Nos episódio de hoje dos Destaques da Semana do IHUCast, vamos percorrer as cicatrizes abertas pela geopolítica global. Analisamos como a escalada do conflito no Oriente Médio transcende fronteiras, redesenhando economias e testando os limites da diplomacia internacional. Neste cenário de incertezas, Dom Mimmo Battaglia em sua "Carta aos mercadores da morte", nos convida a confrontar a indústria da guerra e a resgatar a humanidade soterrada pelos escombros. Um convite à reflexão sobre o preço do poder e a urgência de desarmar não apenas as mãos, mas o próprio pensamento.
Na carta, o cardeal e arcebispo de Nápoles, faz um apelo contundente contra a indústria armamentista e a lógica da guerra. “Aos mercadores da morte, a vocês que fazem negócios com o sangue dos homens, a vocês que contam os lucros enquanto as mães contam os filhos, a vocês que chamam de 'estratégia' o que o Evangelho chama de escândalo, dirijo palavras que não nascem da diplomacia, mas da ferida”, destaca. Com uma linguagem profética e humanitária, ele denuncia o lucro obtido sobre o extermínio de vidas, chamando de "loucura" a crença de que o conflito armado traz segurança. "E sei que alguns sorrirão, chamando tudo isso de ingenuidade. Mas a única verdadeira ingenuidade, hoje, é acreditar que a guerra possa salvar. A única verdadeira loucura é pensar que se possa continuar a incendiar o mundo sem se queimar com ele. O único realismo possível, agora, é a paz", relata.
O texto convoca os poderosos a ouvirem o "grito dos pobres" e o luto das mães, propondo o desarmamento do coração como única via para a paz real. “A guerra não começa quando a primeira bomba cai. Começa muito antes: quando o irmão se torna um obstáculo, quando um pobre se torna irrelevante, quando a compaixão é considerada ingênua, quando a economia deixa de servir à vida e decide usá-la”, adverte. Battaglia reitera que a economia não pode rimar com "funeral" e exige que a humanidade recupere sua consciência diante da barbárie. “Sonho com o dia em que a palavra 'lucro' não rimará mais com 'funeral'” [...] “a vocês, mercadores da morte, digo, portanto, a última palavra não como uma condenação, mas como uma súplica: devolvam o futuro. Devolvam o alívio. Devolvam os filhos às suas mães, os pais às suas casas, os sonhos à terra. Devolvam a vocês mesmos a sua humanidade. A paz os julgará. Mas, se quiserem, a paz ainda poderá salvá-los”, conclama. A carta é um marco na defesa da vida contra os interesses financeiros do complexo militar global. “Há noites, neste tempo, em que a humanidade parece perdida. Noites longas, em que o céu não oferece consolo e a terra só devolve escombros. Contudo, justamente ali, no coração da noite, o Evangelho persevera obstinadamente. Continua a dizer que nenhum homem nasce para ser alvo. Que nenhuma criança está destinada ao pó. Que nenhuma mãe tem de aprender a reconhecer o filho por um farrapo de tecido”, conclui o prelado.
A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar o motor dos massacres no Oriente Médio, após o uso massivo na guerra na Ucrânia. Estamos diante de um novo complexo industrial-militar onde a tecnologia dita o ritmo da barbárie. Entre drones autônomos e a pressão do Pentágono sobre as Big Techs, será que ainda resta algum controle humano sobre as máquinas? no texto Inteligência artificial: para quê?, Adela Cortina alerta que a IA deve servir à justiça e à felicidade humana, não apenas ao lucro ou ao controle social. A filósofa defende uma ética da responsabilidade para evitar que algoritmos aprofundem desigualdades ou manipulem a democracia. O texto propõe que a tecnologia seja orientada pelo bem comum, garantindo que o progresso técnico não atropele a dignidade e a autonomia de cada pessoa.
