Jürgen Habermas, o último dos grandes. Artigo de Stefano Petrucciani

Foto: Wikimedia Commons

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17 Março 2026

"Habermas, um intelectual sempre incansavelmente engajado no debate público, também foi marcado por controvérsias memoráveis".

O artigo é de Stefano Petrucciani, professor de filosofia política na Universidade de Roma La Sapienza e chefe do Departamento de Filosofia. Trabalhou na Escola de Frankfurt e publicou inúmeras edições italianas de textos de Theodor W. Adorno (Dialettica negativaMetafisica: Concetto e problemiContro l'antisemitismoIl concetto di filosofia). O texto é publicado por il manifesto, 15-03-2026.

Eis o artigo. 

Jürgen Habermas foi um dos maiores pensadores dos séculos XX e XXI.

Sua obra tem poucos iguais em termos de amplitude e profundidade. Em sua longa vida como homem e acadêmico (ele nasceu em 1929 em Düsseldorf), Habermas explorou diversos campos do conhecimento (da filosofia à sociologia, da linguística à teoria política), deixando uma marca indelével em cada um. Como todos os grandes pensadores, Habermas também era uma pessoa de extraordinária abertura e cortesia: ele adorava debater, com afabilidade e gentileza, e levava cada interlocutor a sério e com respeito.

Em suma, ele realmente praticava aquela "ética do discurso" que dá título a um de seus livros mais significativos.

SUA FORMAÇÃO foi inteiramente influenciada pelo marxismo crítico. Em 1956, ingressou no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt como assistente, onde foi apreciado por Adorno, menos por Horkheimer, que o considerava demasiado "extremista". Um de seus primeiros estudos sociais foi dedicado ao tema "Estudantes e Política".

Habermas começou a se consolidar como protagonista no debate na Alemanha Ocidental com sua tese de habilitação, que se tornou um livro muito importante, traduzido para outros idiomas sob o título História e Crítica da Opinião Pública. Nesse texto, publicado na Alemanha em 1962, Habermas desenvolveu uma de suas ideias centrais, que seria posteriormente explicada por inteiro em seu livro sobre democracia (intitulado Fatos e Normas), publicado trinta anos depois.

Habermas concentra-se na opinião pública porque, para ele, o cerne da democracia não reside tanto em suas instituições formais (partidos e parlamentos), mas sim no debate que ocorre na esfera pública, na participação cidadã, na troca de argumentos sem a qual a democracia fracassa, reduzida à propaganda e manipulação.

As transformações da esfera pública na era da internet (à qual ele dedicou um volume muito recente) certamente o assustaram. Mas Habermas era (apesar de ser aluno de Horkheimer e Adorno) avesso a qualquer catastrofismo. Ele nunca abandonou sua fé na razão discursiva, mesmo quando a dinâmica da história e da sociedade parecia colocá-la em uma verdadeira crise.

Embora tenha sido formado em marxismo crítico, Habermas também foi, desde meados da década de 1960 até sua recente História da Filosofia (cujos dois primeiros volumes foram publicados até agora em italiano pela Feltrinelli), um crítico muito atento e sutil do pensamento de Marx. O ponto pelo qual ele criticou o filósofo de Trier pode ser resumido pelo título de uma de suas famosas palestras: "Trabalho e Interação". Para Habermas, Marx tentou compreender a história humana e a emancipação colocando uma única categoria fundamental no centro: a do trabalho.

Habermas, em vez disso, propôs um paradigma dualista. As sociedades humanas são mantidas unidas, por um lado, pelo trabalho e pela produção e, por outro, pelas interações entre indivíduos reguladas por normas sociais e morais. Esta segunda dimensão do social não pode ser exaustivamente explicada com base na primeira, a do trabalho, mas possui sua própria lógica autônoma que deve ser reconstruída como tal.

Daí a longa reflexão que Habermas dedicou, em diálogo com seu amigo Karl-Otto Apel, que lhe era mais velho e faleceu em 2017, ao tema da ética. Sua perspectiva, como mencionado antes, é a de uma ética do discurso. Simplificando, isso significa que o respeito devido a todas as pessoas, que constitui o cerne da ética, está, em última análise, enraizado na dimensão da linguagem. É no diálogo, na troca de argumentos e razões, que se fundamenta a necessidade de levar cada interlocutor a sério, o que é precisamente o verdadeiro cerne da moralidade.

Habermas, um intelectual sempre incansavelmente engajado no debate público, também foi marcado por controvérsias memoráveis. Quando jovem, começou atacando Heidegger, que não proferiu uma palavra clara de autocrítica em relação à sua adesão ao nazismo. Ele, um intelectual de esquerda, não deixou de confrontar o extremismo do movimento estudantil de 1968. Na década de 1980, contra Ernst Nolte, engajou-se na discussão do revisionismo histórico, que equiparava o nazismo com o comunismo. Sua polêmica contra o pós-modernismo permanece memorável, contida no livro intitulado Discurso Filosófico sobre a Modernidade, publicado na Itália em 1987. Ali, Habermas, irritado com a tendência pós-modernista, tinha algo para todos: não poupou Nietzsche e Foucault e chegou ao ponto de repreender seus mestres (Horkheimer e Adorno) por terem pavimentado o caminho para o pós-modernismo com a crítica da razão que desenvolveram na Dialética do Iluminismo.

Seu envolvimento mais recente o levou a novas frentes. Com seu otimismo racional, ele acreditava firmemente no potencial da Europa, embora sempre tivesse criticado sua deriva tecnocrática. Mas sua última grande obra, incrível para um homem de 90 anos, é a monumental História da Filosofia. Habermas reconstrói toda a sua história com habilidade inabalável, do pensamento mítico à era contemporânea. Entre as razões que o impulsionaram a essa grande empreitada, estava sobretudo a ideia de que, diante de um mundo tão complexo quanto o contemporâneo (também marcado por renascimentos religiosos e fundamentalismos), era necessário questionar novamente a relação milenar entre razão e religião, indo além do antigo Iluminismo e buscando demonstrar que as duas dimensões não apenas se confrontaram, mas também se enriqueceram por meio de processos de aprendizado mútuo. Talvez não seja errado dizer que, com Habermas, o último dos grandes mestres se vai.

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