13 Março 2026
Como a Igreja da Lagoinha, e sua teologia fundamentalista e neoliberal, transformou a fé em balcão de negócios em um dos maiores escalados bancários da história brasileira.
O artigo é de Caio S. Marçal, cientista Social, pedagogo e teólogo. É Doutor em Educação (USP) e Mestre em Sociologia (UFMG), atualmente compõe o Grupo de Estudos e Pesquisa em Direito à Educação, Economia e Políticas Educacionais da USP e do Núcleo de Estudos e Pesquisas em História Política e Econômica - Nepólis/UEMG, publicado por Jacobina, 12-03-2026.
Eis o artigo.
Como fé, fanatismo fundamentalista e neoliberalismo estão envoltos no recente escândalo do Banco Master? O que faz uma igreja evangélica, aparentemente não pertencente às maiores denominações do Brasil, ter tamanha repercussão em todo o país?
Ao longo dos últimos tempos, muito se tem ouvido sobre a Igreja Batista da Lagoinha (IBL) e sua ligação com a família Vorcaro. Fundada em 1957 em Belo Horizonte, a Lagoinha integrava a Convenção Batista Brasileira (CBB), mas dela foi expulsa em 1961, após passar por um “avivamento espiritual” de viés carismático. Esse processo é recorrentemente classificado como um produto da segunda onda do pentecostalismo, demarcado como uma vertente carismática dentro do protestantismo histórico.
Após sua expulsão da CBB, a IBL aderiu à Convenção Batista Nacional (CBN), uma nova convenção que estava se formando justamente a partir de igrejas que foram excluídas ou que optaram pelo movimento carismático entre as denominações protestantes tradicionais. Atualmente, a Lagoinha, embora ainda mantenha vínculos com a CBN, possui sua própria convenção para organização interna, chamada Lagoinha Global.
Por décadas, a IBL foi comandada por Márcio Valadão, chegando ao fim de sua liderança com cerca de 700 unidades e aproximadamente 120 mil membros espalhados por diversos países. O que deu notoriedade internacional à Lagoinha Global foi o ministério de louvor Diante do Trono, liderado por Ana Paula Valadão, filha de Márcio. Ao longo de décadas, as músicas do ministério tornaram-se referência para inúmeras igrejas, configurando um fenômeno de vendas que ajudou a dar respaldo à família Valadão na comunidade evangélica, o que garantiu uma grande visibilidade para a Família Valadão.
Uma das marcas da liderança de Márcio Valadão na Lagoinha foi a aproximação da IBL com a Teologia dos Sete Montes, a ala carismática do neofundamentalismo cristão estadunidense. Trata-se de uma teologia dominionista (a outra linha teopolítica é o Reconstrucionismo Cristão). Essa vertente fundamentalista identifica sete esferas de influência da sociedade (Religião, Família, Educação, Governo, Mídia, Artes/Entretenimento, Negócios/Economia) que os cristãos devem “conquistar” ou “invadir” para impor sua dominação teocrática sobre o conjunto da sociedade.
Uma das mudanças mais importantes na IBL aconteceu nos últimos anos: Márcio Valadão passou o bastão da liderança da Lagoinha para seu filho André Valadão, que, além de ser um consagrado pastor na gestão ministerial do pai, é também cantor ligado ao conglomerado da Lagoinha. Contudo, o impacto dessa mudança de liderança revela-se profundo.
Pesquisadores que acompanham o mundo evangélico percebem que a Igreja Batista da Lagoinha enfrenta desafios após a ascensão de André Valadão. Não é à toa que várias congregações estão deixando a IBL. Além de uma briga interna na família Valadão em torno da liderança da igreja, algumas comunidades locais estão insatisfeitas com a liderança agressiva de André Valadão. Os conflitos e escândalos tornaram-se tão volumosos que foi noticiado que pelo menos 70 congregações se desfiliaram da IBL.
