24 Janeiro 2026
No Fórum Econômico de Davos, o presidente dos EUA assinou a resolução inaugural do mandato do Conselho da Paz: "Todos querem fazer parte dele". Entre os líderes estavam Orbán, da Hungria, e Milei, da Argentina.
A reportagem é de Filippo Santelli, publicada por La Repubblica, 22-01-2026.
Está tudo ali na forma, porque além da forma, há pouco. O logotipo banal do Conselho da Paz, com um globo reduzido à América do Norte, entre dois ramos dourados que talvez pretendam ser ramos de oliveira, mas que se assemelham mais a ramos de louro. E o formato do evento, com os líderes dos países signatários sendo chamados ao palco do Fórum Econômico Mundial em Davos um a um, que no final se levantam para saudá-lo e aplaudi-lo, o grande pacificador Donald Trump.
Ele sobe ao pódio e olha para os 19. "Normalmente, há pelo menos dois de quem não gosto, mas gosto de todos estes", diz ele. É fácil entender o porquê. Há expoentes ilustres da direita antiglobalista global, como o primeiro-ministro húngaro Orbán ("este é difícil", diz Trump) e o presidente argentino Milei. Ministros dos Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita, aliados dos Estados Unidos no mundo árabe. Presidentes de pequenos estados em busca de um lugar ao sol, ou de um momento da atenção do Rei Sol, como Azerbaijão, Armênia, Cazaquistão, Jordânia, Kosovo, Paquistão e Paraguai. E, por fim, Egito e Turquia, potências de médio porte com mais de um interesse no Oriente Médio.
Seus ministros são os primeiros a se sentarem ao redor do presidente para assinar o estatuto do Conselho da Paz que — proclama uma voz — "é oficialmente uma organização internacional". E nessa primeira assembleia pouco cooperativa, Trump assina pessoalmente a primeira resolução, que implementa o mandato da ONU para Gaza."Vamos reconstruir Gaza, é um ótimo lugar, sou um incorporador imobiliário de coração", diz ele. "Vamos trabalhar em conjunto com as Nações Unidas." Uma tentativa de tranquilizar aqueles, não apenas no Ocidente, que temem que ele queira criar uma organização alternativa, um clube com um único requisito de entrada, pagando ao chefe uma taxa de entrada de um bilhão de euros. Mas seus pensamentos sobre as Nações Unidas são menos tranquilizadores: "Eles têm um potencial extraordinário, mas não o utilizam. Nas oito guerras que encerrei, nunca falei com a ONU."
O fato é que não parece haver fila para aderir ao Conselho da Paz. "Todos querem participar", garante o presidente. Sim, autocratas como Lukashenko e Putin estão prestes a serem banidos. Mas, também por esse motivo, provou-se quase imediatamente impossível para os líderes de potências democráticas — Reino Unido, Alemanha ou França — aderirem à iniciativa. E, após alguma hesitação, até mesmo para a Itália, liderada por sua amiga Giorgia Meloni, que tentou ganhar tempo escondendo-se atrás de questões de legitimidade constitucional. "Alguns países que desejam aderir devem realizar procedimentos constitucionais", afirma o Secretário de Estado Marco Rubio, aparentemente referindo-se especificamente a Roma.
O único anúncio substancial vem de Ali Shaat, o tecnocrata palestino responsável pelo Comitê Técnico para a Reconstrução. Em uma mensagem de vídeo gravada, enquanto imagens da destruição da Faixa de Gaza — que parecia tão distante — são exibidas, ele anuncia que a passagem de Rafah com o Egito será reaberta na próxima semana, em ambos os sentidos. Isso será verificado no local. O fato é que, imediatamente depois, Jared Kushner, genro de Trump, inicia sua convenção imobiliária, projetando imagens da "Nova Gaza" com condomínios ao estilo de Dubai na tela. Ele terá que lidar com todo o famoso comitê técnico, que inclui Tony Blair, sentado na primeira fila. Mas primeiro, o Hamas deve entregar suas armas: "Se não o fizer, será destruído", diz Trump. Em seguida, ele sai da sala agradecendo a todos. A primeira reunião do Conselho de Paz está encerrada.
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