"Para Santo Agostinho, a justiça reside na ordem do amor (ordo amoris). Quando o Sistema Internacional inteiro falha em proteger o estrangeiro, ele não comete apenas um erro técnico; ele incorre em uma desordem ética que Santo Tomás de Aquino classificaria como a negação do bem comum", escreve Thiago Gama, mestre em História Contemporânea da Igreja Católica e Doutorando na mesma área e Instituição (UFRJ), em texto enviado ao Instuto Humanitas Unisinos - IHU.
No epicentro de um 2026 fraturado por estilhaços imperiais e pelo silêncio sepulcral das instituições do Pós-1945, a humanidade assiste não apenas ao esgotamento dos tratados, mas à falência ontológica de uma diplomacia de gabinetes que se tornou incapaz de ler o rosto do exilado.
Enquanto o Direito Internacional se dissolve sob o peso de vetos cruzados e o lawfare algorítmico transmuta o refugiado em estatística de descarte, emerge nas periferias existenciais do Irã, de Gaza e da Ucrânia uma presença que desafia a lógica da eficácia secular: o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (JRS).
Neste ensaio de fôlego, Thiago Gama (UFRJ) disseca a transição da “Governança do Controle” para a “Governança Pastoral” herdada de Francisco (e da Igreja em Saída) e mantida sob a urgência de Leão XIV.
Através do rigor da História Comparada e da sensibilidade patrística, o autor propõe que a verdadeira soberania não reside mais nas fronteiras vestfalianas — agora transformadas em trincheiras de exclusão —, mas na sacramentalidade da presença e na “mística da escuta”.
É o triunfo da biografia sobre o algoritmo; é o exercício da caridade pura como a única gramática que restará quando as estruturas de poder, em sua marcha frenética para o abismo, finalmente silenciarem.
Infelizmente, na IIIª Guerra Mundial aos pedaços, como prenunciou o Papa Francisco, surge a esperança: conheçam, neste ensaio o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (JRS).
O mundo, em sua frenética marcha em direção ao abismo, parece ter esgotado o seu repertório de respostas institucionais. No horizonte de 2026, onde o estalar das armas entre impérios e potências regionais — da Ucrânia às feridas abertas no Irã e na Palestina — desenha uma nova cartografia da dor, a humanidade assiste ao colapso do paradigma burocrático dos tratados de Vestfália (1648).
Mapa antigo da Europa. (Créditos: Licença gratuita Unplash)
As Nações Unidas, outrora o bastião da esperança coletiva da ordem do pós-Guerra (1945), hoje operam sob a paralisia de vetos e o esgotamento de uma diplomacia que fala a língua dos gabinetes, enquanto a poeira das escolas bombardeadas em Minab ainda sufoca as crianças.
O rosto como campo de batalha: Elisabeth Moss no vídeo oficial de Max Richter, transformando o “silêncio das nações” numa meditação visceral sobre a dor e a persistência do humano.
É neste hiato, nesta “mina escura” da desolação global, que uma presença discreta, mas visceral, insiste em não desertar: o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (JRS).
Aqui o historiador comparatista da UFRJ precisa prestar um serviço ao leitor e à História: Os Jesuítas são excelentes em fazer, e péssimos em divulgar o que fazem. Alguém precisa dizer à Academia Brasileira o que uma ordem religiosa faz para o mundo agora, neste momento, quase em silêncio monástico. As Relações Públicas são discretíssimas, mas o impacto é sem precedentes na História Contemporânea.
A fundação desta obra não brotou de um despacho administrativo, mas de uma ferida aberta na alma de Pedro Arrupe, SJ. Sobrevivente do horror de Hiroshima, Arrupe compreendeu que o jesuíta não é chamado a ser um gestor de assepsias, mas um “contemplativo na ação” (custasse o que custasse), que reconhece no êxodo vietnamita dos anos 1970 o mesmo rosto de Cristo que Inácio de Loyola encontrou na lama de Manresa.
Hiroshima: a "mina escura" da desolação onde a alma de Pedro Arrupe encontrou a urgência do serviço. (Créditos: Licença gratuita Unplash)
A organização, hoje estendida por 58 nações, não é uma ONG; é um apostolado espiritual que opera na “geopolítica da fragilidade”. Enquanto a eficácia das grandes agências se mede por logísticas e estatísticas, o JRS fundamenta-se na teologia do “acompanhamento”.
“O acompanhamento não é uma falha logística, mas o radical ato de escutar: onde as estruturas de poder veem números, o jesuíta reconhece o Verbo que se fez exílio.”
