O Ramadã desesperado dos palestinos: dois milhões em Gaza no frio e sem abrigo

Foto: Ali Jadallah | Anadolu Agency

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20 Fevereiro 2026

Há três anos, o mês sagrado do Islã não é mais o mesmo para os moradores da Faixa de Gaza. As vozes que vêm de Gaza dizem: "É uma época para estar com a família. Para nós, isso não existe mais." Os alimentos continuam caros; 12 ovos podem custar até 15 euros. E com o início das festividades, as forças armadas israelenses lançam uma vasta operação antiterrorista em toda a Cisjordânia.

A reportagem é de Youssef Hassan Holgado, publicada por Domani de 19-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Pelo terceiro Ramadã consecutivo, não há paz em Gaza. No ano passado, Israel havia interrompido unilateralmente a trégua em 18 de março, em pleno mês sagrado de jejum para os muçulmanos, e também havia bloqueado a entrada de todos os caminhões carregados com ajuda humanitária. A partir daquele dia, começou um longo cerco à Faixa, deixando aproximadamente dois milhões de pessoas sem comida e à mercê das incursões aéreas.

Este ano, ao contrário, a trégua ainda está em vigor, apesar das frequentes violações: os habitantes de Gaza continuam a viver em condições humanitárias péssimas. Enquanto em Washington, os chefes de Estado e de governo se reúnem para a primeira reunião do Conselho de Paz — órgão presidido por Donald Trump que tratará da governança de Gaza —, na Faixa, quase dois milhões de palestinos celebrarão o primeiro dia do Ramadã, 19 de fevereiro, no frio e sem abrigo seguro.

Para os muçulmanos, esse mês é um momento familiar e comunitário, onde todos se reúnem ao pôr do sol para interromper o jejum e festejar até altas horas. Em Gaza, essa mistura de convívio, cultura, comida e tradição não existe mais. Não há espaço nem mesmo para as luzes e as decorações que são penduradas sobre os escombros.

"Trata-se de sobreviver com o que podemos nos permitir", conta Abdel Raouf no depoimento colhido pelo Programa Mundial de Alimentos. Este ano, a organização também distribuirá refeições à população civil, mas não é a única. O Crescente Vermelho Egípcio anunciou que entregará um milhão de refeições.

Para Raouf, ficaram para trás os dias de se reunir com a família à mesa em sua casa na Cidade de Gaza. A casa foi completamente destruída pela guerra. "Alegria? Não há nenhuma", diz ele. "Só dizemos 'graças a Deus'".

Testemunhos

"O Ramadã é um tempo para estar com a família. Para nós, não é mais assim", conta Majed al Shorbaji, um palestino evacuado de Gaza no verão passado, junto com grande parte de sua família. Ele passou 18 longos meses na Faixa, deslocado diversas vezes e vivendo dia a dia. No ano passado, o mês do Ramadã foi um dos mais difíceis de todos os tempos, com um cerco total pelas autoridades israelenses. Hoje, Majed, sua esposa, filho e pais estão seguros na Itália, mas duas de suas irmãs, de 20 e 24 anos, ainda estão na Faixa. "Elas estão em Jabalia", conta. A destruição reina no norte de Gaza. Jabalia foi palco de uma longa campanha militar que arrasou não apenas o campo de refugiados, mas também quase a totalidade de seus edifícios.

Majed, assim como mais de 120 mil palestinos evacuados para o Egito a partir de 7 de outubro de 2023, está vivendo o drama da separação familiar. "Minhas irmãs moram muito perto da Linha Amarela e quase todos os dias ouvem o som de bombas e dos tiroteios." A Linha Amarela marca a fronteira controlada por soldados israelenses.

De acordo com o acordo de paz de Trump, 53% de Gaza ainda está sob controle israelense. Viver perto da Linha Amarela é extremamente perigoso. Qualquer um que se aproxime dos blocos de concreto armado colocados pelo exército corre o risco de ser fuzilado imediatamente. Suas irmãs explicam que "há mais comida do que antes, mas tudo continua caro." O frango pode custar entre 10 e 15 euros. Um saco de 15 quilos de farinha custa 10 euros, enquanto uma caixa com 12 ovos custa 15 euros.

Os preços estão mais baixos do que durante os meses de guerra, mas ainda caros para uma população que não tem mais renda.

Nas últimas semanas, entraram na cidade caminhões carregados com mercadorias para o comércio, enquanto os que transportam ajuda humanitária para a população ainda são muito poucos em comparação com as necessidades.

O anúncio das Forças de Defesa de Israel

Também na Cisjordânia, o mês do Ramadã será diferente. Como se a violência dos colonos não bastasse, o exército israelense anunciou ontem o lançamento de uma operação em toda a Cisjordânia para prender palestinos que "promovem incitação e terrorismo nas redes sociais". Acusações são vagas, considerando o histórico de Tel Aviv. "Em preparação para o mês abençoado do Ramadã e como medida para garantir a segurança e a estabilidade e combater o terrorismo, as tropas das Forças de Defesa de Israel iniciaram nos últimos dias uma operação na Judeia e Samaria contra elementos que promovem incitação e terrorismo nas redes sociais", relatou Ella Waweya, porta-voz das Idf em língua árabe.

A operação, coincidentemente, continuará durante todo o mês. O outro lado da guerra que transforma até mesmo um momento íntimo, religioso e festivo como o Ramadã em um inferno.

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