O tabuleiro do caos no Oriente Médio. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: Mateus Dias/IHU

Por: Cristina Guerini e Lucas Schardong | 14 Março 2026

Nos episódio de hoje dos Destaques da Semana do IHUCast, vamos percorrer as cicatrizes abertas pela geopolítica global. Analisamos como a escalada do conflito no Oriente Médio transcende fronteiras, redesenhando economias e testando os limites da diplomacia internacional. Neste cenário de incertezas, Dom Mimmo Battaglia em sua "Carta aos mercadores da morte", nos convida a confrontar a indústria da guerra e a resgatar a humanidade soterrada pelos escombros. Um convite à reflexão sobre o preço do poder e a urgência de desarmar não apenas as mãos, mas o próprio pensamento.

Mercadores da morte

Na carta, o cardeal e arcebispo de Nápoles, faz um apelo contundente contra a indústria armamentista e a lógica da guerra. “Aos mercadores da morte, a vocês que fazem negócios com o sangue dos homens, a vocês que contam os lucros enquanto as mães contam os filhos, a vocês que chamam de 'estratégia' o que o Evangelho chama de escândalo, dirijo palavras que não nascem da diplomacia, mas da ferida”, destaca. Com uma linguagem profética e humanitária, ele denuncia o lucro obtido sobre o extermínio de vidas, chamando de "loucura" a crença de que o conflito armado traz segurança. "E sei que alguns sorrirão, chamando tudo isso de ingenuidade. Mas a única verdadeira ingenuidade, hoje, é acreditar que a guerra possa salvar. A única verdadeira loucura é pensar que se possa continuar a incendiar o mundo sem se queimar com ele. O único realismo possível, agora, é a paz", relata.

Noites sombrias

O texto convoca os poderosos a ouvirem o "grito dos pobres" e o luto das mães, propondo o desarmamento do coração como única via para a paz real. “A guerra não começa quando a primeira bomba cai. Começa muito antes: quando o irmão se torna um obstáculo, quando um pobre se torna irrelevante, quando a compaixão é considerada ingênua, quando a economia deixa de servir à vida e decide usá-la”, adverte. Battaglia reitera que a economia não pode rimar com "funeral" e exige que a humanidade recupere sua consciência diante da barbárie. “Sonho com o dia em que a palavra 'lucro' não rimará mais com 'funeral'” [...] “a vocês, mercadores da morte, digo, portanto, a última palavra não como uma condenação, mas como uma súplica: devolvam o futuro. Devolvam o alívio. Devolvam os filhos às suas mães, os pais às suas casas, os sonhos à terra. Devolvam a vocês mesmos a sua humanidade. A paz os julgará. Mas, se quiserem, a paz ainda poderá salvá-los”, conclama. A carta é um marco na defesa da vida contra os interesses financeiros do complexo militar global. “Há noites, neste tempo, em que a humanidade parece perdida. Noites longas, em que o céu não oferece consolo e a terra só devolve escombros. Contudo, justamente ali, no coração da noite, o Evangelho persevera obstinadamente. Continua a dizer que nenhum homem nasce para ser alvo. Que nenhuma criança está destinada ao pó. Que nenhuma mãe tem de aprender a reconhecer o filho por um farrapo de tecido”, conclui o prelado.

IA: motor de massacres

A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar o motor dos massacres no Oriente Médio, após o uso massivo na guerra na Ucrânia. Estamos diante de um novo complexo industrial-militar onde a tecnologia dita o ritmo da barbárie. Entre drones autônomos e a pressão do Pentágono sobre as Big Techs, será que ainda resta algum controle humano sobre as máquinas? no texto Inteligência artificial: para quê?, Adela Cortina alerta que a IA deve servir à justiça e à felicidade humana, não apenas ao lucro ou ao controle social. A filósofa defende uma ética da responsabilidade para evitar que algoritmos aprofundem desigualdades ou manipulem a democracia. O texto propõe que a tecnologia seja orientada pelo bem comum, garantindo que o progresso técnico não atropele a dignidade e a autonomia de cada pessoa.