Para Santo Agostinho, a justiça reside na ordem do amor (ordo amoris). Quando o Sistema Internacional inteiro falha em proteger o estrangeiro, ele não comete apenas um erro técnico; ele incorre em uma desordem ética que Santo Tomás de Aquino classificaria como a negação do bem comum.
O JRS, ao atender mais de 1,1 milhão de pessoas anualmente, não busca substituir o Estado, mas denunciar sua ausência através de uma presença que é, em si mesma, um sacramento da hospitalidade.
A mística da escuta: Onde as fronteiras vestfalianas impõem a exclusão, a Companhia de Jesus exerce a "compaixão operativa", transmutando o desterro em encontro sacramental.
Nas zonas de guerra urbana e nos campos de refugiados, o jesuíta não “fornece insumos” à distância; ele habita a mesma incerteza que o refugiado, vivendo o agere contra — agir contra a indiferença sistêmica que o Papa Francisco denomina como a grande patologia do nosso século. Ele não porta um capacete azul da ONU, e nem sequer uma pistola caso as coisas saiam do controle. Seu corpo está nu em mangas de camisa, tão vulnerável quanto quem ele pretende ajudar.
É a chamada missão do tudo ou nada, diríamos. Ou o jesuíta morre tentando salvar, ou ele sobrevive junto com o refugiado. A Ordem se faz irmã siamesa do perigo mortal. É algo totalmente irracional.
Esta pedagogia da esperança não ignora o realismo político, contudo – porque ela quer ser, antes de tudo, eficaz! O início de 2026 trouxe ataques coordenados que fraturaram o Oeste da Ásia (Oriente Médio), provocando deslocamentos em massa de Teerã a Isfahan.
Relatos de escolas primárias em chamas no Irã não são apenas “dados de campo”; são a desfiguração da face de Deus na terra. Diante deste cenário, a pergunta que Inácio lançava nos Exercícios Espirituais torna-se o motor desta missão: “Que fiz por Cristo? Que faço por Cristo? Que farei por Cristo?”. A resposta do JRS é a “kenosis” da manta térmica: tornar-se pequeno para que a dignidade do outro possa, finalmente, respirar.
Neste vácuo de autoridade moral, a Companhia de Jesus emerge como a “consciência crítica das nações”. Se a ONU já não possui a capilaridade para curar as feridas que a própria lógica do descarte criou, o serviço jesuíta prova que a eficácia humanitária depende menos da burocracia e mais da qualidade das relações.
É o encontro entre a ratio acadêmica e a sensibilidade do pastor que cheira às ovelhas, como Bergoglio exortava. O saudoso Francisco tinha o DNA da Companhia.
A maioria dos jornais sequer saberiam interpretar que o que Jorge Mario Bergoglio falava provinha de uma matriz estabelecida quatro séculos antes dele. Ele refinou, não inventou.
Ele viveu em casas de formação jesuíticas o que viveu como Papa. Para aquele pontífice, e para a Ordem de onde proveio, a fronteira deixa de ser uma linha de exclusão para tornar-se o locus teológico onde a própria humanidade tenta encontrar o caminho de volta para casa.
Para compreender a eficácia do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (JRS), é necessário, leitor, que desçamos às raízes de uma espiritualidade que nunca soube ficar imóvel.
A história das instituições internacionais é a história da tentativa de conter o caos através de tratados, a história da Companhia de Jesus é a história da imersão no próprio caos.
Não se trata de uma estratégia de gestão, mas de uma herança genética que remonta a Pedro Fabro, o primeiro sacerdote da Ordem, cujo ministério era o da “conversação espiritual” em tempos de reforma e ruptura.
Fabro não buscava convencer por decretos; ele habitava a dúvida do outro. É essa mesma disposição que vemos hoje em cada fronteira onde o Estado recua e a ONU, engessada por sua própria hipertrofia burocrática, torna-se uma espectadora de luxo.
A eficácia desta missão, que alcança hoje dezenas de nações, não reside apenas na logística que move toneladas de auxílio, mas no rigor de uma “História Comparada” que identifica as feridas reincidentes da humanidade.
No Irã contemporâneo, onde o clangor (som estrondoso) das turbinas e o silêncio do terror dividem o espaço aéreo, o JRS opera sob uma lógica que escapa aos radares diplomáticos: a lógica do "facho de luz" em meio ao lawfare geopolítico.
Enquanto as grandes agências internacionais dependem da autorização de soberanias que, muitas vezes, são as próprias algozes do povo, o espírito missionário de um São Francisco Xavier — que via o Japão e a Índia não como terras de conquista, mas como alteridades a serem abraçadas — renasce no voluntário que entra em um campo de refugiados em Isfahan ou Gaza sem pedir nada além do direito de servir.
