"Papa Leão repudia quem usa Deus para justificar a violência". Entrevista com Matteo Zuppi

Matteo Zuppi. (Foto: Francesco Pierantoni/Flickr)

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14 Abril 2026

Em um momento histórico de guerras, e enquanto os Estados Unidos e Israel usam argumentos religiosos para justificar os bombardeios, Leão XIV, que convocou uma vigília de oração pela paz para esta noite, não se cansa de ressaltar que "os conflitos não podem ser resolvidos recorrendo ao instrumento da guerra". É o que enfatiza o Cardeal Matteo Zuppi, Arcebispo de Bolonha e Presidente da Conferência Episcopal Italiana.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 11-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Hoje, o Papa preside uma vigília na Basílica de São Pedro: enquanto o mundo está em chamas, qual o sentido de rezar?

Muitas igrejas, particularmente na Itália, acolheram imediatamente o apelo do Papa Leão XIV pela oração, razão pela qual há inúmeras vigílias por toda parte. Existe o poder da oração, uma força espiritual que nos reúne, que assume para si o pedido que nasce do sofrimento e se torna súplica. É uma grande forma de compartilhar a dor, de verdadeira compaixão, assumindo o choro, a dor e a ansiedade das vítimas. E, além disso, da oração brotam escolhas de solidariedade, de atenção, de proximidade. Não é apenas dizer ‘cuide disso Você’, mas ‘eu tentarei fazer isso’. A oração não é estranha à realidade do mundo, pelo contrário, ajuda a escolher, dentro do mundo, as muitas maneiras de contrastar a violência e a guerra.

O Papa disse que Jesus, Rei da Paz, é "um Deus que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra": uma referência aos acontecimentos atuais?

Certamente, penso em todos aqueles que usam o nome de Deus, que é um nome de paz, para outros fins. São palavras que nascem das b, da b e da história da Igreja: por ocasião da Primeira Guerra Mundial, o Papa Bento XV denunciou o ‘massacre inútil’, indicando assim que devemos orar pela paz e não pela vitória.

O Papa atual é anti-Trump?

O Papa é certamente contra a violência, contra a guerra e contra quem pensa que os conflitos podem ser resolvidos recorrendo ao instrumento da guerra. O mundo está fazendo exatamente o oposto: arma-se e força os outros a se armarem. O Papa fala contra toda tentação, tanto dos poderosos quanto de cada um de nós, de pensar que a força resolverá nossos problemas e nos dará segurança. É exatamente o contrário.

O Pentágono reclamou ao núncio nos EUA porque o Papa disse que "a guerra votou à moda" e que o direito internacional está sendo violado: como a Igreja responde?

A Igreja não responde, mas continua a propor a sabedoria cristã e humana. Paulo VI, na ONU, lembrou as palavras de John Kennedy: 'A humanidade deve pôr fim à guerra, ou a guerra porá fim à humanidade.'" O desafio é levar essa sabedoria a sério, escutá-la e agir de acordo. As meditações da Via Sacra, presididas pelo Papa no Coliseu, nos lembraram que os responsáveis prestarão contas perante a Deus pela forma como exercem o poder que receberam. O Papa enfatizou que o direito e o diálogo são o caminho para a solução dos problemas. Não é ingenuidade, mas o único realismo. Do contrário, se entra numa espiral que arrasta tudo para um abismo. É um apelo muito importante e que deve ser levado a sério; mas, há quem não o escuta, aceita que pessoas morram como efeito colateral, ou mata potenciais interlocutores para firmar a paz, talvez porque não queira que se faça a paz.

Falando em "danos colaterais", os bombardeios israelenses continuam no Líbano...

A destruição que está ocorrendo, os milhares de pessoas forçadas a fugir, nada disso encontra qualquer justificação. São importantes a esse respeito, as palavras do presidente Mattarella, o apelo sincero de todos os cristãos do Líbano, A morte do pobre sacerdote maronita Pierre El Raii testemunha o sofrimento de todos, e das comunidades cristãs, que permanecem em sua própria terra. Por essa razão, como disse o Papa na Páscoa, 'aqueles que empunham armas devem depô-las, aqueles que têm o poder de desencadear guerras devem escolher a paz'.

A trégua entre o Irã e os Estados Unidos lhe parece promissora?

É a demonstração de que se pode conversar, que os problemas são resolvidos por meio do diálogo e que quanto mais e mais cedo for feito, melhor. Esperamos que aquele exercício que levou à trégua também leve à resolução das causas do conflito. O diálogo não é fácil, eu sei, mas é sempre possível. A comunidade internacional e os órgãos supranacionais existem para isso!

Também em Israel, há quem use a Bíblia para justificar a guerra, em especial os setores messiânicos próximos aos colonos que atormentam as aldeias palestinas na Cisjordânia.

A Igreja não renunciará ao diálogo e jamais aceitará que as escolhas de alguém possam justificar fenômenos de antissemitismo. Nesse diálogo, acredito, deve-se chegar a uma condenação clara da blasfêmia que mata a imagem de Deus no irmãos. É um empenho que exige um trabalho conjunto.

A audiência do Papa com Macron pode relançar o papel da Europa e do multilateralismo?

Não tenho condições de dizer. Certamente acredito que a preocupação do Papa Leão também ajudará a Europa a ser mais corajosa, mais fiel às suas raízes e mais corajosa em seu empenho pela paz. A própria origem da Europa é o diálogo.

Nos últimos dias, o embaixador ucraniano entregou-lhe uma nova lista de prisioneiros e desaparecidos: como está a situação?

Estamos dando continuidade, com o apoio das nunciaturas, ao esforço humanitário que havia começado com o Papa Francisco e continua com o Papa Leão. Quando vejo essas listas, paro para observar os nomes, as idades; imagino as pessoas, os filhos, as mães, as esposas. Espero que esse esforço humanitário possa dar frutos de paz e abrir espaços para combater o seu oposto, a guerra.

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