13 Abril 2026
O Papa Leão XIV "não é anti-Trump, ele é pró-Jesus", que em seu ministério público disse: "Bem-aventurados os pacificadores", e não "Bem-aventurados os belicistas". Essa explicação foi dada pelo padre jesuíta americano James Martin.
A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi, jornalista, com James Martin, publicada por La Repubblica, 13-04-2026.
Eis a entrevista.
Nos últimos dias, o Papa Leão XIV tem se mostrado cada vez mais crítico em relação a Donald Trump. Por quê?
Em primeiro lugar, o Santo Padre raramente menciona políticos. Ele fala de forma mais geral sobre guerra e paz. Portanto, o nome do Presidente Trump só é mencionado quando o Papa é questionado diretamente sobre ele, como às vezes acontece durante suas coletivas de imprensa improvisadas em Castel Gandolfo. Mas seus comentários recentes parecem ter sido motivados — e não estou falando em nome do Papa — pela declaração do Presidente Trump de que deseja destruir toda uma "civilização". Isso certamente merecia uma resposta do Vaticano, e ela foi recebida.
Por que figuras da administração americana, como o Secretário de Guerra Pete Hegseth, estão tentando usar o cristianismo para justificar a guerra no Irã?
Novamente, não posso falar por eles, mas parece que estão tentando justificar a guerra no Irã aos olhos de outros cristãos. O problema é que, quando dizem que Deus (ou Jesus) está apenas do nosso lado, isso implica que Deus (ou Jesus) deve estar contra o outro lado. Mas se Deus está do lado de alguém, é do lado dos que têm o coração quebrantado, como dizem os Salmos.
O que você acha do fato de o núncio apostólico da época, o cardeal Christophe Pierre, ter sido convocado ao Pentágono para uma reunião depois que o Papa denunciou o retorno da guerra?
Não tenho certeza da veracidade desta notícia. Ele foi "convocado" ao Pentágono, "convidado" ou simplesmente teve uma reunião com algumas pessoas de lá? Quem sabe? O Cardeal Pierre, no entanto, é um homem muito inteligente, um excelente sacerdote e um diplomata consumado. Ele sabe como lidar com situações delicadas. Afinal, a Igreja lida com líderes políticos e militares pelo menos desde a época de Carlos Magno. Isso não é novidade.
O Papa Leão XIV denunciou o fato de que "até mesmo o santo Nome de Deus, o Deus da vida, está sendo arrastado para discursos de morte": qual é a sua preocupação e qual é a sua estratégia para responder a esse risco?
Pareceu-me que o Papa Leão XIV estava incomodado com as frequentes referências a Deus (e a Jesus) feitas pelo governo Trump, especialmente por Pete Hegseth. Era realmente inacreditável ouvir alguém invocar Jesus enquanto se preparava para destruir, como disseram, 'uma civilização inteira'. Como observou o Papa Leão XIV, Deus é o Deus da vida. Basta olhar para o Antigo Testamento. Deus diz: 'Escolham a vida', não 'Escolham a morte'.
Será que este Papa é anti-Trump?
Não, absolutamente não. O Papa Leão XIV não é anti-Trump. Ele é pró-Jesus. E Jesus foi muito claro sobre seu desejo de paz. Em seu ministério público, Jesus disse: 'Bem-aventurados os pacificadores', não 'Bem-aventurados os belicistas'. E após sua ressurreição, sua mensagem aos discípulos assustados foi 'A paz esteja convosco', não 'A vingança é minha'. Você não precisa de um doutorado em Novo Testamento para entender o desejo de paz de Jesus.
Na sua opinião, este Papa mantém algum canal de comunicação com o vice-presidente J.D. Vance e com o ministro das Relações Exteriores Marco Rubio, ambos católicos?
Não faço ideia do que acontece nos bastidores. Pelo que sei, de acordo com os procedimentos do Vaticano, o principal canal de comunicação entre o Santo Padre e a Casa Branca é o núncio apostólico em Washington, atualmente o Arcebispo Caccia.
Por que você acha que o Papa quase sempre evita mencionar Trump pessoalmente?
"Porque o Santo Padre tenta, tanto quanto possível, evitar a política partidária. Ele é muito sábio: o Papa é religioso, não político. Além disso, quando fala de paz, fala do seu desejo, e do desejo de Deus, pela paz em todo o mundo, não apenas nos Estados Unidos."
Até que ponto o fato de ser originário do sul de Chicago influencia as posições do Papa? E até que ponto os 20 anos que ele passou no Peru influenciam suas posições?
Eu diria que o fato de o Papa Leão XIV ser americano significa que ele obviamente entende a política dos EUA (e do Peru) melhor do que seus antecessores. Isso não é uma crítica a São João Paulo II, Bento XVI ou Francisco. Obviamente, eles conheciam a Polônia, a Alemanha e a Argentina melhor do que a maioria das pessoas. Mas uma consequência interessante de o Papa Leão XIV ser americano é que os políticos dos EUA não podem mais dizer, como às vezes diziam de Francisco, "Não devemos ouvir o Papa porque ele não entende os Estados Unidos". Acredito que o tempo que ele passou no Peru permitiu que ele entendesse não apenas o Peru e a América Latina, mas especialmente aqueles que são pobres e lutam para sobreviver.
Durante a vigília de oração de sábado, o Papa citou a advertência de João Paulo II contra a guerra de George W. Bush no Iraque: em que se assemelha e em que difere a situação atual?
É semelhante porque, como disse São João Paulo II, "A guerra é sempre uma derrota para a humanidade". Portanto, essa mensagem é atemporal. É diferente porque não há absolutamente nenhuma razão para uma guerra no Irã — enquanto, mesmo que você discordasse da legitimidade das razões, havia razões sérias para a guerra no Iraque —; além disso, as razões dadas pela Casa Branca para justificar a violência no Irã mudam diariamente, quase a cada hora.
Você acha que o Papa visitará os Estados Unidos antes do fim do mandato de Trump?
Não faço a mínima ideia. Não sou o Papa nem o núncio!
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