Tensão no Vale do Silício

O cenário atual revela uma tensão crescente entre o Vale do Silício e o governo Trump, onde empresas como a Anthropic e a Microsoft questionam as decisões do Pentágono e da Casa Branca. Enquanto generais e empresas de defesa, como a Palantir, avançam na era das armas letais geridas por algoritmos, gigantes da tecnologia tentam frear o rótulo de "ameaça à segurança" e a pressão para que suas ferramentas se tornem engrenagens de guerra. Essa resistência não é apenas comercial e reflete um embate sobre quem detém o controle da infraestrutura digital da nação. A ética da IA na guerra surge como o ponto de maior ruptura, confrontando a eficácia estratégica demonstrada por generais no Oriente Médio com os riscos da desumanização algorítmica. O movimento de resistência ganha força cultural com o apoio de intelectuais como Kazuo Ishiguro, que denunciam o uso predatório da tecnologia contra a criação humana. O debate central gira em torno da "causa antropológica": o esforço para garantir que a IA sirva ao desenvolvimento humano e não apenas como um instrumento de letalidade automatizada e vigilância estatal.

Coração da trevas 

Seguindo a discussão sobre IA, o jornalista italiano Giorgio Ferrari descreveu Peter Thiel como o "coração das trevas" do mundo digital e o principal arquiteto intelectual da nova direita tecnológica que apoia Trump. Fundador da Palantir e da PayPal, o empresário promove uma visão de mundo onde o Estado é substituído pelo poder das grandes corporações e da tecnologia de vigilância. Thiel defende o uso da inteligência artificial como ferramenta de controle geopolítico e militar, consolidando o domínio do Vale do Silício sobre a defesa nacional. Sua influência vai além do capital, buscando uma ruptura com a democracia liberal em favor de uma soberania tecnológica tecnocrática e autoritária.

 Guerra no Irã: choque energético

A ascensão de Mojtaba Khamenei ao poder no Irã consolida uma postura de resistência absoluta de Teerã, transformando o Estreito de Ormuz em um tabuleiro de xadrez. Segundo Antonio Turiel, o bloqueio dessa via por apenas um mês cortaria 40% do petróleo exportável do mundo, disparando um choque energético que desmorona a economia global. Esse cenário expõe a perigosa falta de planejamento de Donald Trump, que, focado em demonstrações de força, ignora as consequências de uma guerra naval assimétrica capaz de paralisar o comércio e a produção de alimentos em escala planetária. O chefe da Casa Branca oscila entre a retórica de vitória e a ausência total de um plano claro de saída para a crise que ele criou.

Risco hídrico 

A crise energética atinge diretamente a sobrevivência básica, afetando o acesso à água e à comida, uma vez que a infraestrutura hídrica e a agricultura moderna dependem inteiramente de fluxos estáveis de energia. Os ataques às usinas de dessalinização em vários países suscitaram receios de uma escalada que poderá deixar o Oriente Médio sem água potável: o Irã encontra-se numa situação crítica devido à seca, e na Arábia Saudita, em Omã e no Kuwait, mais de 70% do consumo provém destas usinas.

Sistema obsoleto

Como aponta Jeremy Rifkin, estamos testemunhando o fim de uma velha visão de mundo baseada no crescimento fóssil desenfreado, enquanto a guerra acelera o colapso de sistemas obsoletos. A geopolítica atual, centrada no controle de recursos finitos, revela-se incapaz de lidar com as interdependências da vida na Terra, empurrando a humanidade para um beco sem saída civilizacional.

Suicídio moral

O custo humano dessa desorientação estratégica é evidenciado pelo "suicídio moral do Ocidente", conceito explorado por Didier Fassin. Ao estabelecer uma hierarquia de vidas, onde certas populações são tratadas como sacrificáveis, o sistema internacional corrói suas próprias bases éticas. No Líbano, essa tragédia é quantificável: a ofensiva já gerou mais de 1,2 milhão de deslocados, pessoas que perdem tudo em uma "lei da selva" onde a proteção humanitária foi substituída pela pornografia da destruição e pelo uso da tecnologia para maximizar a letalidade.

Crise de paradigma

Portanto, o conflito no Irã não é apenas uma disputa regional, mas o epicentro de uma crise de paradigma. A resistência de Teerã e a imprevisibilidade de Washington criam um vácuo de liderança que ameaça a segurança hídrica, alimentar e moral do globo. a realidade dos números de deslocados e o risco de um apagão energético global reforçam o alerta de Rifkin e Fassin: sem uma mudança profunda na forma como valorizamos a vida e gerimos os recursos naturais, o cenário atual é apenas o prefácio de um colapso maior.

Gaza, espelho do futuro

Essa mudança de paradigma tem como ponto de partida a Faixa de Gaza, como alerta o jornalista e pensador uruguaio Raúl Zibechi. Segundo aponta, ao transformar a Palestina em um experimento de aniquilação sem consequências, Estados Unidos e Israel desenham o futuro da realidade: um mundo onde a força bruta substitui as leis e a sobrevivência humana está sob risco absoluto.

