14 Abril 2026
O vice-presidente dos EUA, católico, defende abertamente Trump e critica o Papa. Leão alerta para o risco de tirania.
A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Repubblica, 14-04-2026.
O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, católico, fez coro às críticas do presidente Donald Trump ao Papa Leão XIV, argumentando que o Vaticano deveria "se ater a questões morais". Em seu segundo dia na África, o Pontífice visitou hoje Hipona, a cidade argelina onde nasceu Santo Agostinho.
"Cuide da moralidade"
Em entrevista ao programa Special Report with Bret Baier, da Fox News, Vance comentou, em particular, sobre a passagem em que Trump, em seu site Social Truth, escreveu que "Leão deveria se recompor como Papa, usar o bom senso, parar de bajular a esquerda radical e se concentrar em ser um grande Papa, não um político".
“Acho que o presidente tem a prerrogativa de definir a política externa americana”, disse o vice-presidente dos EUA. “Ele tem a prerrogativa de definir a política de imigração americana. Ele precisa zelar pelos interesses dos Estados Unidos da América. E isso inevitavelmente significa que, quando o Vaticano comenta sobre questões políticas, obviamente haverá concordância e discordância. Acho isso razoável e não é uma ótima notícia, mas certamente”, continuou Vance, “acho que em alguns casos seria melhor para o Vaticano se ater a questões morais, lidar com o que está acontecendo na Igreja Católica e deixar o presidente dos Estados Unidos se concentrar em definir políticas. Mas quando há conflito, há conflito. Não estou muito preocupado com isso. Acho que é algo natural e tenho certeza de que acontecerá no futuro, e não é um grande problema que já tenha acontecido no passado.”
"Ele está cuidando disso"
No X, o jesuíta americano James Martin comentou: “Em alguns casos, seria melhor para o Vaticano se ater a questões de moralidade — em outras palavras, exatamente o que o Papa Leão XIV está fazendo: se pronunciando sobre questões de moralidade, como guerra e paz, e cuidado com os pobres, os famintos e os migrantes. Essas são questões fundamentalmente morais.”
“O coração de Deus com as crianças”
"O coração de Deus está dilacerado por guerras, violência, injustiça e mentiras", disse o Papa hoje, elogiando o trabalho realizado no Lar das Irmãzinhas dos Pobres para Idosos em Annaba, na Argélia. "Mas o coração de nosso Pai não está com os ímpios, os arrogantes ou os orgulhosos: o coração de Deus está com os humildes e os simples, e com eles Ele avança, dia após dia, o Seu Reino de amor e paz".
Poder, força e sabedoria
Em mensagem aos participantes da sessão plenária da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, que decorre no Vaticano no dia de hoje até quinta-feira, intitulada "Os Usos do Poder: Legitimidade, Democracia e a Reescrita da Ordem Internacional", o Papa escreve que "a doutrina social católica considera o poder não como um fim em si mesmo, mas como um meio dirigido ao bem comum. Isto implica que a legitimidade da autoridade não depende da acumulação de poder econômico ou tecnológico, mas da sabedoria e da virtude com que é exercida".
Sem moralidade, corre-se o risco de tirania
Quanto à democracia, "longe de ser um mero procedimento", ela "reconhece a dignidade de cada pessoa e convida cada cidadão a participar responsavelmente na busca do bem comum". A democracia, porém, "só se mantém sólida quando está enraizada na lei moral e numa verdadeira visão da pessoa humana. Sem esse fundamento, corre o risco de se transformar numa tirania majoritária ou numa máscara para a dominação das elites econômicas e tecnológicas. Os mesmos princípios", continua o Papa, "que orientam o exercício da autoridade dentro das nações devem igualmente nortear a ordem internacional — uma verdade especialmente importante de se lembrar num momento em que rivalidades estratégicas e alianças instáveis estão remodelando as relações globais. É preciso lembrar que uma ordem internacional justa e estável não pode surgir de um mero equilíbrio de poder ou de uma lógica puramente tecnocrática. A concentração do poder tecnológico, econômico e militar nas mãos de poucos ameaça tanto a participação democrática dos povos quanto a harmonia internacional".
A viagem à Argélia
Enquanto isso, o Papa está na Argélia, onde chegou ontem, sendo o primeiro pontífice da história a visitar o país do Magreb. Esta é a primeira parada de uma viagem de onze dias pela África, que o levará, nos próximos dias, a Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Como prior dos Agostinianos, Prevost já esteve na Argélia duas vezes. Hoje, às 9h20 (horário local, 10h20 na Itália), o Papa embarcou em um avião em Argel com destino a Annaba, a antiga cidade de Hipona, a mais de 400 quilômetros da capital. A chegada do Papa está prevista para as 10h30 (11h30 em Roma), e sua primeira parada será uma visita ao sítio arqueológico. Em seguida, ele visitará o Abrigo das Irmãzinhas dos Pobres, uma instituição localizada na colina de Annaba, conhecida como Lala Bouna, ao lado da Basílica de Santo Agostinho. É dedicada a acolher e cuidar de idosos necessitados ou sem família, incluindo muçulmanos. Aqui, o Papa Leão XIV fará uma saudação, seu primeiro discurso do dia. Às 12h10 (13h10, horário italiano), ele se reunirá em particular com a comunidade agostiniana. O segundo e último evento público do dia será a missa às 15h30 (16h30, horário local) na Basílica de Santo Agostinho. Não é apenas um local de culto, mas um verdadeiro ponto de encontro: mais de 18.000 peregrinos a visitam todos os anos, incluindo muçulmanos e judeus.
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