13 Abril 2026
O papa apelou aos líderes mundiais para que "parem" e se sentem à mesa de diálogo — uma mensagem direta aos negociadores de Islamabad, enquanto o frágil cessar-fogo entra em seus dias finais.
O artigo é de Christopher Hale, publicado por Letters from Leo, 11-04-2026.
Eis o artigo.
O Papa Leão XIV permaneceu na tarde de sábado diante do túmulo de São Pedro e desmontou cada justificativa religiosa que o governo Trump ofereceu para sua guerra contra o Irã — sem mencionar um único país ou presidente.
A vigília de oração, anunciada durante a mensagem de Páscoa Urbi et Orbi do Papa e acompanhada por paróquias em todos os continentes, atraiu milhares de pessoas à Basílica de São Pedro para uma noite de rosário, meditação sobre os Padres da Igreja e velas acesas com a Lâmpada da Paz de Assis.
Fiéis da África, das Américas, da Ásia, da Europa e da Oceania acenderam velas com a chama que arde perpetuamente no túmulo de São Francisco. A homilia que ouviram não citou nenhum presidente e não mencionou nenhum país. Não precisaram que o Papa fosse mais específico.
"Estamos cercados por uma ilusão de onipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressiva", disse Leão. "O equilíbrio no interior da família humana foi gravemente desestabilizado. Até mesmo o santo Nome de Deus, o Deus da vida, está sendo arrastado para os discursos da morte."
Essa passagem chegou cinco dias depois de o presidente Trump ter dito a repórteres que Deus apoia os ataques americanos ao Irã, e de o secretário de Defesa Pete Hegseth, ao seu lado, ter comparado o resgate de um piloto americano abatido à ressurreição de Jesus Cristo.
Quando o Papa disse que "o santo Nome de Deus está sendo arrastado para os discursos da morte", ele estava nomeando a blasfêmia no coração desta guerra: a afirmação de que o Deus da vida endossa o assassinato de milhares.
Leão voltou-se então para a questão de quem ameaça a morte — e quem a adora.
"Quem reza não mata nem ameaça de morte", disse o Papa. "A morte escraviza aqueles que viraram as costas para o Deus vivo, tornando-se a si mesmos e ao próprio poder um ídolo mudo, cego e surdo — ao qual sacrificam todo valor, exigindo que o mundo inteiro dobro os joelhos."
A linguagem bebeu da tradição profética de Isaías e Jeremias — a denúncia dos ídolos feitos por mãos humanas que não podem ver, ouvir nem falar. Leão aplicou esse antigo referencial ao presente com uma precisão inconfundível. Um líder que exige que o mundo inteiro dobro os joelhos diante de seu poder fez de si mesmo um falso deus, mudo ante os clamores dos que são mortos, cego ante as crianças nos escombros, surdo às vozes que pedem paz.
"Chega de idolatria do eu e do dinheiro", disse Leão. "Chega de exibição de poder. Chega de guerra. A verdadeira força se mostra no serviço à vida."
O Papa dirigiu-se então aos líderes sentados nas capitais onde as decisões de guerra são tomadas.
"A eles clamamos: parem! É tempo de paz! Sentem-se à mesa do diálogo e da mediação — não à mesa onde se planeja o rearmamento e se decidem ações mortíferas."
Esse apelo tem relevância direta para o vice-presidente JD Vance, que lidera a delegação americana em Islamabad nas negociações de paz mediadas pelo Paquistão.
O cessar-fogo de duas semanas que o Papa Leão chamou de "sinal de esperança viva" no início desta semana permanece frágil. Netanyahu fez lobby contra ele. A Casa Branca já sinalizou que reparações e alívio de sanções estão "fora de questão". Duas das condições centrais do Irã podem ser retiradas antes mesmo de as negociações começarem.
No início da homilia, Leão invocou uma linhagem de autoridade papal sobre guerra e paz: o apelo de Paulo VI nas Nações Unidas ("Devemos fazer tudo o que for possível"), o aviso de João XXIII ("Nada se perde com a paz; tudo pode se perder com a guerra") e o clamor de João Paulo II após ter sobrevivido à Segunda Guerra Mundial ("Nunca mais guerra").
Por fim, citou seu predecessor imediato pelo nome: "Como o Papa Francisco nos ensinou, há também necessidade de pacificadores — homens e mulheres dispostos a trabalhar com ousadia e criatividade para iniciar processos de cura e de encontro renovado."
Quatro papas ao longo de quatro gerações, todos chegando à mesma conclusão, canalizados pela voz de um quinto diante do túmulo do primeiro.
Leão encerrou a vigília com uma oração a Cristo. "Concede-nos a tua paz", disse ele, "como a concedeste aos discípulos que se escondiam com medo. Que cesse a loucura da guerra, e que a terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda sabem gerar, proteger e amar a vida."
O Papa pediu o fim da guerra no Irã repetidamente desde o início de março — de seus Angelos quaresmais apelando por um cessar-fogo, ao seu discurso de Páscoa ordenando que os detentores de armas as deponham, ao seu apelo direto a Trump para buscar uma saída, até sua condenação da ameaça "inaceitável" de aniquilar uma civilização.
Esta vigília estendeu o padrão da declaração papal à ação litúrgica global — um ato coordenado de oração transmitido a cada diocese, convocando milhões ao mesmo apelo.
"Agora mais do que nunca", disse o Papa Leão, "devemos mostrar que a paz não é uma utopia."
Nota do IHU
A íntegra da homilia do Papa Leão XIV pode ser lida, em português, aqui.
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