Indague-se por um momento: por que o modelo de “acompanhamento” jesuíta sobrevive onde projetos multimilionários financiados por Estados Nacionais fracassam? A resposta está naquilo que Santo Tomás de Aquino chamava de misericordia, não como um sentimento vago, mas como a virtude da “compaixão operativa”.
O abandono de Gaza é a prova cabal da falência do Direito Internacional —, o JRS intervém não apenas para distribuir pão, mas para restaurar a subjetividade do refugiado. Trata-se de reconhecer, no rosto desfigurado pelo fósforo branco ou pelo desterro, a imago Dei.
A Imago Dei no desterro: a subjetividade que o JRS busca restaurar onde a geopolítica promove o apagamento. (Créditos: Licença gratuita Unsplash)
E o que os jesuítas ganham com isso? Aliás, o que promovem? Anonimato ativo das suas ações! Às vezes o historiador humanista que vos escreve sente uma aflição legítima e a dúvida de que se a Ordem utilizasse os meios de comunicação maciça como os “Médicos Sem Fronteiras” ou ACNUR utilizam, não poderia conseguir mais logística, mais auxílio, mais dinheiro para ajuda.
Aqui eu me calo. Os jesuítas devem ter suas razões de oferecer este exercício de imolação viva, justamente para preservar a vida onde ninguém quer entrar (até porque entrar em Gaza ou no Sudão é quase um suicídio), suas próprias razões de ordem prática.
Desconfio que estas razões são profundamente evangélicas. “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita;” Mt. 6:3. E a esmola aqui oferecida pela Companhia de Jesus é a própria vida.
Este serviço não é um panfleto; é um estudo exaustivo da condição humana. Veja o exemplo de São Pedro Claver, o “escravo dos escravos”, que dedicou a vida a quem a sociedade da época considerava mercadoria.
O JRS é o herdeiro contemporâneo desse mecanismo: ele atua onde a dignidade foi precificada. Nas estatísticas que mostram a superioridade da integração de migrantes através dos corredores humanitários da Companhia, vemos uma eficácia técnica que humilha as políticas de asilo europeias.
Não há aqui adulação institucional, há o rigor de um historiador comparativista. A constatação factual de uma ordem que, por possuir um comando centralizado e uma base pulverizada nas periferias existenciais, consegue o que nenhum comitê de segurança consegue: a confiança do oprimido.
Não há mecanismo supranacional por mais moderno que inventemos que conseguirá replicar essa tecnologia quase rudimentar com que os jesuítas trabalham.
Isto não mudou: o refugiado não quer um saco de grãos e um galão de água mineral lacrado (ainda que isto seja urgentíssimo), ele quer o olhar, o carinho, o abraço, e, o sublime: o abraço humano e a voz no ouvido: ESTOU AQUI COM VOCÊ, E SÓ VOU EMBORA QUANDO ISTO TUDO TERMINAR!
É uma lástima que meus companheiros de bancos universitários não compreenderão isso por soberba pura, ou por acreditar que o Pacto de Vesfália pode ser recuperado. Caros, na eminência de uma IIIª Guerra Mundial, o Pacto de Vestfália, ou o Direito Internacional, não existem mais. O que subsiste é a caridade pura, e isso é tudo.
No Irã, o conflito não é apenas uma disputa de fronteiras; é um choque entre a “governança algorítmica” da guerra moderna e a “governança pastoral” do Papa Francisco já na Comunhão dos Santos, e das insistências de Leão XIV para que cessem as hostilidades.
Francisco, em sua Fratelli Tutti, nos recorda que ninguém se salva sozinho. O JRS é a encarnação dessa encíclica. Ele é o braço que impede que o refugiado se torne apenas um pixel em uma tela de monitoramento de drone.
Ao caminhar pela história da Ordem, percebemos que o espírito de Inácio — aquele que queria “ajudar as almas” em qualquer parte do mundo — é o único antídoto real para a desumanização que os conflitos atuais promovem.
Estamos diante da provação final de uma civilização decaída. Se o serviço dos jesuítas é hoje um dos últimos raios de esperança, é porque eles aprenderam, com a Patrística, que o estrangeiro é o próprio Cristo batendo à porta. E, no atual cenário de abandono sistêmico, o JRS não apenas abre a porta; ele se torna o próprio abrigo.
Ao observarmos a arquitetura das relações internacionais contemporâneas, percebemos que o edifício construído em 1945, sobre os escombros de uma Europa devastada, hoje apresenta fissuras que nenhum protocolo de Genebra parece capaz de selar.