A luta pelo poder na Lagoinha
Empossado em dezembro de 2022, André Valadão assumiu a presidência da denominação, mas seu comando tem sido marcado por intensas polêmicas e rachas internos. Um exemplo emblemático é a disputa judicial com o cunhado, Felippe Valadão (casado com Mariana Valadão), sobre o uso da marca “Lagoinha” na unidade de Niterói. Essa disputa expôs uma divisão pública na família, com Ana Paula Valadão apoiando a irmã e o cunhado publicamente. Ana Paula foi retirada abruptamente da transmissão de um culto ao criticar a nova gestão conduzida por seu irmão André. Outro conflito de grandes proporções foi a “guerra milionária” com o ex-pastor André Fernandes, da unidade Alphaville, acusado de usar a igreja para negócios pessoais, como a venda de acesso a áreas VIP e pipoca, além da compra não quitada de um helicóptero de R$ 4,5 milhões.
Não deixa de ser revelador como essa disputa nos apresenta um ponto determinante para entender a relação da Lagoinha com a racionalidade neoliberal. Na ação judicial contra a unidade de Niterói, a IBL alega que registrou a marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o que levou a congregação de Niterói a mudar seu nome para “Novos Começos”, afastando-se definitivamente da marca “Lagoinha”. Desse modo, é notório como a Lagoinha Global se porta menos como uma “família da fé”, com irmãos que partilham das mesmas crenças, e passa a ser conduzida como uma holding. O nome “Lagoinha” não é mais apenas um local, mas uma propriedade privada. Nesse sentido, o fenômeno acima pode ser denominado de Neoliberalismo Religioso, onde a mentalidade neoliberal é aplicada no âmbito de grupos religiosos legitimando uma lógica que sacraliza o Mercado e suas práticas em comunidades de fé.
Ao processar o cunhado, a gestão de André Valadão deixou claro que os laços sanguíneos ou espirituais não se sobrepõem aos contratos e ao direito de propriedade intelectual. Nesse sentido, a igreja é tratada como uma “empresa gospel”, cuja franquia é especializada em mercadejar experiências religiosas. Sob a ótica da racionalidade neoliberal, a fé e a gestão eclesiástica são submetidas à lógica do mercado e a financeirização. E enquanto faz da Igreja uma empresa, o discurso religioso de pastores fundamentalistas com André Valadão se volta para atacar um suposto “marxismo cultural”, submetido a uma articulação teopolítica que visa promover um “anticomunismo preventivo”. Conforme Lincoln Secco, o anticomunismo preventivo utiliza de caricaturizações e espantalhos com objetivo de imunizar a sociedade contra qualquer discurso que ameace a hegemonia dos poderosos do sistema capitalista.
As teologias dominionistas foram historicamente financiadas por corporações capitalistas estadunidenses, preocupadas com o avanço de teologias cristãs igualitaristas, como o Social Gospel (Evangelho Social), e de organizações socialistas nos Estados Unidos. Esse processo é brilhantemente documentado pelo historiador Kevin M. Kruse no livro “One Nation Under God: How Corporate America Invented Christian America“. Nesse sentido, enquanto sacralizavam o modelo capitalista como intrinsecamente alinhado aos “valores cristãos”, os fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos mobilizaram-se contra políticas de bem-estar social, contra pautas relacionadas à igualdade de gênero e étnica, e em forte oposição à escola pública.
Recentemente, organizações religiosas como a Lagoinha e a Dunamis, além de teólogos como Franklin Ferreira e Yago Martins, têm exportado essas visões teológicas pró-capitalistas para o contexto brasileiro. Nesse contexto, o envolvimento com o escândalo do Banco Master parece ser a pá de cal que faltava para o capital religioso que a família Valadão constituiu ao longo de muitos anos. Conduzida pelo ideário da Teologia dos Sete Montes, a IBL avançou não apenas na área das artes com o “Diante do Trono”, mas também investiu em mídia, finanças e política. Na medida em que André Valadão ganhava notoriedade ao endossar a família Bolsonaro ou ao fazer declarações homofóbicas, a cúpula da Lagoinha mantinha, nos bastidores, ligações pouco cristãs com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, conforme demonstram as investigações da CPMI do INSS e da Polícia Federal sobre laços profundos que vão além da fé, envolvendo negócios, mídia, política e interesses comuns entre as famílias.
