Estreito de Ormuz: a segurança alimentar dos países do Golfo está em risco imediato, mas uma escassez mais ampla pode elevar os preços ao consumidor em todo o mundo. Artigo de Gokcay Balci e Ebru Surucu-Balci

Foto: elif özlem aydeniz/Pexels

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06 Março 2026

"Uma crise prolongada, combinada com o redirecionamento de navios pelo Cabo da Boa Esperança, pode intensificar as pressões sobre preços ao consumidor, logística, custos de produção e a disponibilidade de alimentos e outros bens de consumo. Isso serve como um lembrete de que tensões regionais em locais estratégicos como o Estreito de Ormuz têm consequências globais para os consumidores", escreve Gokcay Balci e Ebru Surucu-Balci, em artigo publicado por The Conversation, 04-03-2026.

Gokcay Balci é professor de Transporte de Cargas e Logística Sustentável, na Universidade de Leeds, Inglaterra.

Ebru Surucu-Balci é professora de Cadeias de Suprimento Circulares, na Universidade de Bradford, EUA.

Eis o artigo.

O regime iraniano anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz e ameaçou atacar navios que tentarem atravessar essa estreita via marítima. Alguns já foram danificados. Embora isso possa prejudicar seriamente o fornecimento global de energia e elevar os custos, as consequências na verdade vão muito além desses mercados.

O Estreito de Ormuz, localizado ao sul do Irã e que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico, é um dos gargalos mais críticos para o comércio internacional. Mais de 30 mil navios, transportando cerca de 11% do comércio marítimo global em volume, passam pelo estreito todos os anos. Além disso, cerca de 34% das exportações marítimas de petróleo e 19% dos embarques de gás natural por via marítima também atravessam essa rota.

No entanto, petróleo e gás não são as únicas mercadorias que passam pelo estreito. A região do Golfo funciona como um grande centro de transferência de contêineres que transportam bens de consumo, especialmente entre Ásia e Europa.

Junto com Jebel Ali, nos Emirados Árabes Unidos — o nono maior porto de contêineres do mundo — a região movimenta mais de 26 milhões de contêineres por ano, cerca de 80% deles em operações de transbordo (quando os contêineres são transferidos de um navio para outro). Estima-se que mais de 150 navios, com capacidade combinada de cerca de 450 mil contêineres, estejam atualmente parados na região.

O abastecimento de alimentos e da agricultura está em risco

O Estreito de Ormuz é central para o comércio global de fertilizantes. Mais de 30% da ureia — o fertilizante nitrogenado mais utilizado, produzido a partir do gás natural — é exportado por via marítima a partir dos países do Golfo.

Os preços da ureia aumentaram cerca de 14% em 2 de março, em comparação com o dia anterior. Os fertilizantes representam uma parcela significativa dos custos de produção de muitos produtos agrícolas — pouco mais de um terço dos custos tanto do milho quanto do trigo, por exemplo. Quando o aumento dos preços dos fertilizantes se combina com a alta nos custos de energia, produzir culturas agrícolas essenciais se torna mais caro.

Assim, a disponibilidade da produção agrícola e de produtos alimentares também pode ser afetada pela crise. Além de possíveis escassezes de fertilizantes, interrupções no transporte marítimo podem atingir o abastecimento. Produtos perecíveis transportados em contêineres refrigerados já correm risco de estragar, já que navios porta-contêineres permanecem parados próximos ao estreito.

Os países do Golfo enfrentam riscos particularmente elevados, porque muitos dependem fortemente da importação de alimentos. No Qatar, por exemplo, mais de 90% dos alimentos são importados, sendo que a grande maioria chega por via marítima. Com os voos ainda não operando plenamente na região, a disponibilidade de alimentos pode se tornar uma preocupação crescente.

O transporte rodoviário de alimentos a partir da Turquia poderia oferecer uma alternativa emergencial, mas a capacidade seria limitada e os custos significativamente mais altos do que os do transporte marítimo.

Além da região, os preços ao consumidor também podem subir. O aumento dos custos de energia provavelmente será um dos principais fatores, embora o impacto geral dependa de quanto tempo a crise durar e do que acontecer com os preços da energia nesse período. O preço do petróleo Brent aumentou de cerca de US$ 72 (£54) antes do início dos ataques para aproximadamente US$ 79 em 4 de março, em comparação com cerca de US$ 66 um mês antes.

Uma análise de 2023 do Banco Central Europeu indicou que a inflação na Europa poderia subir 0,8 ponto percentual caso um terço do fornecimento de petróleo e gás que passa pelo Estreito de Ormuz fosse interrompido. Na situação atual, quase todo o tráfego marítimo pelo estreito foi interrompido.

O preço de bens de consumo também pode ser afetado pelas interrupções. Os custos de transporte marítimo já aumentaram para cargas em contêiner destinadas à região, com grandes empresas de navegação impondo taxas adicionais de risco de guerra que variam de US$ 1.500 a US$ 4.000 por contêiner. Para efeito de comparação, o custo típico para transportar um contêiner de Xangai para a Europa fica em torno de US$ 2.700 a US$ 3.600, incluindo frete e taxas portuárias de movimentação de carga.

Taxas semelhantes também estão sendo aplicadas a envios entre outras regiões que não utilizam o Estreito de Ormuz, já que grandes companhias de navegação estão evitando o Canal de Suez, que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo oriental. Em vez disso, os navios estão sendo redirecionados para contornar o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.

Essa estratégia já havia sido adotada durante a crise no Mar Vermelho no final de 2023, quando os houthis no Iêmen (apoiados pelo Irã) começaram a apreender e atacar navios que passavam pela região. Nos primeiros meses da crise, os custos de frete aumentaram cerca de 250%.

De modo geral, as taxas de frete — o preço que as empresas pagam para transportar mercadorias — podem voltar a subir globalmente à medida que a capacidade de transporte marítimo diminui. No entanto, desta vez os aumentos podem ser mais limitados, porque o setor de contêineres vinha enfrentando um problema de excesso de capacidade.

Mas, talvez de forma surpreendente, custos mais altos de transporte marítimo não se traduzem necessariamente em grandes aumentos nos preços ao consumidor. Para muitos produtos, o transporte marítimo representa apenas cerca de 0,35% do preço final de venda. Porém, atrasos nas remessas e tempos de trânsito imprevisíveis podem criar desafios logísticos, como custos mais altos de estoque e escassez temporária de bens essenciais, o que pode afetar mais diretamente os consumidores.

Uma crise prolongada, combinada com o redirecionamento de navios pelo Cabo da Boa Esperança, pode intensificar as pressões sobre preços ao consumidor, logística, custos de produção e a disponibilidade de alimentos e outros bens de consumo. Isso serve como um lembrete de que tensões regionais em locais estratégicos como o Estreito de Ormuz têm consequências globais para os consumidores.

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