"Estamos testemunhando o início do fim de uma velha visão de mundo". Entrevista com Jeremy Rifkin

Foto: Levi Meir Clancy/Unplash

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04 Março 2026

O economista Jeremy Rifkin, autor de "Planeta Água", explica: "A primeira coisa a reconhecer é que não temos uma compreensão adequada do lugar em que vivemos."

A entrevista é de Luca Fraioli, publicada por Repubblica, 04-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

“Os conflitos que estamos testemunhando são o canto do cisne dos combustíveis fósseis: a indústria do petróleo e do gás está em seu fim. E o que está acontecendo ao redor do mundo mostra o nível de desespero.” O economista e ensaísta Jeremy Rifkin está em Roma para discutir o projeto Planeta Água, que nasceu de seu livro homônimo (publicado na Itália pela Mondadori em 2024) e agora adotado por muitas cidades: hoje, a Câmara Municipal da capital italiana aprovará uma resolução segundo a qual devemos repensar radicalmente nossa relação com o planeta que nos abriga, começando por sua renomeação oficial como Planeta Água.

“A primeira coisa que precisamos reconhecer é que não temos uma compreensão adequada do lugar em que vivemos”, explica Rifkin. Pensamos que vivemos em um planeta feito de terra e rochas. Na verdade, é composto principalmente de água. Esse equívoco é o verdadeiro problema: ele nos levou a acreditar que podemos administrar tudo com um plano de ação baseado na mineração, na era industrial e na cultura dos combustíveis fósseis. Mas agora é a hora de mudar essa dinâmica.

Eis a entrevista.

As crises em curso, da Ucrânia ao Irã, da Venezuela à Groenlândia, parecem marcar um retorno ao passado: o controle de territórios para gerir seus recursos minerais.

Acredito e espero que o que estamos testemunhando no Oriente Médio seja o começo do fim de uma visão de mundo antiga. Essa visão não nos permitirá sobreviver como espécie. Já estamos em meio a uma extinção em massa em tempo real: cientistas nos dizem que poderíamos perder metade das espécies vivas do planeta durante a vida de uma criança hoje.

O que você acha do governo Trump, que não esconde suas ambições para a Groenlândia e revogou muitas das regulamentações climáticas elaboradas durante os governos Obama e Biden?

Não somos políticos e não nos envolvemos em política. Mas colaboramos com governos. Já fizemos isso no passado com a liderança chinesa. E também com a União Europeia no Pacto Ecológico Europeu. E ainda com os democratas americanos sob a presidência de Biden: com o senador Chuck Schumer, nossa equipe desenvolveu um plano de US$ 17 trilhões ao longo de 20 anos, no qual cada dólar investido geraria um retorno de US$ 3 sobre o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA. Parte disso já foi perdida... Mas precisamos continuar avançando rumo a uma terceira revolução industrial, após as duas primeiras, que foram baseadas no carvão e no petróleo, respectivamente.

Que características deve ter essa nova revolução?

Tudo, da água à energia, será distribuído, não centralizado, como acontecia nas revoluções industriais anteriores. A revolução energética, por exemplo, está nos conduzindo à energia solar e eólica, que não podem ser centralizadas. Mesmo o atual sistema centralizado de água, composto por grandes barragens e reservatórios, está fadado ao colapso com a crise climática: a água está se esgotando ou transbordando. Estamos caminhando para a água distribuída e um sistema de microrredes que a coletam e distribuem... Por 6.000 anos, adaptamos a água às nossas necessidades; hoje, não podemos mais fazer isso.

Você não acha que a transição energética, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, está prestes a ser arquivada com o slogan "drill, baby drill" (perfure, meu bem, perfure)"?

Nos Estados Unidos, 88% da infraestrutura pertence aos estados, não ao governo federal. E todos os estados governados por republicanos estão investindo em energia solar e eólica.

Qual o papel da ciência em tudo isso? A ciência americana está sob ataque...

Além da política, está ocorrendo uma mudança de paradigma nos bastidores. A ciência dedutiva e indutiva desenvolvida por Aristóteles e Bacon nos permitiu alcançar grandes resultados, mas também nos levou à beira da extinção: aprendemos o que havia na Natureza, como extraí-lo e como usá-lo para nossos propósitos. Agora, uma abordagem completamente diferente está emergindo, segundo a qual o Planeta não é uma substância, mas um processo, um Todo vivo que interage com tudo, o tempo todo. E a água é a chave; é ela que determina tudo isso.

É por isso que você acha que a Terra precisa ser renomeada?

Sim, a primeira coisa a fazer é renomear o planeta. E isso não é uma jogada de marketing. Se todas as cidades do mundo, em seus estatutos e regulamentos, o chamarem de Água, em vez de Terra, serão forçadas a seguir uma nova agenda, que priorizará os recursos hídricos e a vida.

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