A ineficácia da ONU perante o abandono da Palestina e a escalada bélica no Irã não é apenas uma falha de “governança”; é a manifestação de uma crise ontológica. As estruturas seculares, ao tentarem gerir a crise dos refugiados apenas como um problema de fronteiras e orçamentos, perdem de vista o que Santo Agostinho chamava de peregrinatio — a condição essencial do homem como viajante em busca de uma pátria que transcende o mapa.
No vácuo deixado pela diplomacia de gabinete, o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (JRS) emerge não como uma alternativa política, mas como uma resposta espiritual que compreende a história como um campo de batalha entre a “Cidade de Deus” e a “Cidade dos Homens”.
A “História Comparada” nos ensina que o poder, quando se desvincula da ética da proximidade, torna-se uma máquina de moer carne. Enquanto o Conselho de Segurança se perde em vetos cruzados sobre a ajuda humanitária a Teerã ou o reconhecimento da dignidade básica em Gaza, o mecanismo jesuíta opera sob a “discrição de espíritos” preconizada por Inácio de Loyola.
Não se trata de uma intervenção cega; é um discernimento rigoroso que percebe onde o inimigo da natureza humana — a desolação e a indiferença — está a agir. Onde a ONU envia relatórios, os jesuítas enviam o “Magis”: o “mais”, o excedente de amor que não cabe na contabilidade das agências internacionais.
Onde as potências mundiais traçam linhas de exclusão com sangue e burocracia, a mística inaciana desenha pontes com o suor do acompanhamento, provando que a dignidade humana não é uma concessão do Estado, mas um direito divino.
Indague-se, leitor, sobre a figura de Santos como Alberto Hurtado ou Miguel Pro. O primeiro, um gigante da justiça social no Chile, e o segundo, um mártir da alegria sob perseguição. Eles não eram teóricos do bem-estar social; eram operários do espírito que entendiam que “Cristo não tem mãos, apenas as nossas”. No contexto do conflito iraniano, essa presença "visceral" da Companhia de Jesus torna-se o último raio de esperança.
Enquanto a “governança algorítmica” tenta prever fluxos migratórios para contê-los, o jesuíta utiliza a “ciência da cruz” para acolhê-los. A eficácia do JRS, apoiada em números que superam a agilidade de muitas agências estatais — com programas de educação e integração que devolvem a autonomia ao refugiado —, é o testemunho de que o espírito missionário sobrevive à falência das ideologias.
Não basta dar trigo, arroz e água! Os jesuítas operam sob outra camada: Dar educação para que o refugiado consiga caminhar por suas próprias pernas quando o conflito tiver fim, ou quando conseguir asilo em outra nação.
Os jesuítas os ensinam a falar inglês(!) Por favor, quaisquer objeções a estes serviços da Companhia de Jesus vão operar na ordem da mesquinhez. Enxerguem sem ideologia o que se opera nestes acampamentos. Promoção de dignidade humana!
A Palestina, nesse cenário, é o espelho do nosso abandono. O JRS, ao atuar em regiões de conflito onde a face de Cristo é “desumanizada” pela geopolítica do sagrado, realiza um tour de force de resistência ética.
Se a ONU já não consegue impor a paz, é porque a paz não nasce de tratados, mas do reconhecimento da hospitalidade como um dever patrístico. Como ensina Tomás de Aquino, o dever para com o estrangeiro é uma extensão da caridade universal.
A Companhia de Jesus, ao habitar as periferias existenciais do Irã e da Palestina, está a salvar não apenas o refugiado, mas o que resta de humanidade em nós.
Estamos perante uma “obra-prima” de resistência silenciosa. O Papa Francisco, em seus documentos, recordou-nos que “acolher, proteger, promover e integrar” são os quatro verbos que devem guiar a nossa resposta.
No JRS, esses verbos não são apenas retórica; são a tradução pedagógica dos Exercícios Espirituais na carne do mundo. Não há aqui lugar para o barroco gratuito, mas para o rigor de uma caridade que se faz estudo, ciência e, acima de tudo, presença.
Ao analisarmos as sombras da atualidade, deparamo-nos com uma forma de agressão que transcende o projétil e o estilhaço: a violência epistemológica. Trata-se do apagamento sistemático da identidade do refugiado, transformado pelas potências ocidentais e pelos algoritmos de segurança em uma “ameaça demográfica” ou em um mero dado logístico.
No conflito do Irã — este novo epicentro de uma dor milenar —, assistimos ao uso do Direito como arma de guerra, o lawfare aplicado à exclusão. Enquanto as fronteiras se tornam tribunais de exceção, onde o estrangeiro é julgado antes de ser ouvido, o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (JRS) exerce o que poderíamos chamar de a “Justiça da Escuta”.