Cruzado moderno

Nos Estados Unidos, a guerra ganha contornos de uma teocracia militarizada sob a influência de figuras como o Secretário de Defesa, Pete Hegseth. Descrito como um "cruzado moderno", secretário de guerra exibe tatuagens de cruzes de Jerusalém e slogans medievais, personificando a fusão entre fé e carnificina.

Senhor da guerra abençoado

Como aponta Luca Caracciolo, Washington volta a combater em "nome de Deus", transformando o Pentágono em um instrumento de providência divina. Esse nacionalismo cristão é selado por rituais no Salão Oval, onde pastores abençoam a guerra, elevando o conflito a uma batalha espiritual contra o que eles chamam de "eixo do mal".

De joelhos

Nesse contexto, o artigo de José Carlos Enríquez Díaz alerta para o perigo de quando "a fé se ajoelha diante do poder". Para o autor, a aproximação simbiótica entre religião e Estado desfigura a espiritualidade, transformando-a em uma ferramenta de legitimação política e controle social. Quando a fé se torna subserviente aos interesses de líderes como Trump, ela perde seu papel profético de crítica social e passa a sacralizar a violência.

Mortas pelo machismo cotidiano

Agora vamos falar de uma guerra doméstica, que faz vítimas todos os dias no Brasil e, em especial, aqui no Rio Grande do Sul. Somente nos primeiros meses de 2026, o estado já registra 21 feminicídios. Um número que revela que vivemos o ápice de uma escalada de violência que começa no machismo cotidiano e se estrutura no patriarcado. Um fenômeno que também ganha uma escala industrial na internet, através da machosfera, comunidades como os Red Pills e incels, que radicalizam jovens em discursos de ódio e ressentimento contra a autonomia feminina. A violência de gênero, discutida pela professora Jacqueline Muniz, revela uma masculinidade capturada pelo medo e pela necessidade de domínio. No texto "a fotografia de um masculinismo capturado", a professora analisa o masculinismo pela lógica da "espetacularização do medo" e do controle, a partir da fotografia de um dos jovens acusado de estupro coletivo no Rio de Janeiro.

Mulheres conservadoras

Jacqueline Moraes Teixeira ressalta que essa identidade de direita em construção utiliza a moralidade e a defesa da "família" como fachadas para o controle dos corpos. Conforme explica, é no ambiente digital que esses algoritmos de ódio prosperam, transformando a insegurança de muitos homens em uma militância agressiva que legitima a agressão sistêmica. Por isso, neste 8 de março, as pautas foram além do simbólico: as mulheres ocuparam as ruas exigindo respostas efetivas do Estado e dignidade laboral. Como aponta Simona Segoloni, a luta é para romper as "cercas" do patriarcado que tentam confinar a existência feminina ao medo ou à submissão.

Atmosfera pesada

Agora, vamos aterrissar nas questões conjunturais do país, um cenário doméstico que não pode ser visto de forma isolada. O Brasil de 2026 respira uma atmosfera pesada, onde o fortalecimento global de movimentos radicais e a instabilidade econômica internacional criam ventos de incerteza sobre a continuidade do projeto atual. Há um efeito de contágio que atravessa fronteiras. O avanço de lideranças que utilizam o ressentimento — agora alimentado pela alta dos combustíveis e das commodities devido à guerra no Oriente Médio — cria um eco perigoso. O "cerco" internacional não é apenas ideológico, é material: a inflação no bolso do trabalhador torna-se a principal arma da oposição para desafiar o pacto democrático.

Mídia inescrupulosa

E nesse tabuleiro, o papel de parte da mídia levanta questões éticas profundas. Com o debate público inundado por pautas morais, paira uma névoa de silêncio conveniente sobre o senador Flávio Bolsonaro. Mesmo com as graves suspeitas que ligam o seu entorno ao submundo do crime organizado no Rio de Janeiro e ao escândalo do Banco Master, a grande imprensa prefere tratá-lo como um "candidato moderado" e silencioso.

Normalização do absurdo

É a "normalização do absurdo". O Caso Master expôs como o crime organizado pode ter capturado instâncias federais, mas parte da mídia tenta redirecionar esse desgaste apenas para o governo e o STF. Ao silenciar diante de elos que ligam figuras como Gutemberg Fonseca e o senador ao crime, enquanto ampliam a lente sobre cada dificuldade econômica, cria-se um desequilíbrio informativo que pavimenta o caminho para o retrocesso. O pleito já começa desgastado pela erosão da verdade promovida por esse silêncio seletivo.

***

O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.

Acesse aos programas do IHU nas plataformas Anchor e Spotify. Ouça os episódios clicando aqui