10 Março 2026
Enquanto mísseis e drones reduzem a produção de energia em todo o Golfo Pérsico, analistas alertam que a água, e não o petróleo, pode ser o recurso mais ameaçado em uma região rica em energia, mas árida.
A reportagem é publicada por La Jornada, 08-03-2026. A tradução é do Cepat.
Centenas de usinas de dessalinização cobrem a costa do Golfo Pérsico, colocando os sistemas individuais que fornecem água para milhões de pessoas ao alcance de ataques iranianos com mísseis ou drones. Sem elas, as grandes cidades não conseguiriam sustentar suas populações atuais.
No Kuwait, quase 90% da água potável provém da dessalinização, juntamente com aproximadamente 86% em Omã e cerca de 70% na Arábia Saudita. A tecnologia remove o sal da água do mar para produzir a água doce que abastece cidades, hotéis, indústrias e parte da agricultura, em uma das regiões mais secas do mundo.
Para quem está fora do Oriente Médio, a principal preocupação da guerra contra o Irã tem sido o impacto nos preços da energia. O golfo produz cerca de um terço das exportações mundiais de petróleo cru e as receitas energéticas sustentam as economias nacionais. Os combates já detiveram o tráfego de petroleiros em importantes rotas marítimas e interromperam a atividade portuária, forçando alguns produtores a reduzir as exportações, conforme os tanques de armazenamento se enchem.
Contudo, a infraestrutura que mantém as cidades do golfo abastecidas com água potável pode ser igualmente vulnerável.
“Todo mundo pensa na Arábia Saudita e em seus vizinhos como petroestados, mas eu os chamo de reinos de água salgada. São superpotências hídricas artificiais movidas a combustíveis fósseis”, afirmou Michael Christopher Low, diretor do Centro do Oriente Médio, da Universidade de Utah. “É ao mesmo tempo uma conquista monumental do século XX e um certo tipo de vulnerabilidade”.
Primeiros sinais de risco
A guerra que começou no dia 28 de fevereiro, com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, já aproximou os combates de importantes infraestruturas de dessalinização. Em 2 de março, o Irã atacou o Porto de Jebel Ali, em Dubai, e os impactos foram sentidos a cerca de 19 km de uma das maiores usinas de dessalinização do mundo, que produz grande parte da água potável da cidade.
Também foram relatados danos no complexo de energia e água Fujairah F1, nos Emirados Árabes Unidos, e na usina de dessalinização Doha West, no Kuwait. Os danos nas duas instalações parecem ter sido causados por ataques a portos próximos ou pela queda de destroços de drones interceptados.
Neste domingo, o Bahrein acusou o Irã de atacar indiscriminadamente alvos civis e danificar uma de suas usinas de dessalinização, embora não tenha dito que o fornecimento foi interrompido. A nação insular, sede da Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos, está entre os países atacados por drones e mísseis iranianos.
Antes, o Irã disse que um ataque aéreo dos Estados Unidos danificou uma usina de dessalinização iraniana. Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do país, destacou que o ataque na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz, afetou o abastecimento de água em 30 aldeias. Alertou que, ao agirem assim, “os Estados Unidos criaram esse precedente, não o Irã”.
Muitas usinas de dessalinização do golfo estão fisicamente integradas a usinas elétricas como instalações de cogeração, o que significa que ataques à infraestrutura elétrica também podem obstaculizar a produção de água. Mesmo onde as usinas estão conectadas às redes nacionais com rotas de abastecimento de reserva, as interrupções podem se propagar em cascata através de sistemas interconectados, explicou David Michel, pesquisador em segurança hídrica do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
“É uma tática assimétrica”, apontou. “O Irã não tem a mesma capacidade de responder atacando os Estados Unidos e Israel. Mas, sim, tem esta possibilidade de impor custos aos países do golfo para forçá-los a intervir ou a pedir o fim das hostilidades.”
As usinas de dessalinização possuem múltiplas etapas - sistemas de captação, instalações de tratamento, fornecimento de energia - e o dano a qualquer parte dessa cadeia pode interromper a produção, segundo Ed Cullinane, editor para o Oriente Médio da Global Water Intelligence, que presta serviços à indústria da água.
“Nenhum desses ativos está mais protegido do que qualquer uma das áreas municipais alcançadas neste momento por mísseis balísticos ou drones”, disse Cullinane.
Uma preocupação de longa data
Há muito tempo, os governos do golfo e servidores dos Estados Unidos reconhecem os riscos que esses sistemas representam para a estabilidade regional. Se grandes usinas de dessalinização pararem de funcionar, algumas cidades podem ficar sem a maior parte de sua água potável em questão de dias. Uma análise da Agência Central de Inteligência (CIA), de 2010, alertou que ataques a instalações de dessalinização poderiam desencadear crises nacionais em vários estados do golfo, e que interrupções prolongadas poderiam durar meses, caso equipamentos críticos fossem destruídos.