Esta prática não é um acessório humanitário; é uma exigência da Teologia Política Fundamental.
Quando o sistema internacional nega a verdade da subjetividade do iraniano ou do palestino em fuga, ele comete um pecado contra a inteligência. O JRS, ao oferecer defesa jurídica técnica — como evidenciado em seus relatórios de 2024 e 2025 —, não está apenas preenchendo formulários; está devolvendo o nome àqueles que o poder tentou reduzir a códigos. É a transição da “governança do controle” para a “governança do cuidado”.
“Onde o algoritmo prevê a massa para contê-la, o espírito inaciano discerne a pessoa para libertá-la: a eficácia jesuíta é a vitória da biografia sobre a estatística.”
Indague-se, leitor: o que resta da face de Cristo quando um drone decide, por um cálculo probabilístico, quem deve sobreviver em uma zona de exclusão? Resta a “resistência do sagrado”.
São Estanislau Kostka, em sua breve e intensa jornada, ensinou-nos que o caminho para o que é maior (Ad Maiora) não aceita atalhos que ignorem a dignidade do indivíduo.
No vácuo de uma ONU que assiste, impotente, à erosão da soberania ambiental e humana, os jesuítas resgatam a “Ecologia Integral” de Laudato Si’. Eles compreendem que o grito da terra, ferida pelos bombardeios no Oeste da Ásia, é o mesmo grito dos pobres que atravessam desertos. Trata-se de uma sinestesia da dor que só quem habita as periferias, no espírito de Pedro Fabro, pode verdadeiramente traduzir em ação.
É preciso recorrer a Henri de Lubac e ao que ele chamava de o “aspecto social do dogma”. A Igreja não é católica por sua extensão geográfica, mas por sua capacidade de cura universal.
O serviço prestado pela Companhia de Jesus no Irã e na Palestina de 2026 é o facho de esperança que sobrevive porque não se alimenta de orçamentos estatais voláteis, mas de uma “mística missionária” que não conhece o recuo. Enquanto a ONU se perde em assembleias que mais parecem rituais fúnebres de uma ordem que já morreu, o JRS pratica uma “hospitalidade visceral”.
Aqui o historiador será profético: Se amanhã (que Deus nos livre!) irromper uma IIIª Guerra Mundial, e Vestfália e seus acordos de criação do Estado Nacional forem parar no lixo da História, os Jesuítas são uma das únicas peças do Planeta a lidar relativamente bem com este fim.
Esta hospitalidade prestada pela Companhia não é barroca; ela é austera como o deserto e profunda como a Patrística. São João Crisóstomo dizia que, se você não encontra Cristo no mendigo à porta da igreja, não o encontrará no cálice de ouro.
O JRS leva essa máxima ao paroxismo geopolítico. No conflito do Irã, onde a tecnologia de vigilância alcança níveis de captura da subjetividade humana quase absolutos, o acompanhamento jesuíta é um ato de “desobediência espiritual”.
A 'Governança Pastoral' do legado do Papa Francisco é a única resposta eficaz contra a 'barbérie técnica' - Thiago Gama
É a afirmação de que há um reduto da alma que nenhum algoritmo pode mapear. O jesuíta, ao caminhar ao lado do refugiado, está a dizer ao mundo que a “Governança Pastoral” do legado do Papa Francisco é a única resposta eficaz contra a “barbárie técnica”.
A história da ordem, de Xavier a Arrupe, é uma sucessão de “fracassos bem-sucedidos” aos olhos do mundo. Xavier morreu às portas da China, mas abriu as portas da alma oriental para o Ocidente.
O JRS pode não ter o poder de parar os mísseis sobre Isfahan, mas ele tem o poder de garantir que nenhum refugiado morra no anonimato da alma. A eficácia que as agências internacionais perderam, o JRS a recuperou através do “sacramento da presença”. Não é apenas assistência; é a “contemplação na ação” que transforma o campo de refugiados em um santuário de resistência humana.
O leitor talvez se pergunte: haverá saída para uma humanidade que se tornou ineficaz em proteger a si mesma? A saída não está nas estruturas que falharam, mas no espírito que insiste em recomeçar.
Como Historiador, dizem os Cânones da minha Ciência, eu deveria apostar todas as minhas fichas na recuperação dos tratados albergados pelas Nações Unidas.
Eu aposto minhas fichas (sabendo que posso perder tudo), naqueles que preferem o sacrifício do serviço imediato em zonas conflagradas, ao conforto do prédio de Oscar Niemeyer em Nova York. Dali não sairá mais nada.
Dados consolidados a partir do estudo das fontes reunidas abaixo
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