O cenário atual revela uma tensão crescente entre o Vale do Silício e o governo Trump, onde empresas como a Anthropic e a Microsoft questionam as decisões do Pentágono e da Casa Branca. Enquanto generais e empresas de defesa, como a Palantir, avançam na era das armas letais geridas por algoritmos, gigantes da tecnologia tentam frear o rótulo de "ameaça à segurança" e a pressão para que suas ferramentas se tornem engrenagens de guerra. Essa resistência não é apenas comercial e reflete um embate sobre quem detém o controle da infraestrutura digital da nação. A ética da IA na guerra surge como o ponto de maior ruptura, confrontando a eficácia estratégica demonstrada por generais no Oriente Médio com os riscos da desumanização algorítmica. O movimento de resistência ganha força cultural com o apoio de intelectuais como Kazuo Ishiguro, que denunciam o uso predatório da tecnologia contra a criação humana. O debate central gira em torno da "causa antropológica": o esforço para garantir que a IA sirva ao desenvolvimento humano e não apenas como um instrumento de letalidade automatizada e vigilância estatal.
Seguindo a discussão sobre IA, o jornalista italiano Giorgio Ferrari descreveu Peter Thiel como o "coração das trevas" do mundo digital e o principal arquiteto intelectual da nova direita tecnológica que apoia Trump. Fundador da Palantir e da PayPal, o empresário promove uma visão de mundo onde o Estado é substituído pelo poder das grandes corporações e da tecnologia de vigilância. Thiel defende o uso da inteligência artificial como ferramenta de controle geopolítico e militar, consolidando o domínio do Vale do Silício sobre a defesa nacional. Sua influência vai além do capital, buscando uma ruptura com a democracia liberal em favor de uma soberania tecnológica tecnocrática e autoritária.
A ascensão de Mojtaba Khamenei ao poder no Irã consolida uma postura de resistência absoluta de Teerã, transformando o Estreito de Ormuz em um tabuleiro de xadrez. Segundo Antonio Turiel, o bloqueio dessa via por apenas um mês cortaria 40% do petróleo exportável do mundo, disparando um choque energético que desmorona a economia global. Esse cenário expõe a perigosa falta de planejamento de Donald Trump, que, focado em demonstrações de força, ignora as consequências de uma guerra naval assimétrica capaz de paralisar o comércio e a produção de alimentos em escala planetária. O chefe da Casa Branca oscila entre a retórica de vitória e a ausência total de um plano claro de saída para a crise que ele criou.
A crise energética atinge diretamente a sobrevivência básica, afetando o acesso à água e à comida, uma vez que a infraestrutura hídrica e a agricultura moderna dependem inteiramente de fluxos estáveis de energia. Os ataques às usinas de dessalinização em vários países suscitaram receios de uma escalada que poderá deixar o Oriente Médio sem água potável: o Irã encontra-se numa situação crítica devido à seca, e na Arábia Saudita, em Omã e no Kuwait, mais de 70% do consumo provém destas usinas.
Como aponta Jeremy Rifkin, estamos testemunhando o fim de uma velha visão de mundo baseada no crescimento fóssil desenfreado, enquanto a guerra acelera o colapso de sistemas obsoletos. A geopolítica atual, centrada no controle de recursos finitos, revela-se incapaz de lidar com as interdependências da vida na Terra, empurrando a humanidade para um beco sem saída civilizacional.
O custo humano dessa desorientação estratégica é evidenciado pelo "suicídio moral do Ocidente", conceito explorado por Didier Fassin. Ao estabelecer uma hierarquia de vidas, onde certas populações são tratadas como sacrificáveis, o sistema internacional corrói suas próprias bases éticas. No Líbano, essa tragédia é quantificável: a ofensiva já gerou mais de 1,2 milhão de deslocados, pessoas que perdem tudo em uma "lei da selva" onde a proteção humanitária foi substituída pela pornografia da destruição e pelo uso da tecnologia para maximizar a letalidade.
Portanto, o conflito no Irã não é apenas uma disputa regional, mas o epicentro de uma crise de paradigma. A resistência de Teerã e a imprevisibilidade de Washington criam um vácuo de liderança que ameaça a segurança hídrica, alimentar e moral do globo. a realidade dos números de deslocados e o risco de um apagão energético global reforçam o alerta de Rifkin e Fassin: sem uma mudança profunda na forma como valorizamos a vida e gerimos os recursos naturais, o cenário atual é apenas o prefácio de um colapso maior.
Essa mudança de paradigma tem como ponto de partida a Faixa de Gaza, como alerta o jornalista e pensador uruguaio Raúl Zibechi. Segundo aponta, ao transformar a Palestina em um experimento de aniquilação sem consequências, Estados Unidos e Israel desenham o futuro da realidade: um mundo onde a força bruta substitui as leis e a sobrevivência humana está sob risco absoluto.
