10 Março 2026
Sem o apoio de cristãos fundamentalistas, Donald Trump jamais teria chegado à Casa Branca. A tese é do professor Peter Lampe, de Estudos do Novo Testamento em Heidelberg, Alemanha, publicada na revista mensal Zeitzeichen, de comentários evangélicos sobre religião e sociedade, de fevereiro. Eles representam mais de um quinto de seu eleitorado, e quase dois terços de todos os pentecostais fundamentalistas evangélicos de origem latino-americana também o apoiam.
A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista.
“Para os fãs do MAGA, a verdadeira América é branca, cristã e patriarcal. ‘Grande novamente’ também significa, para eles, um retorno à supermacia branca, à supremacia masculina e à supremacia do cristianismo – ou ao que eles percebem como cristianismo”, escreve Lampe. Hordas de cristão glorificam o nacionalismo como cristão, “permitindo que o MAGA use a linguagem religiosa como disfarce para o que se revelará um conteúdo politicamente perigoso e não cristão”.
O professor navega pela história. “Um senso de missão política tem animado grupos cristãos no Novo Mundo desde pelo menos o século XIX”, que se apoiavam, entre outros, no livro do Apocalipse e à imagem do monte alto, onde João, autor do livro bíblico, teria visto a cidade santa de Jerusalém “feita por Deus do pó da terra”. A cidade “brilhante na montanha” seria, na visão dos fundamentalistas, os Estados Unidos. “Em linguagem carregada de conotação religiosa, o objetivo declarado é reconquistar as ‘sete montanhas’”, outro tema do Apocalipse bíblico, “e subjugá-las ao domínio cristão branco: política, economia, educação, mídia, arte, família e religião”, analisa Lampe.
John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos, escreveu em carta de 1813: “Nossa República pura e virtuosa perdurará para sempre, governando o mundo e levando à perfeição do homem.” A componente religiosa do nacionalismo estadunidense foi exemplificada na primeira metade do século XX pelo líder carismático pentecostal Aimee S. McPherson, uma figura de destaque da Califórnia. Segundo McPherson, escreve o professor de Heidelberg, Deus havia feito uma aliança com os Estados Unidos. Se a nação se purificasse da secularização, seria restaurada à sua “posição privilegiada como a atual Terra Santa de Deus”. Ele destaca que a Igreja dos Irmãos de McPherson representa apenas um dos mais de dois mil grupos religiosos dos Estados Unidos!
A fundamentação apocalíptica propagada por muitos evangélicos e transportada de forma irrefletida da antiguidade para o presente, divulga a ilusão de que o fim dos tempos começará quando Israel conquistar todas as terras que outrora possuía. Trump é idolatrado como um messias ou com um novo Ciro, rei da Pérsia que outrora apoiou Israel e, segundo a história bíblica, o libertou dos babilônios. “Essa hermenêutica ingênua coloca o planeta em perigo”, alerta Lampe.
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