Mais de 90% da água dessalinizada do golfo provém de apenas 56 usinas, destacou o relatório, e “cada uma dessas usinas críticas é extremamente vulnerável à sabotagem ou à ação militar”.
Uma mensagem diplomática estadunidense, vazada em 2008, alertava que a capital saudita, Riade, “teria que ser evacuada em uma semana”, caso a usina de dessalinização de Jubail, na costa do golfo, ou suas tubulações e infraestrutura elétrica associada sofressem danos graves.
Desde então, a Arábia Saudita investiu em redes de tubulação, reservatórios e outras medidas projetadas para atenuar interrupções de curto prazo, assim como os Emirados Árabes Unidos. Contudo, estados menores, como Bahrein, Catar e Kuwait, têm menos reservas.
As mudanças climáticas podem ameaçar as usinas de água
Com o aquecimento dos oceanos, aumenta a probabilidade e a intensidade de ciclones no mar Arábico e as chances de atingirem a terra na Península Arábica. As tempestades e as chuvas extremas podem sobrecarregar os sistemas de drenagem e danificar a dessalinização costeira.
As próprias usinas contribuem para o problema. A dessalinização requer muita energia e as usinas de todo o mundo produzem entre 500 e 850 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano, aproximando-se das cerca de 880 milhões de toneladas emitidas por toda a indústria mundial da aviação.
O subproduto da dessalinização, uma salmoura altamente concentrada, costuma ser descarregada novamente no oceano, podendo danificar habitats do fundo do mar e recifes de coral, enquanto os sistemas de captação podem aprisionar e matar larvas de peixes, plâncton e outros organismos na base da cadeia alimentar marinha.
Conforme as mudanças climáticas passam a intensificar secas, alterar padrões de chuva e alimentar incêndios florestais, espera-se que a dessalinização se expanda em muitas partes do mundo.
A ameaça não é hipotética
Durante a invasão iraquiana do Kuwait, em 1990-1991, e a subsequente Guerra do Golfo, as forças iraquianas sabotaram usinas elétricas e instalações de dessalinização ao se retirarem, disse Low, da Universidade de Utah. Ao mesmo tempo, milhões de barris de petróleo cru foram deliberadamente derramados no Golfo Pérsico, um dos maiores derramamentos de petróleo da história.
A enorme mancha ameaçou contaminar as tubulações de captação de água do mar usadas por usinas de dessalinização em toda a região. Os trabalhadores se apressaram em instalar barreiras de contenção protetoras ao redor das válvulas de captação das principais instalações.
A destruição deixou o Kuwait praticamente sem água doce e dependente de importações emergenciais. A recuperação completa levou anos.
Mais recentemente, os rebeldes houthis do Iêmen atacaram instalações de dessalinização sauditas, em meio a tensões regionais.
Os incidentes destacam uma erosão mais ampla de normas, de longa data, contra os ataques à infraestrutura civil, destacou Michel, ao mencionar conflitos na Ucrânia, Gaza e Iraque.
O direito internacional humanitário, incluindo as disposições das Convenções de Genebra, proíbe atacar infraestrutura civil indispensável à sobrevivência da população, incluindo as instalações de água potável.
A possibilidade de ciberataques contra a infraestrutura hídrica é uma preocupação crescente. Em 2023 e 2024, servidores dos Estados Unidos responsabilizaram grupos alinhados ao Irã de hackear diversas empresas de serviços públicos de água estadunidenses.
O próprio abastecimento de água do Irã está em risco
Após o quinto ano de seca extrema, os níveis de água nos cinco reservatórios de Teerã caíram para cerca de 10% de sua capacidade, levando o presidente Masoud Pezeshkian a alertar que a capital pode precisar ser evacuada.
Diferente de muitos estados do golfo, que dependem em grande medida da dessalinização, o Irã ainda obtém a maior parte de sua água de rios, reservatórios e aquíferos subterrâneos esgotados. O país opera um número relativamente pequeno de usinas de dessalinização, que atendem apenas uma fração da demanda nacional.
O Irã se apressa em expandir a dessalinização ao longo de sua costa sul e a bombear parte da água para o interior, mas as limitações de infraestrutura, os custos energéticos e as sanções internacionais limitam drasticamente sua capacidade de ampliação.
“Já estavam pensando em evacuar a capital, no verão passado”, comentou Cullinane, da Global Water Intelligence. “Não me atrevo a imaginar como será este verão sob fogo contínuo, com uma catástrofe econômica em curso e uma grave crise hídrica”.
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