Nos Estados Unidos, a guerra ganha contornos de uma teocracia militarizada sob a influência de figuras como o Secretário de Defesa, Pete Hegseth. Descrito como um "cruzado moderno", secretário de guerra exibe tatuagens de cruzes de Jerusalém e slogans medievais, personificando a fusão entre fé e carnificina.
Como aponta Luca Caracciolo, Washington volta a combater em "nome de Deus", transformando o Pentágono em um instrumento de providência divina. Esse nacionalismo cristão é selado por rituais no Salão Oval, onde pastores abençoam a guerra, elevando o conflito a uma batalha espiritual contra o que eles chamam de "eixo do mal".
Nesse contexto, o artigo de José Carlos Enríquez Díaz alerta para o perigo de quando "a fé se ajoelha diante do poder". Para o autor, a aproximação simbiótica entre religião e Estado desfigura a espiritualidade, transformando-a em uma ferramenta de legitimação política e controle social. Quando a fé se torna subserviente aos interesses de líderes como Trump, ela perde seu papel profético de crítica social e passa a sacralizar a violência.
Agora vamos falar de uma guerra doméstica, que faz vítimas todos os dias no Brasil e, em especial, aqui no Rio Grande do Sul. Somente nos primeiros meses de 2026, o estado já registra 21 feminicídios. Um número que revela que vivemos o ápice de uma escalada de violência que começa no machismo cotidiano e se estrutura no patriarcado. Um fenômeno que também ganha uma escala industrial na internet, através da machosfera, comunidades como os Red Pills e incels, que radicalizam jovens em discursos de ódio e ressentimento contra a autonomia feminina. A violência de gênero, discutida pela professora Jacqueline Muniz, revela uma masculinidade capturada pelo medo e pela necessidade de domínio. No texto "a fotografia de um masculinismo capturado", a professora analisa o masculinismo pela lógica da "espetacularização do medo" e do controle, a partir da fotografia de um dos jovens acusado de estupro coletivo no Rio de Janeiro.
Jacqueline Moraes Teixeira ressalta que essa identidade de direita em construção utiliza a moralidade e a defesa da "família" como fachadas para o controle dos corpos. Conforme explica, é no ambiente digital que esses algoritmos de ódio prosperam, transformando a insegurança de muitos homens em uma militância agressiva que legitima a agressão sistêmica. Por isso, neste 8 de março, as pautas foram além do simbólico: as mulheres ocuparam as ruas exigindo respostas efetivas do Estado e dignidade laboral. Como aponta Simona Segoloni, a luta é para romper as "cercas" do patriarcado que tentam confinar a existência feminina ao medo ou à submissão.
Agora, vamos aterrissar nas questões conjunturais do país, um cenário doméstico que não pode ser visto de forma isolada. O Brasil de 2026 respira uma atmosfera pesada, onde o fortalecimento global de movimentos radicais e a instabilidade econômica internacional criam ventos de incerteza sobre a continuidade do projeto atual. Há um efeito de contágio que atravessa fronteiras. O avanço de lideranças que utilizam o ressentimento — agora alimentado pela alta dos combustíveis e das commodities devido à guerra no Oriente Médio — cria um eco perigoso. O "cerco" internacional não é apenas ideológico, é material: a inflação no bolso do trabalhador torna-se a principal arma da oposição para desafiar o pacto democrático.
E nesse tabuleiro, o papel de parte da mídia levanta questões éticas profundas. Com o debate público inundado por pautas morais, paira uma névoa de silêncio conveniente sobre o senador Flávio Bolsonaro. Mesmo com as graves suspeitas que ligam o seu entorno ao submundo do crime organizado no Rio de Janeiro e ao escândalo do Banco Master, a grande imprensa prefere tratá-lo como um "candidato moderado" e silencioso.
É a "normalização do absurdo". O Caso Master expôs como o crime organizado pode ter capturado instâncias federais, mas parte da mídia tenta redirecionar esse desgaste apenas para o governo e o STF. Ao silenciar diante de elos que ligam figuras como Gutemberg Fonseca e o senador ao crime, enquanto ampliam a lente sobre cada dificuldade econômica, cria-se um desequilíbrio informativo que pavimenta o caminho para o retrocesso. O pleito já começa desgastado pela erosão da verdade promovida por esse silêncio seletivo.
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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.
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