A Lagoinha e o Banco Master
No caso do Banco Master, está escancarada a relação com a família Vorcaro, que tem um histórico de doações à igreja. Um exemplo claro dessa ligação entre os Valadão e os Vorcaro é que Henrique Vorcaro, pai de Daniel, ajudou a financiar a Rede Super, emissora ligada à Lagoinha. Um dado importante é que o próprio Daniel Vorcaro atuou como apresentador do canal da Batista da Lagoinha.
Ao beneficiar o banqueiro do Master, o ministro André Mendonça (STF) abriu a porta para o crime organizado pedir tb o privilégio.
— xico sá (@xicosa) March 12, 2026
Defesa de Marcola cita caso de Vorcaro e pede visita sem monitoramento https://t.co/qrmxGcfjoB
A relação com a Lagoinha é igualmente demonstrada pelos vínculos familiares com os Vorcaro. Natália Zettel, irmã de Vorcaro, e seu esposo são pastores da Lagoinha. Além disso, o empresário e CEO da Moriah Asset, Fabiano Zettel, também foi preso na Operação Compliance Zero. Apontado como a figura que interligava os grupos, Zettel é um doador relevante em campanhas políticas de Tarcísio de Freitas e Bolsonaro. No caso do apoio a Bolsonaro, Daniel Vorcaro chegou a emprestar seu avião para que políticos bolsonaristas como Nikolas Ferreira e outros se deslocassem nas eleições de 2022.
Preso novamente em março de 2026, Daniel Vorcaro é uma peça importante no compadrio entre as famílias. Além de revelar as conexões de Daniel Vorcaro com o universo de “sugar babies”, as investigações da Polícia Federal tornaram visível a existência de um núcleo criminoso financeiro, responsável pelas fraudes na captação de recursos, e um núcleo encarregado de cooptar e corromper servidores do Banco Central. Por fim, Vorcaro arregimentava um núcleo de intimidação, conhecido como “A Turma”, uma espécie de milícia privada para ameaçar, amedrontar, perseguir e realizar monitoramento ilegal.
O ápice dessa relação, porém, é a fintech Clava Forte Bank, vinculada à liderança de André Valadão, que foi retirada do ar em meio às suspeitas de ser usada como fachada para receber doações e, possivelmente, lavar dinheiro desviado de aposentados. O fechamento da Clava Forte coincide com a prisão de Vorcaro ainda em 2015. A CPMI do INSS estima que o prejuízo dos aposentados seja de ao menos R$ 6 bilhões.
Para responder às investigações, André Valadão mobilizou um extenso jargão religioso e místico, classificando o volume de acusações como “perseguição religiosa” e “mentiras demoníacas”, afiançando que a relação com Vorcaro é estritamente de cunho religioso.
Os recentes escândalos em torno do Caso Master são uma extensão da promiscuidade entre fé e o espírito neoliberal que corrói o tecido social em diferentes espaços, inclusive nas igrejas. É preciso pontuar que, quando ainda não era o novo “Papa da Lagoinha”, em 2019, o pastor André Valadão usou o púlpito em um culto na Igreja Batista da Lagoinha para divulgar o cartão de crédito “Fé”, do Banco BMG. O produto era um consignado voltado para aposentados e pensionistas, e um serviço financeiro foi empurrado aos fiéis.
O mais preocupante não é apenas o caso em si, mas o que ele representa: o espaço sagrado sendo usado como vitrine do capitalismo e caixa de ressonância do neoliberalismo. Aos poucos, o culto vira palco para fazer negócio, e os fiéis viram consumidores. Com Valadão, porém, a coisa vai além do que muitos considerariam heresia — ele transforma a igreja num balcão de negócios escancarado, sem pudor, como se vender crédito fizesse parte da missão espiritual. Se Jesus voltasse novamente, teria novamente que expulsar os vendilhões neoliberais do templo, na base das chicotadas.
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