas, não consideram as restrições à liberdade de expressão entre suas principais preocupações. O vice-presidente dos EUA também chocou o continente ao denunciar os supostos "inimigos internos" woke, enquanto simultaneamente apoiava os nacionalistas de extrema-direita em toda a Europa. O trauma foi tão profundo que, um ano depois, o chanceler alemão Friedrich Merz não poupou palavras em seu discurso de abertura desta MSC, declarando que a batalha do mundo Maga não é aquela da Europa.
Muitos temiam um novo drama transatlântico, mas esperavam uma mensagem de tranquilização, especialmente porque a representação do governo dos Estados Unidos foi confiada, desta vez, à sua figura diplomática. Os europeus, ansiando por solidariedade transatlântica, escolheram encontrá-la no discurso de Marco Rubio. O Secretário de Estado, de fato, celebrou o patrimônio cultural, a história e a religião compartilhadas pelo Ocidente, afirmando que Washington não está interessado em gerir o declínio do Ocidente, mas determinado a liderar seu renascimento civilizador.
No entanto, sob a superfície, o discurso de Vance no ano passado e o de Rubio deste ano são duas faces da mesma moeda. A mensagem de Vance era direta, ofensiva, até mesmo grotesca. Em um momento em que a democracia está em retrocesso em grande parte do mundo, afirmar que o principal problema da Europa é a falta de liberdade de expressão é simplesmente absurdo.
A mensagem de Rubio foi mais sutil, mas a essência permanece a mesma: a Europa e os EUA deveriam ser definidos por valores etnopolíticos de cultura, tradição e religião. O fato de a Europa também ter sido o berço de nacionalismo, racismo, fascismo e colonialismo não parece ser motivo de embaraço. A Europa pensava ter virado a página, definindo-se em oposição ao seu passado, abraçando valores cívicos e iluministas como democracia, direitos humanos, Estado de Direito, multilateralismo e integração, e rejeitando o flagelo do nacionalismo. Mas o nacionalismo é celebrado pelos Maga, enquanto a ordem baseada em regras não só está morta, como os próprios líderes europeus reconhecem, mas é até considerada "estúpida", segundo Rubio. Se a civilização ocidental deve ser cultivada, mas as regras não, a visão delineada por Rubio é fundamentalmente a de um império. As Américas e a Europa estão unidas por tradição e religião.
Suas forças nacionalistas lutam conjuntamente contra o globalismo, a "cultura do cancelamento" e o suposto cancelamento da civilização causado pela migração. Mas o "século ocidental" desejado por Washington será caracterizado pelo poder bruto, exercido principalmente dentro do próprio império pelos fortes — os Estados Unidos — contra os fracos: os estados europeus, divididos entre si, e os países da América Latina. Dentro do império, instituições podem e devem existir, a começar pela OTAN. Mas a intenção dos Estados Unidos é clara: vocês pagam (o que é justo), mas somos nós que decidimos (o que não é). Haverá outros impérios no mundo, entre os quais a Rússia e a China, e o império estadunidense competirá com eles. No entanto, também está pronto para colaborar, talvez até conspirar, especialmente se o preço da conspiração for pago por seus súditos coloniais.
A mensagem de Rubio é mais sofisticada do que a de Vance porque é mais estratégica e menos provocativa. Mas é tão perigosa quanto, senão mais, precisamente porque reduziu a tensão transatlântica e instilou uma falsa sensação de calma na Europa. Se os Estados Unidos são guiados por uma visão imperialista na qual não arcam com os custos, mas continuam a tomar as decisões, e se os seus interesses divergirem daqueles da Europa — com Washington não considerando a Rússia de Putin uma ameaça à sua segurança nacional —, os europeus deveriam colocar suas esperanças de segurança exclusivamente em uma OTAN europeizada? Um pilar europeu na OTAN é, sem dúvida, o caminho mais eficaz para uma Europa segura com menos influência dos EUA. É certamente muito mais viável do que a defesa europeia. Mas, sozinha, não pode garantir a segurança europeia se os EUA prosseguirem com a sua atual trajetória nacionalista e imperialista. Se os europeus se deixarem enganar por uma falsa sensação de segurança enquanto saem do lotado hotel Bayerischer Hof de Munique, correm o risco de cair diretamente na armadilha que os Estados Unidos dos MAGA lhes prepararam.
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